Desejo feminino envolve fatores psicológicos, emocionais e sociais, além do equilíbrio hormonal; falta de admiração pelo parceiro pode diminuir a libido

“Olá Fátima. Perdi completamente o tesão pelo meu marido desde que ele perdeu o emprego, depois de 18 anos na mesma empresa. Estamos casados há 20 anos. Ele é metalúrgico, tem 46 anos e ficou muito abalado com a demissão, há pouco mais de um ano. No começo, saia para procurar emprego, mas agora fica o tempo todo no sofá por não achar emprego na área dele. Sou a única que trabalha, nossos dois filhos adolescentes estão na escola. Nossas economias estão acabando. Fico culpada por não apoiá-lo mais e fico também irritada, mas gostaria que ele tivesse mais iniciativa e procurasse outra coisa para fazer.”

Cara leitora, existem duas possibilidades para esta questão. A falta de desejo pelo parceiro, entendendo o desejo como uma tensão interna que leva à busca da satisfação sexual, é a primeira. A outra é o chamado tesão, uma excitação corporal, provocada por mudanças bioquímicas que nos motivam para o sexo.

Como não sei exatamente em qual possibilidade você se encaixa, vou começar pela que parece ser a mais apropriada para o seu caso. A baixa ou ausência da libido, de acordo com sua história, confirma o que alguns estudos revelam a respeito do desejo sexual feminino: ele não é exclusivamente hormonal. Fatores psicológicos, emocionais e sociais também estão presentes e o influenciam.

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A vida afetiva e sexual pode cair em declínio quando a mulher não admira o seu parceiro
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A vida afetiva e sexual pode cair em declínio quando a mulher não admira o seu parceiro


Algumas correntes científicas preconizam o uso da testosterona para mulheres com desejo sexual hipoativo – diminuição ou ausência. Médicos que embarcaram nessa ideia acreditam que ministrar doses baixas do elemento hormonal pode resolver o problema. Porém, o resultado nem sempre é satisfatório. Essa mesma resposta irregular obtive com algumas pacientes que usaram o hormônio.

O Dr. John Randolph, professor de obstetrícia e ginecologia na Universidade de Michigan, afirma que esses profissionais têm dificuldade para comprovar o sucesso da testosterona, por várias razões. Da mesma forma, Randolph diz que o desejo sexual feminino é complexo, não podendo ser restringindo a uma questão de equilíbrio hormonal. 

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Em seu estudo para analisar a relação entre os hormônios reprodutivos e a função sexual durante a transição menopausal, ele observou que mulheres com menos decepções e nível alto de satisfação nos relacionamentos relataram uma melhor função sexual. Dr. Randolph deixa claro que o “bem-estar e a qualidade do relacionamento íntimo e emocional contribuem para a saúde sexual da mulher”. Confirmando o que outros estudos já apontavam.

Usando essa mesma linha de pensamento podemos entender claramente porque não só o seu desejo pelo marido, mas também o tesão e motivação sexual desapareceram. Sua avaliação do parceiro é negativa, já que espera dele atitudes que ele não tem.

Além disso, o problema mexeu com o fator segurança, quesito que muitas mulheres ainda desejam encontrar num homem. Resultado: a decepção, a perda da admiração e, consequentemente, a intimidade psicológica deixa de ser estabelecida entre vocês. Esse conjunto de fatores acaba levando à disfunção sexual.

Querida, entenda que é difícil para um homem de 46 anos recomeçar profissionalmente, principalmente num momento político e cultural como o nosso, onde muitos jovens não conseguem ingressar em suas profissões. Provavelmente, ele está frustrado e decepcionado com toda essa situação e especialmente com ele mesmo. Isso produz um rebaixamento na autoestima e leva a um quadro depressivo.

Converse com ele, mostre que você entende e é solidária com a dor dele. Explique que isso também te afeta emocionalmente. Quando estamos imersos num problema, é difícil perceber a crise como uma possibilidade de encontrar uma nova profissão, muitas vezes melhor do que a antiga. Ajude-o a enxergar novos horizontes profissionais, sem cobranças exageradas.

Agora, se ele não conseguir sozinho sair dessa condição emocional, precisará da ajuda de um psicólogo. Sei que a grana está curta, então vou te dar duas dicas: as clínicas - escolas das faculdades de psicologia – oferecem psicoterapia por um valor simbólico ou até gratuito. Se você tem convênio, verifique se o plano dá direito a algumas sessões ou reembolso. Tudo pode se resolver mais rápido do que você imagina. Boa sorte! 

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Fátima Protti é psicóloga, terapeuta sexual e de casal. Pós-graduada pela USP e autora do livro "Vaginismo, quem cala nem sempre consente". Escreva para a colunista: delas_amoresexo@ig.com.br .

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