No Brasil para apresentar seu mais recente projeto, o badalado designer Philippe Starck fala sobre o futuro do design e ecologia

O designer francês Philippe Starck, em São Paulo, com a cadeira Masters
Juliana Bianchi
O designer francês Philippe Starck, em São Paulo, com a cadeira Masters

“Desde os 17 anos trabalho para tornar o design democrático.” A ver pelo espremedor de frutas, o banco em forma de gnomo e a cadeira Louis Ghost (veja galeria abaixo), peças ícone facilmente reconhecidas e encontradas nas casas mais descoladas de todo o mundo, pode-se dizer que aos 62 anos o designer francês Philippe Starck atingiu seu objetivo.

“Ao longo dos anos consegui diminuir cada vez mais os custos, sem mexer na qualidade dos produtos. A redução no preço foi de até dois dígitos. Como isso, tornamos o bom design mais acessível”, diz ele, cuja nova criação, a cadeira Masters, produzida pela Kartell em plástico injetado, deverá custar em torno de R$ 800.

Mas se o plástico foi seu grande aliado para tornar o sonho realidade nos últimos 20 anos, a partir de agora, o uso da matéria-prima precisa ser revisto. “Pensar soluções para a era pós-petróleo é uma de minhas preocupações atuais”, diz ele, de olho na escassez cada vez maior do produto e não, necessariamente, no tema da moda, sustentabilidade. “A única forma de ser ecológico é reduzindo o consumo de energia e, nesse ponto, reciclar não é nada sustentável porque continua estimulando o uso de energia, tem alto custo de produção e ainda gera produtos ruins”, afirma. “Pela primeira vez na história da humanidade precisamos desacelerar para continuar a crescer.”

Para ele – que de tanto viajar já nem se considera mais um cidadão francês, mas um cidadão da companhia aérea Air France – nem mesmo o bio-plástico, feito a partir de fontes renováveis como a mandioca, a cana-de-açúcar, o milho ou a batata, é uma alternativa viável. “Usar alimentos, que poderiam ajudar a acabar com a fome no mundo, para esse fim é um crime contra a humanidade”, diz Starck, deixando uma pequena possibilidade para testes feitos a partir do óleo de rícino (obtido na mamona). “A verdade é que a utilização do plástico trouxe muito conforto ao mundo moderno e não estamos preparados para viver sem ele.”

A cadeira Masters: união da Série 7, de Arne Jacobsen, da Tulipa, de Eero Saarien, e da Eiffel Chair, de Charles Eames
Reprodução
A cadeira Masters: união da Série 7, de Arne Jacobsen, da Tulipa, de Eero Saarien, e da Eiffel Chair, de Charles Eames

Em São Paulo para apresentar a Marters, lançada em abril, durante a Semana de Design de Milão , ele falou sobre o futuro do design, suas inspirações e projetos no Brasil, entre eles a criação de um complexo cultural, com hotel, restaurantes, cinema e espaço para exposições na área do antigo Hospital Matarazzo, na Bela Vista, tombado desde 1986.

iG: Para onde caminha o design do futuro?
Philippe Starck:
Menos é a palavra-chave daqui para frente. Menos uso de matéria-prima, de energia, de consumo. A indústria dos computadores já nos mostra isso. O que antes precisava de uma sala inteira para funcionar, virou um aparelho de mesa, depois uma pasta (laptop), um envelope (tablets) e daqui em diante tende a se transformar em um cartão de visitas, um chip implantado em nossa pele, até se tornar imaterial. Quanto mais inteligente um produto for, menos material utilizará, porque, no futuro, o uso da matéria-prima acarretará um problema de custo que poderá inviabilizar um projeto.

Eloquente em seu inglês com forte sotaque francês, o designer questionou o bio-plástico
Juliana Bianchi
Eloquente em seu inglês com forte sotaque francês, o designer questionou o bio-plástico

iG: O que falta aos jovens designers?
Starck:
Visão de mudança, de como o mundo será e do que necessitará. Hoje, há muito poucas coisas que ainda não foram inventadas. O problema é que a maioria dos designers vive de uma repetição ridícula das mesmas coisas em diferentes materiais, cores e formas. Antigamente existiam alguns poucos designers e 30 boas peças de design. Hoje temos dez mil designers por todo o mundo e o mesmo número de antes de boas peças. A maior parte do que se faz é muito ruim.

iG: Como nasceu a cadeira Masters?
Starck:
Acredito que todos nós somos uma adição do que fazemos e do que os outros fazem. E o design dessa cadeira é para falar do que os outros fizeram, da história do design. Ela é o entrelaçamento, a digestão, de três cadeiras ícones: a Série 7, de Arne Jacobsen, a Tulipa, de Eero Saarien, e a Eiffel Chair, de Charles Eames. Você pode ver claramente os traços dessas três peças clássicas na Masters. Ela é uma compressão matemática de ideias, e ainda assim funciona. Se você conhece os mestres e o bom design você aumenta sua atenção à qualidade quando vai comprar.

iG: O que lhe inspira? Você já esteve inúmeras vezes no Brasil (onde co-assinou o design do hotel Fasano, no Rio). Já se valeu de alguma influência local para criar?
Starck:
Para mim, a geografia acabou. As divisões não são mais feitas pela geografia, por países, mas por culturas, sentimentos. O mundo está dividido em diferentes tribos baseadas nesses aspectos, indiferentemente de onde as pessoas estejam localizadas no mapa. Dentro desse parâmetro, o Brasil é uma tribo cheia de paixão, amor, drama, intuição, humanidade e vida. E sem essa emoção toda não existiria vida, nem design , porque depois de muito trabalhar com a sua inteligência é preciso recobrir, entremear, sua criação com muita emoção para que ela faça sentido e valha a pena.

iG: Você está desenvolvendo um novo projeto hoteleiro no Brasil. Poderia nos dar mais detalhes?
Starck:
Ainda é muito cedo para falar algo, mas estou trabalhando 10 horas por dia nisso. É um projeto junto a um jovem visionário, um Steve Jobs moderno, que vai muito além da hotelaria . Estou apaixonado por esse trabalho que certamente vai mudar o cenário de São Paulo, do Brasil e da América Latina.

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