
Manter a criança ocupada com suas próprias brincadeiras é a maneira mais fácil de garantir um jantar despreocupado
Outro dia, em um restaurante, assisti a uma cena que me deixou perplexa: um menininho de uns cinco anos de idade deu conta de um prato de comida japonesa usando habilidosamente o hashi. Eu estava observando admirada porque nunca consegui usar aqueles pauzinhos. Ainda bem que não gosto de comida japonesa. Mas a perplexidade maior foi com a atitude da mãe: quando a criança terminou a refeição, levantou da cadeira e começou a circular devagar em torno da mesa. Ela insistia para que ele voltasse para o lugar ou iria apanhar. “Eu vou te bater!”, repetia.
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Ora, por que as crianças têm obrigação de ficarem quietas, paradas, enquanto os adultos cuidam dos seus interesses? Se os pais querem comer sossegados, porque não proporcionam entretenimento para as crianças quando estão em um restaurante?
Não saio de casa sem brinquedos ou caderno e giz de cera desde que meu filho era um bebê. A receita vem dando certo há quatro anos. Ele passa horas desenhando e pintando, enquanto os adultos conversam tranquilos do couvert ao café. Ele só interrompe a atividade para comer. Alguns amigos ficam impressionados com a concentração e a tranquilidade dele em um ambiente público.
Em viagem de férias, reparei que muitas crianças não levam nem os tradicionais baldinhos e pazinhas para a praia. Claro que não querem sair da água e ficar debaixo do guarda-sol. Para piorar, parece que está cada vez mais difícil os adultos estimularem o compartilhamento de brinquedos e a solidariedade dos filhos. Quando a criança vai se aproximando de outra que tem brinquedo, logo é chamada pelos pais, dificultando a interação e a socialização entre elas.
Até na piscina o meu filho está sempre com os seus brinquedos, carrinhos, mergulhadores, helicóptero, bonecos... E não são poucas as crianças com os olhos compridos observando a brincadeira, mas os pais delas dificultam a aproximação.
Quem nunca viajou torcendo para uma criança parar de chorar, pular e gritar dentro de um ônibus ou de um avião? E a pergunta silenciosa é sempre a mesma: por que os pais não fazem alguma coisa para essa criança parar?
A irritação dos adultos com a necessidade de brincar das crianças já começa na viagem. Quem nunca viajou torcendo para uma criança parar de chorar, pular e gritar dentro de um ônibus ou de um avião? E a pergunta silenciosa é sempre a mesma: por que os pais não fazem alguma coisa para essa criança parar? De novo a mesma receita: entretenimento!
Na nossa viagem de férias, os brinquedos eram boa parte da bagagem. Além disso, compramos uma revistinha de atividades no aeroporto. Ele foi pintando, acomodado na mesinha do avião daqui até lá. Uma menininha da idade dele, que estava sentada na nossa frente, ficou pendurada no encosto da poltrona espiando, com carinha de quem estava morrendo de vontade de pintar também.
Costumo estimular o meu filho a emprestar os brinquedos e os materiais dele para outras crianças. Ele mesmo já vai oferecendo. Em restaurantes e até na sala de espera de hospitais, arranco as folhas do caderno e distribuo para outras crianças e todos compartilham os lápis. Pena que, no caso do avião, não dava para arrancar uma página da revistinha. Aí já seria pedir demais dele.
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Thelma Torrecilha - thelma.torrecilha@ig.com.br - é jornalista, especialista em Comunicação Social e Educação, editora do blog Mãe na Web e mãe de três filhos de gerações bem diferentes - com 27, 24 e 3 anos de idade
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