Conheça Athos Bulcão, o artista plástico que inspirou dois dos principais estilistas brasileiros nesta temporada



Quando dois grandiosos estilistas, daqueles que caminham à margem das tendências de massa, olham para o mesmo lado, na mesma temporada, sinta-se obrigado a prestar atenção.

De tão irresistível que é, o artista plástico Athos Bulcão foi fonte inspiradora simultânea para as coleções de inverno 2011 tanto de Maria Bonita como de Ronaldo Fraga. Por uma conjunção astral a mais, os dois desfilaram no mesmo dia, ontem, um seguido do outro, durante a programação do São Paulo Fashion Week. A coincidência serviu para mostrar quão amplas podem ser as interpretações de um mesmo trabalho. Neste caso, uma mais inspiradora que a outra.

Ronaldo Fraga, antes mesmo de começar o desfile, justificava de maneira apaixonada a escolha do tema, “Athos do Início ao Fim”, durante a gravação de um programa de televisão:
“Procuro trabalhar temas que tragam algo caro à moda, caro ao nosso tempo. Quando falo com as pessoas sobre Athos Bulcão elas me dizem que não sabem quem é. E eu respondo ‘sabe sim. Você conhece a obra dele, você só não sabe que é dele’.”

É exatamente esta a sensação que se tem quando descobre-se o nome do autor do mosaico de pombos do Divino Espírito Santo da Igrejinha Nossa Senhora de Fátima, no Distrito Federal, do painel azul e verde que recebe os visitantes no aerporto de Brasília ou dos grãos de café que cobrem o chão do Hospital da Lagoa, no Rio de Janeiro.

Agora, para apreciar com mais intimidade as obras que estão democrática e generosamente espalhadas pelo País, conheça um pouquinho mais da vida do artista:


Um milhão de amigos
Os caminhos que a vida de Athos Bulcão tomou tiveram, inevitavelmente, a influência de célebres amigos. O carioca nascido no Catete, em 1918, desisitiu da Medicina e tornou-se sócio de Monteiro Lobato em uma empresa de exploração de ferro. Depois tentou o teatro, sem sucesso, mas que lhe valeu a amizade de Vinícius de Morais, Fernando Sabino e Paulo Mendes Campos. Para a pintura foi levado pelas mãos de Cândido Portinari, que o chamou para ser seu assistente na execução do mural de São Francisco da Pampulha, em Belo Horizonte.

Foi neste mesmo trabalho que conheceu Oscar Niemeyer , que se tornaria, a partir de então, seu principal companheiro de trabalho. A habilidade de Bulcão em integrar arte e arquitetura impressionou o responsável pelas obras da capital Federal, que logo tratou de incorporar o ex-médico, ex-empresário e ex-ator à sua equipe.

Segundo documentos da FundAthos , entidade criada para preservar a obra do artista, “é pelo exercício da integração arquitetônica que seu trabalho começou a obter diferentes rumos. Na colaboração intensa em projetos de arquitetura redimensionou sua experiência e demonstrou a compreensão exata do papel do artista na obra arquitetônica, ou seja, estar estética e filosoficamente comprometido com as exigências do projeto, trabalhando em função do espaço proposto, destacando, valorizando, intensificando a presença da arquitetura”.

Azulejos divinos

Por mais múltiplo que tenha sido, o trabalho de Bulcão é reconhecido especialmente por sua obra em azulejos. Responsável por grandes painéis de obras públicas, traz elementos brasileiros à sua criação, desenvolvendo uma identificação imediata com quem passa, visita ou vive próximo a sua arte, exposta gratuitamente como parte da decoração pública brasileira.

Painel do Aeroporto Internacional de Brasília Juscelino Kubitschek
Divulgação
Painel do Aeroporto Internacional de Brasília Juscelino Kubitschek
Outras praças
Além dos muros e painéis, Bulcão também se dedicou a outras manifestações de arte como pintura (o teto da capela do Palácio da Alvorada, com elementos litúrgicos estilizados, é vibrante e elegante ao mesmo tempo), fotomontagens, desenhos, máscaras e miniesculturas. Falecido em 2008, Bulcão tem sua arte preservada atualmente pela influência que exerce em artistas de outros segmentos.

Muito próximo da arquitetura, as formas de Bulcão inspiram tecidos de decoração e móveis e ainda reproduções de painéis domésticos similares ao que fazia, reacendendo a arte da azulejaria hoje em dia.

E, desde ontem, também inspira coleções de moda. A grife Maria Bonita, desenhada por Danielle Jensen, acostumada a misturar despretensão e bom corte, se valeu de alguns ícones de Brasília para fazer seu mix tradicional. A silhueta lembrava os candangos, trabalhadores responsáveis pela construção da Capital federal, com volumes soltos, amarrações e bolsas incorporadas às peças.

O que foi produzido em tons sóbrios, acinzentados, ganhou luz com estampas e formas inspiradas no trabalho de Bulcão. Ao som de “Construção”, de Chico Buarque, as modelos desfilaram peças que reproduziam ladrilhos de cerâmica usando cristais Swarovski. O grafismo do artista, além de estampar, ajudou a dar movimento às criações.

Saia de Ronaldo Fraga com estampa inspirada no grafismo do painel de azulejos do Mercado das Flores, em Brasília
TriciaVieira/Fotoarena sobre foto divulgação
Saia de Ronaldo Fraga com estampa inspirada no grafismo do painel de azulejos do Mercado das Flores, em Brasília

Os motivos que levaram Ronaldo Fraga a tomar como base a estética de Bulcão para seu inverno 2011 também são nobres.

"Quando ele fez a Igrejinha Nossa Senhora de Fátima, aquela das estrelas e dos divinos, a mais famosa obra dele, dizia que o Brasil já tinha igrejas opressoras demais. Queria fazer uma que trouxesse festa, que trouxesse uma noite estrelada de São João. E nos dá aquela pérola do modernismo.”

Além da noite estrelada, as placas metálicas do teto do Congresso Nacional, os elementos gráficos do Instituto de Artes da Universidade de Brasília e as flores estilizadas do painel do Mercado das Flores ganham movimento nas criações vaporosas do estilista mineiro, que acaba de completar mais um capítulo da apostila sobre cultura brasileira que vêm apresentando na passarela.






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