Nesse período, feira cresceu mais de 15 vezes e lançou peças que hoje são clássicas no mobiliário do mundo todo

Criar uma ponte entre pensadores e produtores. Esse sempre foi o principal objetivo do Salão Internacional do Móvel de Milão, que este mês completa 50 anos como o mais importante evento de design do mundo. E, apesar de hoje estar mais para uma grande vitrine do que há de mais moderno e criativo no design de produtos para a casa, a feira continua a ser um importante elo entre boas ideias e o mercado consumidor – incluindo indústrias e revendedores.



Nascida em 1961, em uma Itália ainda muito fragilizada, a primeira edição do salão contou com apenas 328 exibidores distribuídos numa área de pouco mais de 11 mil m², por onde passaram 12.100 visitantes. Quase nada, se comparado aos 1.326 exibidores que participaram da edição do ano passado , nos oito pavilhões criados pelo arquiteto Massimiliano Fuksas em 2006, no distrito de Rho-Pero . Com área total de 142,5 mil m² – sem contar os espaços ocupados por mostras paralelas como Euroluce e Eurocucina –, o evento recebeu 297.460 visitantes, sendo 166.578 estrangeiros – 4 mil destes, brasileiros  – e 5.110 jornalistas.

“O Salão rapidamente provou ser um excelente veículo de marketing para uma indústria altamente fragmentada – com 13 mil empresas e 20 mil pontos de venda e distribuição em todo o país. Não fosse pela criação do evento, talvez ela não tivesse mostrado todo seu potencial”, afirma Carlo Guglielmi , presidente do Comitê Organizador do Salão (Cosmit).

Ao contrário das peças de vanguarda, cada vez mais surpreendentes, expostas a cada ano, os primeiros móveis apresentados ainda traziam traços artesanais, muitas vezes desconectados dos desejos e necessidades do consumidor. Características que desapareceriam ao longo dos anos com o fomento da discussão em torno dos anseios criativos e das possibilidades reais de execução em grande escala.

Cadeira Superleggera 699, criada por Gio Ponti, para a Cassina, em 1957
Reprodução
Cadeira Superleggera 699, criada por Gio Ponti, para a Cassina, em 1957
“Naquela época, móveis de design ainda não eram populares. Preferia-se os clássicos e as peças escandinavas. Mas houve uma evolução natural do trabalho feito pelas indústrias estabelecidas no entorno de Milão, onde nasceram as raízes do que hoje chamamos ‘Made in Italy’”, completa Guglielmi.

Mas é leviano pensar que foi o Salão que direcionou o design italiano a ser o sucesso que é hoje em todo o mundo. “Nenhum movimento estético surgiu por causa do evento, mas, certamente, tudo foi parar lá. O Salão virou referência mundial de novas ideias, designers e empresas”, diz Cristine Stuermer Coli , coordenadora do Instituto Europeu de Design (IED-SP).

Tamanha força fez com que outros segmentos que complementam a indústria moveleira no dia a dia das pessoas, tais como os de objetos de decoração, tapeçaria, utensílios domésticos, iluminação e eletrodomésticos, também se beneficiassem.

Mais do que a criação de feiras bianuais voltadas à cozinha (Eurocucina), ao banheiro (Salone del Bagno), à iluminação (Euroluce) e ao mobiliário de escritório (Salone Ufficio), na semana em que acontece o evento, toda Milão se transforma com dezenas de eventos paralelos em lojas, galerias e museus, o chamado circuito Fuori Saloni . Todos voltados ao design. “É, sem dúvida, um marco que estimula novas experimentações e abre novos mercados para todo o setor”, completa Teresa Riccetti, professora de desenho industrial da Faap.

Vitrine e glamour

Poltrona em madeira criada por Marc Newson para a Capellini, em 1988
Reprodução
Poltrona em madeira criada por Marc Newson para a Capellini, em 1988
Se o surgimento do Salão do Móvel não influenciou a criação de estilos, certamente contribuiu para que o design como um todo ganhasse a projeção que tem hoje. Empresas como Capellini, Dríade, Kartell e Artemide, assim como muitos designers estrelados como o francês Philippe Starck , o egípcio Karim Hashid , a espanhola Patricia Urquiola, o holandês Marcel Wanders e o japonês Tokujin Yoshioka , ganharam maior evidência na vitrine italiana.

“As marcas foram ganhando força e o design foi se fortalecendo porque as empresas investiram em parcerias com profissionais multidisciplinares de grande talento, que também sabiam fazer seu marketing pessoal”, explica Cristine. Foi nessa dinâmica que os brasileiros Humberto e Fernando Campana alçaram seus nomes, até então quase desconhecidos até mesmo no Brasil, ao topo do design mundial.

Para auxiliar na renovação dos nomes e reforçar a vocação de fazer a ponte entre criadores e indústria, a Cosmit conta desde 1998 com o Salão Satélite . Curado por Marva Griffin , o evento paralelo apresenta a cada ano trabalhos de jovens designers do mundo inteiro como Pedro Franco, Marcelo Teixeira e Sérgio Matos, representantes do Brasil no último ano. “O Salão é um grande espaço para network, com uma força econômica imensa”, lembra Teresa. Prova disso são as parcerias firmadas recentemente entre Franco e as italianas Skitch e Missoni Home , das quais se tornou representante na América Latina.

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