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Palavra de Mãe

Thelma Torrecilha escreve sobre a dura e deliciosa tarefa de educar os filhos

é jornalista, especialista em Comunicação Social e Educação, editora do blog Mãe na Web e mãe de três filhos de gerações bem diferentes - com 28, 25 e 3 anos de idade

Namorar não é coisa de criança

É papel dos pais separar o que é do mundo adulto e do mundo infantil e não misturar tudo como muitos vêm fazendo

20/06/2011 09:05

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Foto: Getty Images Ampliar

A sexualidade precoce e distorcida afasta a criança daquilo que é próprio da idade, como o aprendizado escolar

Muitas pessoas acham engraçadinho quando crianças falam que têm namorados, trocam beijinhos e declarações de amor. Os casais apresentam bebês como ótimos pretendentes para os filhos dos amigos, pais festejam o menino que será pegador, mães vibram com as meninas que destruirão corações, vídeos de crianças apaixonadas circulam pela internet encantando multidões. O que fica na cabecinha de quem ouve ou protagoniza esse tipo de coisa? Será que essa brincadeira aparentemente inocente não está jogando a infância em um terreno perigoso?

É papel dos pais separar o que é do mundo adulto e do mundo infantil e não misturar tudo como muitos vêm fazendo. Não é à toa que cada vez mais cedo, meninos e meninas com 12 anos de idade ou muito menos “ficam” com os coleguinhas da escola e vizinhos como se fossem adolescentes. E mães de crianças com cinco anos levam um susto quando pegam as filhas beijando uma amiguinha na boca durante uma brincadeira quando as bonecas Barbie namorando já não é suficiente.

Leia também:
- Boa relação familiar é a melhor prevenção contra as drogas
- Pai nem sempre é homem, nem toda mãe é mulher

A indústria de brinquedos, roupas e cosméticos investe na “adultização” da infância e o mercado publicitário cresce às custas dos anos roubados das crianças. O problema é que os adultos, principalmente os pais, não percebem a gravidade do problema e caem na armadilha, estimulando o atropelo com brincadeiras que acabam incentivando os namoricos de mentirinha e conduzem a uma verdade preocupante: a erotização precoce.

Para a professora do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), Walkiria Grant, o namoro é a vivência da sexualidade, da atração pelo corpo do outro, portanto, não é assunto de criança. Apenas na adolescência, por volta dos 14 anos, o corpo sofre transformações e responde pela linguagem. Antes disso, qualquer iniciativa para erotizar as relações ou fantasias infantis deve ser evitada. O que os pais e a sociedade falam promove mudanças precoces interferindo negativamente no desenvolvimento infantil.

A psicanalista adverte que as afirmações dos pais sobre namoros entre crianças funcionam como o consumo de produtos para adultos na infância. A mãe que compra um sutiã de bojo para a filha de 8 anos pode estar buscando resolver, por intermédio do corpo da criança, as dificuldades com a própria sexualidade. Em geral, cria-se um movimento de fusão entre as duas. “A filha funciona como um cabide da sexualidade da mãe. O que ela não está podendo viver na sua sexualidade? É um movimento inconsciente. Ela dá para a filha o que quer para ela”, explicou. Segundo a professora, a publicidade só convence quem tem o desejo em relação ao objeto. Por isso, o desejo de compra da mãe deve servir como um alerta para que ela busque lidar com uma verdade que é dela e não da filha.

Na avaliação de Walkiria Grant, pais que têm uma vida sexual reprimida vivem a sexualidade pelo prazer dos filhos. “Quanto mais comprometida estiver a vida sexual, mais escorregam. Os pais são o grande nó: ou impedem o adolescente de namorar ou empurram o filho para a sexualidade precoce”.
Não é porque está na moda e na mídia, que todos vão agir da mesma forma. Ela ressalta que a atitude dos pais deve ser de provocar as crianças para pensarem em outras coisas. Não se deve jogar luz, valorizar, dizendo coisas como: “O meu filho é macho, já está beijando”. As crianças precisam ser estimuladas a viver em sociedade sem foco na sexualidade e nas suas vontades.

A sexualidade vivenciada de maneira precoce e distorcida afasta a criança daquilo que é próprio da idade, como o aprendizado escolar. A criança precisa estar com a sexualidade adormecida, com o foco fora do seu próprio corpo, para poder enxergar o mundo. “Ou joga a energia para a sexualidade ou joga para o aprendizado. Mais tarde, quando já teve tempo para aprender o que é das letras e dos números, tem energia para jogar com as duas coisas. A criança focada no corpinho dela não se volta para o professor. Além de problemas de sexualidade precoce, terá mais dificuldade no aprendizado escolar.” A psicanalista adverte que a criança capta o sentimento dos pais. Mesmo sem uma palavra de aprovação, se a mãe se mostrar orgulhosa porque a filha “deu um selinho”, a prática vai se repetir.

Os pais não podem ter medo de ser careta, é necessário dizer: “Isso não é coisa de criança. Você só vai beijar e namorar quando crescer.”

Mais:
- Meu filho começou a namorar, e agora?
- Como falar com seu filho sobre homossexualidade

Sobre o articulista

Thelma Torrecilha - thelma.torrecilha@ig.com.br - é jornalista, especialista em Comunicação Social e Educação, editora do blog Mãe na Web e mãe de três filhos de gerações bem diferentes - com 27, 24 e 3 anos de idade

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    23 Comentários |

    Comente
    • Edilson silva | 03/07/2011 12:16

      Excelente a exposição deste assunto, nós pais devemos, independente da opinião dos outros, cuidar e ensinar os nossos filhos, assim teremos, se não uma sociedade mais equilibrada, uma família menos desequilibrada, parabéns, escrevam mais vezes.

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    • chris | 27/06/2011 12:03

      A sensatez na vida de uma mãe ,é a esperança para sua filha quando ela se tornar uma mulher. \nComo psicóloga,parabenizo essa reportagem.

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    • simone | 22/06/2011 12:12

      e pensar que eu é que sou antiquadamas quando vejo que tem mais pais que se preocupam com a situação atual das crianças, fico muito feliz de ser antiquada, minha filha tem 10 anos e me preocupo muito com este tipo de "educação", na minha casa não se assiste novelas, quando não estão na escola, 3x por semana tem judô, e tarefas, após isso eles até assistem tv, mas filmes "infantis" mesmo, desenhos que tragam algo de bom e valioso pra a vida deles, meus filhos não vão sozinhos nem a padaria, que fica na esquina de casa, não dormem na casa dos amigos, e isso gera sempre o comentário de como sou antiquada na "educação" deles, e vejo que neste sentido da sexualidade, meus filhos são mais "atrasados" que os amigos. isso me entristesse por eles. uma infância jogada fora\ne depois???? sentirão falta dessa infância??? serão adultos mais responsáveis????\ninfelizmente é o cenário triste que vem pela frente

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    • Anahí | 22/06/2011 12:08

      Bom, achei interessante.\n

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    • GeraldoAS | 22/06/2011 09:43

      A manchete exibe uma pergunta: "Namorar não é coisa de criança. O que os pais devem fazer para separá-las do mundo adulto?"\nA resposta é muito simples... LIMITES.\nOs pais deixaram de impor os limites necessários aos filhos. Até mesmo no meio animal (irracional) os filhotes convivem dentro dos limites que seus pais colocam, exatamente para a proteção dos mesmos. Assim deveriam ser os pais humanos - como era antigamente. Em tempos antigos os pais educavam seus filhos de uma forma, rígida sim, mas eficiente e os encaminhavam para uma vida ética, saudável, honesta e conduzidos a tomar atitudes, como namorar, no tempo certo.\nUm abraço a todos.

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    • Mário Damineli | 21/06/2011 21:57

      Sempre achei que inventar namorinhos entre crianças revela frustração dos adultos, além de sempre causar embaraço para as crianças

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    • Alessandra | 21/06/2011 16:57

      Parabéns mesmo, é muito raro encontrarmos na mídia coisas que desestimulem a sexualidade tanto precoce quanto adulta. \nCreio que os que mais necessitam de conhecimentos sobre os assuntos são os pais, os quais podem criar um filho sexualmente precoce, que engravidará precocemente, que não saberá cuidar do filho, o qual crescerá com carência extrema, e por aí vai...\nÉ.. esse assunto não é brincadeira, infelizmente está faltando um pouco mais de 'maturidade' em algumas famílias.

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    • lucas | 21/06/2011 16:17

      Até que em fim alguém de cunho profissional resolveu falar, pois a cada dia as nossas crianças estão sendo expostas à adultos maliciosos por conta dos proprios pais, quando não são estes que desejam suas filhas.\nÉ hora de lembrar que os nossos filhos precisam ser crianças: brincar como, vestir, falar, e ser ouvido. Pais vamos acordar e não descarregue em seu filho aquilo que não pode fazer.

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    • Ivete | 21/06/2011 12:34

      Parabéns pela exposição. Muito correta, mas a humanidade não esta preocupada com isso. Só sabe se lamentar quando perdem os filhos para as drogas, para a prostituição, para os crimes, daí "Deus é que é injusto!" porque lhes tirou os filhos desta ou daquela forma, quando na verdade eles próprios são culpados por não saberem criar seus filhos

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    • Luiz C. Vidal | 21/06/2011 10:49

      Para isso existe somente uma palavra: NÃO.

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