Sem repetir fórmulas ou se deixar contaminar por referências de design, a dupla cria um novo caminho para as formas do cotidiano

As criações de Fernando e Humberto gostam de companhia de gente, de pessoas que se deliciam com o prazer, que querem se encantar. Sentamos em suas poltronas, como a Sushi e sentimos cócegas. Seus panos ficam nos pinicando, instigando. Quem é o louco de não querer uma delas no living? Eu quero! Você também, basta experimentar.



Tem uma Sushi que tem os panos mais longos, feita de feltros, plásticos e tecidos. Cinza, vermelho, xadrez escocês. Você pode se encostar e ficar enrolando as beiradas. Onde você anda agora? Pare um pouco. Enrole o tempo. Sinta a vida deste ponto de vista.

Quer fazer melhor ainda? Jogue–se num sofá BOA roxo, de veludo. Encoste o seu rosto neste macio e lembre-se da primeira vez que dividiu o seu travesseiro com alguém. Imagine-se numa almofada gigante, um ninho para você deixar sua imaginação voar. Quer uma posição mais séria? Sente-se na cadeira Vermelha, que marcou o início da produção industrial da dupla. Um “cartão de visitas”, como disse Humberto no seu livro “Campana”, publicado pela Bookmark.

Tem também a cadeira verde e a azul. Todas amarradas com fio trançado de algodão tingido. Que ideia! Uma constante busca por novos materiais. E o plástico-bolha que saiu da embalagem e foi parar na cadeira? Teve um funcionário no MoMA - Museu de Arte Moderna de Nova York que quase destruiu a cadeira, pensando que era a embalagem.

Panos longos, feltro, plástico e tecidos formam a poltrona Sushi, de 2002
Divulgação
Panos longos, feltro, plástico e tecidos formam a poltrona Sushi, de 2002
Ainda bem que não foi ele quem desembrulhou o sofá de Papel Enrrugado, com pintura eletrostática, também produzido pela Edra. A linha de papelão da dupla começou em 1993 com luminárias. Depois vieram o resto dos móveis, que inclui inclusive biombos. Uma das peças que também utilizam fios de PVC é o banco Zig Zag, uma farra no visual da casa, uma volta à infância, onde tudo se transforma em intenso prazer.

Mas, o mais gostoso é se jogar na poltrona de bichinhos de pelúcia e sermos devorados pelas nossas melhores lembranças, sonhando acordados, enroscados num amor quase perfeito. Estes móveis todos nos provocam sentimentos, nos mandam recados. Sentimos saudades dos parques quando conhecemos o banco Gangorra, de alumínio, produzido em 1997. E ficamos extasiados diante do Tapete Animado, feito de grama artificial e com uma bola feita de pele de vaca. Que coisa!

E a tal cadeira Jenette, criada sob encomenda por uma colecionadora de arte de mesmo nome. Um uso nada convencional para a piaçava, que já havia sido antes utilizada na fruteira Xingu, em forma de cocar. Os Campanas brincam com nossas fantasias, nos divertem e fazem com que já sintamos saudades mesmo antes de nos despedir.


O trabalho de Fernando e Humberto Campana inspira sentimentos que dão graça à vida. São coloridos, num sentido inesperado de cores. As combinações valem a pena, nos confortam, falam ao nosso coração. Quando interagimos com seus móveis, queremos tudo deles. Desejamos sentir a textura dos tecidos, descobrir a essência da invenção, procurando fazer parte daquele universo simples e desconcertante.

Confira entrevista com a dupla:

Além da decoração, os Irmãos Campana começam a apostar em projetos arquitetônicos
Fernando Laszlo
Além da decoração, os Irmãos Campana começam a apostar em projetos arquitetônicos
iG: Vamos falar do presente. A vida é bela?
Irmãos Campana:
Vemos nosso trabalho como uma missão, que reside em tentativas de transformar o que é feio, banal e invisível em beleza. Aí a vida passa a ser bela nas vezes que alcançamos este fim.

iG: O mundo ama os Campanas. Como é viver e sempre surpreender?
Irmãos Campana:
Não é nada fácil, pois a cada degrau que subimos o nosso nível de exigência é maior, é um diálogo interior constante. É transpiração com inspiração.

iG: Todo mundo sabe que vocês nasceram em Brotas, a infância é uma linda referência mas, aqui e agora, para onde aponta a bússola?
Irmãos Campana:
Brotas ainda continua uma grande referência em nossas vidas, mas o nosso olhar também e muito atento aos lugares novos que conhecemos a trabalho

iG: O sucesso é tanto, são tantos os prêmios, as palestras e exposições. Ainda bem que vocês são dois?
Irmãos Campana:
Isto é bem legal. Sermos uma dupla permite que nos ajudemos quando um está sem inspiração. Isso porque uma amizade muito sólida nos une além do lado profissional.

iG: Quem são os maiores consumidores dos Campanas?
Irmãos Campana:
Vão desde garotas que amam nossas sapatilhas Melissas (temos até um fã club aqui no Brasil...rs) até cantores pop.

Novo livro dos irmãos Campana fala sobre a trajetória da dupla até 2009
Divulgação
Novo livro dos irmãos Campana fala sobre a trajetória da dupla até 2009
iG: E o novo livro, falem um pouco sobre ele.
Irmãos Campana:
Nosso novo livro editado pela Rizzoli e Albion fala de toda nossa trajetória, do início quando eu fazia molduras de espelhos com caramujos, até o ano de 2009, quando tivemos que fechar a edição para que o mesmo fosse para ser impresso na gráfica. Pena que depois de fechada a edição não pudemos registrar quase 20 novos projetos, porém como o título do livro diz “Campana Brothers Complete Works (so far)" fica por conta de uma nova edição.

iG: O que está na linha de produção agora?
Irmãos Campana:
Já estamos fazendo o protótipo de novos projetos para o Salão do Móvel de 2011.

iG: Qual o futuro dos Campanas?
Irmãos Campana:
Estamos investigando novas áreas, no momento estamos projetando uma residência particular aqui em São Paulo.

iG: Qual o segredo para não se perder no sucesso?
Irmãos Campana:
Não se embriagar com ele, pois o tombo pode ser maior.

iG: O melhor da vida?
Irmãos Campana:
Estar vivo.

iG: Uma dica para quem está começando?
Irmãos Campana:
Nunca se deixe levar por tendências, concentre-se no seu interior.

Serviço:

Fernando e Humberto Campana



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