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Thelma Torrecilha escreve sobre a dura e deliciosa tarefa de educar os filhos

é jornalista, especialista em Comunicação Social e Educação, editora do blog Mãe na Web e mãe de três filhos de gerações bem diferentes - com 28, 25 e 3 anos de idade

Pai nem sempre é homem, nem toda mãe é mulher

Para psicólogos, filhos de uniões homoafetivas não enfrentam problemas diferentes das crianças de casais heterossexuais

23/05/2011 15:26

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Foto: Getty Images Ampliar

Para as crianças, o papel de pai ou mãe não está ligado ao sexo

A decisão do Supremo Tribunal Federal de reconhecer a união estável entre homossexuais como entidade familiar, de acordo com a Constituição Federal, nos coloca diante da diversidade da família brasileira e da necessidade de criarmos os nossos filhos para viver em sintonia com essa realidade.

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Crescendo nos dias de hoje, as crianças são preparadas para esse novo modelo de formação familiar. Mesmo não tendo uma relação homoafetiva na própria família ou no círculo social dos pais, desde a escola de educação infantil, muitas crianças percebem na convivência com os seus coleguinhas que os pais e as mães nem sempre estão nesses papéis por serem homens ou mulheres. Mas, para que essa formação familiar seja vista como tal e possa ser encarada com naturalidade pelas novas gerações, é preciso que toda a sociedade assimile as diferenças, abrindo mão de preconceitos e adaptando-se à diversidade parental.

O reconhecimento da família homoafetiva oferece às crianças uma nova maneira de viver. Mesmo a decisão do STF não sendo diretamente relacionada ao direito de casais homossexuais adotarem ou gerarem filhos, na prática, ao reconhecê-los como família, essas possibilidades ganham força. Para as crianças e adolescentes que sonham com um lar, surge uma nova esperança.

O conhecimento deve contribuir para derrubar tabus. Um estudo de mestrado do psicanalista Ricardo de Souza Vieira, no Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), com base nos discursos de casais homossexuais masculinos e femininos, mostrou a preservação das funções materna e paterna nas famílias homoafetivas. Pais e mães não precisam ser respectivamente homens e mulheres. O que importa para a criança é quem assume e de que maneira assume a educação e os cuidados com ela.

O psicanalista disse que sua atuação como psicólogo judiciário do Fórum da Comarca de Mauá (SP), onde acompanha casos de adoção e de separação envolvendo homossexuais, comprova os dados do estudo. Ele ressalta que, para o bom desenvolvimento infantil, a criança precisa de adultos que desempenhem as funções psíquicas materna e paterna – e estas funções estão descoladas da questão anatômica e fisiológica do corpo.

No psiquismo da criança, a mãe é quem oferece aconchego, entende as suas demandas traduzindo cada choro, assume os cuidados com a alimentação, a higiene e o desenvolvimento da linguagem. E o pai é quem impõe limites, mantém regras, cria a importante barreira entre mãe e filho mostrando que um não vive em função do outro, ajudando a distingui-los como duas pessoas diferentes. Ricardo Vieira afirma que essa estrutura é preservada nas famílias homoafetivas, mas lembra que ela pode não funcionar bem, assim como acontece com muitos casais heterossexuais.

A psicanalista Ana Olmos, terapeuta de crianças e orientadora familiar, atende crianças de famílias homoafetivas que se submetem à reprodução assistida. Ela também não identifica diferenças nos diagnósticos em relação a filhos de casais heterossexuais. Segundo Ana, os pais homossexuais se mostram ansiosos quando percebem problemas psicológicos dos filhos imaginando que a homossexualidade é o fator desencadeante, mas a avaliação clínica e os resultados de testes Rorschach mostram que não há diferença na estrutura do funcionamento mental dessas crianças em relação àquelas criadas por um homem e uma mulher.

Existe a possibilidade de a criança apresentar problemas por sofrer preconceito, como acontece por questões de racismo ou de pobreza, por exemplo. A maneira como cada uma vivencia a experiência familiar também depende da segurança dos pais e da forma como eles lidam com a própria sexualidade e com a pressão da sociedade. A psicanalista apontou um fator positivo de proteção às crianças: nas famílias homoafetivas que acompanha, ela encontra pais muito amorosos e comprometidos com a saúde mental dos filhos.

Esses são exemplos de que a família homoafetiva pode oferecer o amor e o afeto que tantas crianças e adolescentes precisam e esse modelo estará cada vez mais presente na sociedade contemporânea.

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Sobre o articulista

Thelma Torrecilha - thelma.torrecilha@ig.com.br - é jornalista, especialista em Comunicação Social e Educação, editora do blog Mãe na Web e mãe de três filhos de gerações bem diferentes - com 27, 24 e 3 anos de idade

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    2 Comentários |

    Comente
    • Leonardo Azevedo | 02/06/2011 14:43

      Que o Estado seja laico e que Deus fique longe da minha vida!\n\nVivemos em sociedade e todos temos os mesmo direitos, então não venha me dizer que eu sou menos natural porque eu amo pessoas do mesmo sexo que eu. \n\nE se você for criticar as novas formas de família, critique também os filhos criados por pais ausentes, ou solteiros. Critique os pais que não se amam mais, que discutem na frente dos filhos, que se separam. Critique os órfãos, critique os autoritários. E, consequentemente, critique o resto da sociedade. Qual é o problema das pessoas que as faz pensar que a única família correta é a sua família?\n\nE convenhamos, comparações entre homossexualidade e pedofilia são ridículas. Querem argumentar contra quem eu amo ou deixo de amar, vocês têm esse direito, mas ao menos o façam de forma mais inteligente.

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    • CARLOS ANTONIO NUNES DE MACEDO | 01/06/2011 09:56

      Será que ninguém se apercebe que nós estamos até digamos assim com boa intenção colocando a carroça na frente dos bois? Será que o correto, o moral, o ético, o agradável perderam o seu valor? Hoje em dia nós estamos confundindo focinho de porco com tomada elétrica. Eu receio que por estarmos aprovando tudo, o amanhã deixe de existir para nós, pois a despeito de que um grupo ache sobre o homossexualismo; toda pessoa de bom senso sabe que esta prática é no mínimo anti-natural. Eu não tenho problemas com homossexuais, pois entendo que são pessoas, que Deus ama tanto quanto eu. Já trabalhei vários anos embarcado e no serviço público com gays e sempre os respeitei e conversava com eles normalmente. Nunca tirei graça com nenhum deles e nunca os debochei, entretanto eles sabiam que nunca concordei com suas práticas homossexuais e mesmo assim trabalhávamos juntos tranqüilamente. Entendo que todos devam ser amados e respeitados, mas é importante frisar que a prática homossexual não é da vontade de Deus. Discordo plenamente desse artigo que diz que pai pode ser mulher e mãe pode ser homem. Não merece comentário. Está fora da realidade. Daqui a pouco vão achar a pedofilia normal. E porque não?..... O que vale não é o amor?.... Que Deus tenha misericórdia de nós seres humanos.

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