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Palavra de Mãe

Thelma Torrecilha escreve sobre a dura e deliciosa tarefa de educar os filhos

é jornalista, especialista em Comunicação Social e Educação, editora do blog Mãe na Web e mãe de três filhos de gerações bem diferentes - com 28, 25 e 3 anos de idade

Vamos brincar de ser pai e mãe?

Vivenciar a rotina sem impor pressões para o lazer: as férias são uma oportunidade de realmente conhecer o seu filho

17/01/2011 14:32

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Ficar perto dos filhos, cuidar deles com calma, ouvir o que eles têm a dizer sem interrompê-los com uma frase que cala crianças o ano inteiro: “Agora não dá, estamos atrasados!” Esse pode ser o melhor programa de férias para quem não consegue dar atenção a eles como gostaria, de tão extensa a lista de tarefas a cumprir todos os dias, inclusive nos finais de semana.

O tempo de contato com os filhos, sem a urgência de um compromisso a colocar fim às conversas e brincadeiras, é cada vez mais reduzido na nossa sociedade. E a família reproduz o modelo da economia ao terceirizar responsabilidades e delegar às escolas e aos serviços especializados grande parte da educação e dos cuidados com as crianças.

Com isso, uma boa parcela da atual geração infantil está crescendo sem conseguir uns minutinhos sequer para tentar amarrar o tênis ou contar uma história fantástica que aconteceu com o amigo. Os pais estão sempre ocupados, fazem tudo correndo e não param para ouvir, olhar ou esperar que as crianças façam coisas sozinhas, com as possibilidades delas.

Que tal aproveitar para ver com alegria como ele já sabe colocar o pijama, como ela consegue fechar a fivela da sandália? O sorriso de satisfação por se ver assistido é a melhor demonstração de que precisamos dar mais tempo às crianças.

É incrível como algumas pessoas se deixam contaminar pelo ritmo frenético do dia a dia e carregam a afobação até para a praia. Calma, deixe que o menino leve o baldinho com os seus apetrechos. Ele vai devagar, derruba pelo caminho, pega de volta, mas chega lá. E chega feliz por conseguir fazer, por poder crescer.

A psicóloga e psicodramatista Norka Bonetti, da Coordenação de Departamento de Psicodrama do Instituto Sedes Sapientiae, concordou comigo sobre a necessidade de dar mais tempo às crianças, pois elas precisam que os pais vejam o que sabem fazer e o que querem aprender.

Segundo ela, muitos pais só descobrem nas férias qual é o ritmo da criança, coisa que não conseguem perceber na rotina predeterminada durante o ano. E mais do que conhecer, é preciso respeitar esse ritmo.

Ela propõe uma semana das férias para ficar em casa e experimentar um jeito de vida diferente. A sugestão é começar com um demorado café da manhã para perceber melhor a família, identificar do que cada um gosta, ouvir o que cada um quer falar. E que esse clima mais solto, sem a rigidez de horários, seja mantido por todo o dia, proporcionando às crianças a oportunidade de ficar à vontade e de manifestar o que querem fazer.

O tempo “mais largo” é importante para que os filhos possam se certificar dos hábitos, posturas e atitudes dos pais. Ao mesmo tempo, cria-se espaço para a criança expressar a sua criatividade, agir com espontaneidade e mostrar o seu jeito de ser. Esse acolhimento é fundamental para a autoestima da criança, que precisa ser reconhecida e aprovada pelos pais para crescer saudável.

O olhar disponível para os filhos também é importante nas viagens de férias. Meninos e meninas querem que a mãe veja como sabem mergulhar, que o pai elogie o castelo de areia que construíram. A criança precisa desses reforços, o endosso dos pais é necessário para o desenvolvimento emocional.

A terapeuta disse que alguns pais, “na melhor das intenções”, muitas vezes impõem um lazer intenso para as crianças, e não conseguem entender que a necessidade real delas é ficar “largadas” ao lado deles. Como investem dinheiro na programação de férias, exigem que os filhos aproveitem tudo, e fazem das recreações oferecidas por pacotes turísticos uma obrigação. As atividades ficam entre os pais e os filhos, atrapalhando a chance de aproximação.

A importância de aproveitar os momentos juntos também ficou clara na conversa com o psicólogo e psicanalista Rubens Maciel, pesquisador do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Nas férias, o melhor para a criança é a oportunidade de sentir o amor dos pais, revelado pelo interesse deles. “É fundamental, é como um alimento emocional para a criança”.

O psicanalista disse que esse período deve proporcionar o convívio e a intimidade entre pais e filhos para que a criança possa perceber o investimento afetivo contido na dedicação, no zelo e no carinho com ela. Com o cuidado amoroso que recebe no banho, na hora de escolher a roupa, nas refeições, nas brincadeiras, a criança se sente desejada pelos pais. E acreditar nisso é importante demais para o desenvolvimento infantil.

Sobre o articulista

Thelma Torrecilha - thelma.torrecilha@ig.com.br - é jornalista, especialista em Comunicação Social e Educação, editora do blog Mãe na Web e mãe de três filhos de gerações bem diferentes - com 27, 24 e 3 anos de idade

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