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Identidade feminina

Lúcia Rosenberg escreve sobre a mulher atual

é psicóloga pela PUC-SP, mestre em Psicologia pela New School for Social Research em Nova York e autora do livro "Cordão Mágico - histórias de mãe e filhos".

Da sabedoria de menstruar em paz

As mulheres mais velhas têm a missão de esclarecer os assuntos tabu para as mais novas, reforçando a linhagem feminina

24/05/2010 12:58

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Li uma matéria a respeito da primeira menstruação e fiquei chocada com as dúvidas e medos que ainda assombram nossas meninas. Mesmo em plena globalização e tempos instantâneos da internet, com tanta informação entrando em seus quartos pela janela do computador ou da TV, elas tem a fantasia povoada de medos e mistérios do sangue. Por que será que não elas conversam com as mães? Por que não fazem suas perguntas, aquelas que os olhos arregalam até, de tanto querer saber a resposta? Antes, não se falava porque era um tabu, não era assunto, era motivo de vergonha e constrangimento; era nojento falar disso.

Antigamente as mulheres tinham que sair de casa quando menstruadas e alojar-se em comunidades próprias para isso, porque eram consideradas impuras, não podendo conviver com outras pessoas, para não contaminá-las. Ao voltarem para casa, mostravam ao marido uma esponja absorvente limpa, provando que já não estavam impuras. A impureza não era devida só ao sangue menstrual, mas ao fato de a mulher ter desperdiçado o óvulo daquele mês, em vez de fecundá-lo. Em algumas tribos indígenas, as mulheres menstruadas eram recolhidas a uma tenda específica e ali ficavam em silêncio, somente na companhia de outras mulheres silenciosas, fazendo trabalhos manuais acocoradas sobre touceiras de terra onde pingava o fluxo de sangue. Essas touceiras eram depois usadas em plantações como fertilizantes.

Como vemos, não é de hoje que o tema agrega e gera fantasias. Por isso mesmo fica mais importante abrir espaço para esse assunto com nossas meninas mais novas. Filha, sobrinha, irmã, aluna, afilhada. Cabe às mulheres mais velhas iluminar certos assuntos para as mais novas. Linhagem de mulheres. Ritos de passagem e de crescimento, portanto. Nenhum motivo para nos furtarmos dessa tarefa de passar conhecimento. Tratar o assunto com a naturalidade das coisas da vida, para que as mocinhas não se sintam traídas ao menstruar. Para que, a cada mês, a menstruação não seja vivida como fardo, um castigo, nem como doença.

A função da menstruação é bela e forte, o sinal de que estamos aptas a gerar vida! Talvez, por isso mesmo seja tão assustador para as nossas meninas de 11, 12 anos: fica marcado a sangue o fim da infância e o início de uma tarefa-magnífica-e-plena-de- responsabilidades. De repente, mas não sem avisar, termina a liberdade e a despreocupação – para usar shortinho, nadar, correr, dormir na casa da amiga, viajar. Menstruação é marco inicial da atenção com “aquelas partes”. Marcas de mulher em corpo de menina ainda distraída, ficando moça pra virar mulher. Se aprender a respeitar cada fase do seu ciclo, a vida segue mais redonda no seu respirar.

Lembro que na minha primeira vez, minha mãe cheia de orgulho deixou que escolhesse meu primeiro presente de moça. Achei lindo o gesto. Mesmo. Demos um abraço forte e me senti mais mulher, ali. Num misto de orgulho e susto então, fiz uma troca e pedi meu último presente de menina: um imenso cachorro de pelúcia verde limão que eu namorava há tempos. Chamava Marco. Precisa de Freud para explicar?

Sobre o articulista

Lucia Rosenberg - luciarosenberg@ig.com.br - é psicóloga pela PUC-SP, mestre em Psicologia pela New School for Social Research em Nova York e autora do livro "Cordão Mágico - histórias de mãe e filhos".

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