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Questões do amor

Regina Navarro Lins fala de sexualidade e relacionamentos

é psicanalista e escritora, autora do livro “A Cama na Varanda”, entre outros. Twitter: @reginanavarro

A função perversa dos contos de fadas

Ao invés de desenvolver suas próprias capacidades, meninas aprendem a esperar pelo “homem salvador”

21/02/2011 15:56

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Pat, engenheira de 34 anos, separada, chegou ao meu consultório e foi logo dizendo: “Não aguento mais ter que arranjar dinheiro para pagar as contas e resolver tudo na minha vida. Estou buscando um marido que me proteja, cuide de mim e me sustente. Minha filha, no seu aniversário de seis anos, pediu uma festa com o tema de Cinderela. Ela até se vestiu dessa forma. Assim é bom, porque ela já vai se acostumando com a ideia de que é importante procurar um homem bem diferente do pai dela, que não tem dinheiro. Quando ficar maior, mesmo que tenha uma profissão, espero que se case com alguém que a proteja e garanta seu sustento.”

Não tenho dúvidas de que os contos de fadas são prejudiciais às crianças. Mas será que pais e professores se dão conta disso? Será que percebem quais tipos de ideias estão passando para as crianças, subliminarmente, por meio desses contos? Cinderela, Branca de Neve, Bela Adormecida. Modelos de heroínas românticas, que, ao contrário do que se poderia imaginar, no que diz respeito ao amor, ainda são parecidas com muitas mulheres de hoje. Mas isso não é à toa.

Desde a Antiguidade as mulheres detinham um saber próprio, transmitido de geração em geração: faziam partos, cultivavam ervas medicinais, curavam doentes. Na Idade Média seus conhecimentos se aprofundaram e elas se tornaram uma ameaça. Não só ao poder médico que surgia, como também do ponto de vista político, por participar das revoltas camponesas. Com a “caça às bruxas”, no século XVI, 85% dos acusados de feitiçaria eram mulheres. Milhares delas foram executadas, na maior parte das vezes queimadas vivas.

Segundo os manuais usados pelos inquisidores, é pela sexualidade que o demônio se apropria do corpo e da alma dos homens, dominando-os através do controle e da manipulação dos atos sexuais.
Não foi assim que Adão pecou? Como as mulheres estão essencialmente ligadas à sexualidade, elas se tornam agentes do demônio (as feiticeiras). Rose Marie Muraro na introdução do livro "O martelo das feiticeiras", escrito por dois inquisidores em 1484, chama a atenção para um detalhe importante: “eram consideradas feiticeiras as mulheres orgásticas e ambiciosas, as que ainda não tinham a sexualidade normatizada e procuravam se impor no domínio público exclusivo aos homens.”

Foto: Reprodução

Final para Branca de Neve foi feliz, ao lado do príncipe em um castelo

A partir daí podemos entender melhor como as mulheres e as personagens femininas das histórias infantis foram se tornando passivas, submissas, dóceis e assexuadas. Em "Cinderela", "Branca de Neve" e "A Bela Adormecida" existem algumas mulheres que até fazem mágicas, mas a mensagem central não é a do poder feminino, e sim da impotência da mulher. O homem, ao contrário, é poderoso. Não só dirige todo o reino, como também tem o poder mágico de despertar a heroína do sono profundo com um simples beijo. Além da incompetência de lutar por si própria, comum às principais heroínas, Cinderela é enaltecida por ser explorada dia e noite, trabalhando sem reclamar e sem se rebelar contra as injustiças. Padece e chora em silêncio. Seu comportamento sofrido, parte do treinamento para se tornar a esposa submissa ideal, é recompensado: seu pé cabe direitinho no sapato e ela se casa com o príncipe.

No entanto, o mais grave nos contos de fadas é a ideia de que as mulheres só podem ser salvas da miséria ou melhorar de vida por meio da relação com um homem. As meninas vão aprendendo, então, a ter fantasias de salvamento, em vez de desenvolver suas próprias capacidades e talentos. As heroínas das histórias estão sempre ansiosas em fazer o máximo para agradar ao homem, ser como ele deseja, e acreditam que adequar seu corpo à expectativa dele é fundamental. Não se esqueça de que Cinderela e todas as moças do reino tentam se ajustar ao sapatinho encontrado pelo príncipe — a madrasta orienta as filhas a cortar um pedaço do pé para corresponder ao que o homem espera delas.

A historiadora americana Riane Eisler afirma que “essas histórias incutem nas mentes das meninas um roteiro feminino no qual lhes ensinam a ver seus corpos como bens de comércio para conseguirem pegar não um sujeito comum, mas um príncipe, status e riqueza. Em última análise a mensagem dos ‘inocentes’ contos de fadas, como Cinderela, é que não somente as prostitutas, mas todas as mulheres devem negociar seu corpo com homens de muitos recursos.”

Em vez de desenvolver suas próprias potencialidades e buscar relações onde haja uma troca afetiva e sexual, em nível de igualdade com o parceiro, muitas mulheres se limitam a continuar fazendo tudo para encontrar o príncipe encantado.

O que você pensa a respeito dos contos de fadas? Deixe seu comentário no campo abaixo!

Há um tempo atrás perguntei a algumas pessoas o que eles pensam a respeito dos contos de fadas.

A grande felicidade não é encontrar um homem, é encontrar a si própria. Se a mulher encontrar um parceiro, tudo bem, mas se não encontrar, ela está ótima. O grande encontro do homem e da mulher é cada um consigo próprio. Cláudia Alencar (atriz)

Estamos caminhando para a dissolução do molde romântico. É um processo muito lento, talvez demore 100 anos; o ser humano levou um tempão para construir esse projeto de infelicidade. Ele chegou ao apogeu no século XIX e só nos demos conta da falência disso na virada do século, quando o Dr. Freud preconizou que o ser humano só pensa em sacanagem. Coisa que a gente já sabia há muito tempo, mas só se tornou explicitada a partir da reflexão dele. A partir dessa incompatibilidade entre a superestrutura dos sonhos e a infra-estrutura dos instintos estamos vivendo um momento conflitivo em que as coisas estão se transformando para melhor, principalmente nessa área da sexualidade e dos afetos. Geraldo Carneiro (poeta e escritor)

Há toda uma estrutura vigente que desinforma e continua insistindo nessas mentiras. As próprias novelas criam um romantismo falso, bastante prejudicial e os danos são profundos. Mas as questões sobre amor e sexo são vitais por estarem estreitamente ligadas à nossa felicidade. Chico Azevedo (dramaturgo e escritor)

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Sobre o articulista

Regina Navarro Lins - renl@gbl.com.br - é psicanalista e escritora, autora do livro “A Cama na Varanda”, entre outros. Twitter: @reginanavarro

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    29 Comentários |

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    • Carolina | 04/03/2011 12:09

      Estão subestimando as crianças de hoje. Outro dia perguntei a uma criança se ela gostava de histórias de fadas, príncipes e princesas e ela me disse sim. Porém quando lhe perguntei se ela acreditava que os personagens existiam, respondeu-me firmemente: não, não acredito; eles nascem na imaginação. Não podemos culpar os contos de fadas pela falta de discernimento de crianças. A culpa é da falta de escolas, òtimamente estruturadas, professores e pedagogos bem formados e bem entusiasmados com a educação, alunos frequentes as aulas, planejamentos bem elaborados, pais participantes da vida escolar de seus filhos,...é melhor eu parar. Se depender de mim meus filhos, netos, bisnetos... lerão contos de fadas e folclóricos, parábolas e Monteiro Lobato, porque sei que tudo que já foi escrito precisa ser lembrado e respeitado por todos, a começar por nós "pedagogos".

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    • Valéria | 01/03/2011 00:04

      Sou professora de crianças da educação infantil, acredito que através delas o mundo será melhor para nós mulheres, tenho contribuído para isso com histórias que mostram a força, a capacidade e inteligência que a mulher tem e com os pais nessa luta de mudar essa sociedade machista que ainda infelizmente é passado de pai para filho... há muito tempo não trabalho essa literatura, os clássicos sempre foi pra mim uma tradicional história que não muda, retrocede a humanidade e só estimula as crianças a serem como os personagens. Ora, se queremos que nossas crianças saibam a verdade da vida, que enfrentem realidades e que mudem o contexto literário, porque na realidade mulher é ---> mãe, mulher, amiga, irmã, dona de casa, profissional, etc... devemos nos conscientizar e contar histórias para as crianças mostrando a igualdade e direitos iguais para ambos os sexos.

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    • Marianne Serra | 28/02/2011 20:49

      Regina o artigo é realmente muito curioso, o que gera margem a algumas considerações. Os contos de fada assim como todos os textos são datados, e não devem ou deveriam expressar um modelo de felicidade em pleno séc. XXI. A criação desses modelos de comportamento é constantemente produzida e reproduzida, o que faz com que eles permaneçam incólumes. A tomada de consciência deve ser geral, não adianta as mães mostrarem que esses modelos atrasam o próprio desenvolvimento feminino, se ela for submissa ao marido, ou se as professoras colocarem as "princesas" num patamar acima, como modelos de uma felicidade que não existe e nunca existiu. Esses modelos costumam gerar casais infelizes, com mulheres que só se sentem felizes e realizadas se tiverem um "partidão" ao lado, mulheres que são incapazes de ser felizes sozinhas.

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    • luis daltro | 28/02/2011 11:54

      seria uma boa idéia se as mães fossem mais unidas, e se engajassem num projeto de estimular as artes e as ciências na cabeça das nossas meninas. seria revolucionário. mulher é sempre, e excessivamente, ligada a "beleza". sei disso, até porque... quando chamo uma mulher de inteligente... elas ficam surpresas e muito felizes com o elogio.... kkkkkkkkkkk

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    • jussara fabricio | 27/02/2011 14:39

      estou amando uma mulher muito especial estou sofrendo muito queria um conselho seu?moro so mais ja pensei em sumir porque estou amando esta mulher.me ajude

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    • Adriano | 24/02/2011 21:15

      Regina, vc tá 100% certa.. sempre entendi, até de maneira subliminar, a mensagem de submissão e dependencia da mulher nos Contos. Abraço.

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    • marcia teixeira | 23/02/2011 08:52

      Mamães, não esqueçam de ler, junto com os contos de fadas, o ótimo livro de Pedro Bandeira chamado " O fantástico mistério de Feiurinha". As suas filhinhas vão agradecer futuramente!

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    • Helena | 22/02/2011 15:32

      O que dizer de "João e o pé de feijão", " Os quatro heróis", "O patinho feio". Não têm fadas,mas são contos. Os contos fazem parte da literatura de uma época e não devem ser descartados da vida da criança. Concordo com o Douglas.
      Os pedagogos têm que aprender como lidar com os contos com os educandos. Há inúmeros contos em nosso folclore, nas histórias de Monteiro Lobato e, principalmente na mente das crianças, aqui, agora, do seu lado, do meu lado, contos de crianças reais,mas contos! Contos são escritos para meninos e meninas. Literatura, ora! Não podemos riscar a experiência dos contos de fadas da vida de nossas crianças. Elas precisam de fantasia, de encantamento, de faz-de-conta, de bruxas e bichos.
      Não é só o conto de fadas e Monteiro Lobato que estão sendo condenados hoje. Muita literatura da boa não é mais encontrada nas livrarias e bibliotecas escolares.

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      Renata | 24/02/2011 16:10

      Os contos de fada e a literaura em geral não são criados a parte, fora do contexto social.
      E a sociedade em que nós vivemos já era machista desde a época em que esses contos foram escritos. Cabe a nós, já no séc XXI, lutarmos pra que a literatura que as nossas filhas terão acesso, em casa, nas bibliotecas e escolinhas, não seja, majoritariamente, uma literatura machista, como era no nosso tempo. Precismos entender que, 90% das crianças não são acompanhadas pelos pais, não são orientadas a entender criticamente esses contos de fadas. Elas acabam apenas absorvendo, aprendendo o conforminsmo, e sonhando com os seus príncipes encantados.

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    • Alex Barsan | 22/02/2011 15:12

      Não diria que os contos de fadas para as crianças são algo perverso. Pelo ponto de vista da criança, certamente é só uma historinha que tenta mostrar qual a moral por trás dos que nós adultos, já tendo vivido algumas experiências, percebemos nessas mesmas historinhas. Mas, e o que dizer de filmes em que ainda a "mocinha" da história quer ser percebida, amada e protegida por seu suposto "príncipe encantado". O que dizer de programas de tv que ainda insistem em mostrar um formato no qual as mulheres - geralmente colocadas na posição de decidir aquele que mais lhe desperta algo - ainda se submetem a participar para finalmente encontrar o seu príncipe encantado. Fico pensando se não seria interessante pegar um conto de fadas deste e começar a contar a história a partir do "... e foram felizes para sempre". Será? Acho sinceramente que depois de alguns anos, uns 3 filhos para criar, um castelo inteiro para dar conta e ainda ter que estar bonita e cheirosa esperando o seu príncipe já nem tão encantado assim, por conta da ação do tempo e umas gordurinhas à mais a Dona Cinderela e cia limitada iriam pensar o que deu errado. Bem vindos à vida real!!

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