No Brasil para estimular a indústria do plástico, o designer Karim Hashid fala sobre sustentabilidade e o sonho de projetar carro

O designer egípcio Karim Hashid
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O designer egípcio Karim Hashid
O rosto não escondia o cansaço com a visita de menos de 48 horas ao Brasil, onde esteve nesta semana a convite da Export Plastic – programa ligado à Agência Brasileira de Promoção e Exportações e Investimentos ( Apex ) e ao Instituto Nacional do Plástico. Mas a agilidade nas respostas e a impecável roupa branca com pinceladas de rosa – cor que se tornou sua marca registrada – não deixava dúvidas de que Karim Rashid ainda tinha muito a deixar de si.

Apontado pela revista “Time” como “o príncipe do plástico ”, título que parece lhe cair como uma luva tendo em vista seus trabalhos mais festejados nos últimos anos, o designer egípcio (naturalizado americano) veio justamente para incentivar o uso do design como diferencial competitivo na indústria plástica nacional e participar de rodadas de negócio com clientes potenciais. “Não há dúvidas de que o uso do plástico tornou o mundo mais fácil. Mas é preciso repensar esse material”, diz Rashid.

A solução, ele mesmo indica: é preciso investir na reciclagem do plástico, bem como incentivar mais pesquisas e usos para o plástico ecológico, feito a partir de matérias-primas renováveis, como a cana-de-açúcar e o milho. “Falo isso há mais de 10 anos às indústrias, mas a decisão final não é minha. Meu papel é ser um provocador e mostrar as possibilidades de se ter um mundo melhor, de se agir com responsabilidade social.”

Com projetos espalhados em 42 países, entre eles o Brasil – ele já desenvolveu, entre outros, um calçado para a Melissa, um aspirador de pó portátil para a Brastemp e uma luminária para a Via Light –, Karim Rashid acredita que estamos vivendo uma nova fase do design, na qual não há barreiras de estilos, referências ou culturas. “Até poucos anos atrás as empresas faziam diferentes verões de um mesmo produto dependendo do país para onde ele seria exportado. Hoje está tudo massificado”, diz ele, incluindo nesse movimento o próprio trabalho dos designers, que estão cada vez mais globalizados. Ele mesmo garante que 90% de seus projetos estão fora dos Estados Unidos, onde está sediado seu escritório.

Espreguiçadeira com formas orgânicas criada por Karim Hashid
Divulgação
Espreguiçadeira com formas orgânicas criada por Karim Hashid
Questionado sobre a participação da China nesse contexto ele acredita que o potencial de desenvolvimento de design do país está só começando. “Até agora, tudo o que conhecíamos como produto chinês eram cópias do ocidente, mas eles têm jovens designers que estão despontando.”


Design é pensar o futuro


Quem vê o portfólio de Karim Rashid acha difícil encontrar um segmento no qual ele ainda não tenha se embrenhado, de mamadeiras a talheres , móveis, relógios, garrafas, telefones celulares e sua mais nova paixão, interiores de hotéis . “É muito bom poder trabalhar com uma visão mais ampla, projetando todos os detalhes de um ambiente, dos móveis, ao tapete , cortinas , papelaria, tecidos”, comenta ele, que começa também a tomar gosto pela arquitetura fazendo o caminho oposto ao habitual (arquitetos que se tornam designers de interiores e objeto). “Os arquitetos raramente pensam nos detalhes, eles gostam de olhar o todo, mas se esquecem de que, à noite, eles também vão querer dormir em uma cama confortável.”

Mas nem mesmo a recente descoberta deste novo campo de trabalho afasta de Rashid o desejo de inovar em novas áreas. “Adoraria criar uma câmera fotográfica . Já reparou que, tirando a dos celulares, ela continua a ter o mesmo formato de quando ainda precisava de filme?” Outra vontade criativa, essa ainda mais forte, é de projetar um automóvel elétrico . “Primeiro porque odeio carros e o trânsito que eles geram, segundo porque seria uma imensa oportunidade de mudar os status quo."

Para ele, o desenho dos veículos de hoje estão ultrapassados e mesmo os novos modelos são apenas adaptações sem grandes inovações. “Um carro elétrico, com placas fotovoltaicas em toda sua extensão, dispensaria motor e nos daria perspectivas totalmente novas de criação.” Entretanto, se engana quem pensa que a mudança vislumbrada por Karim Rashid passa apenas pelo visual. “Design tem a ver com solucionar problemas contemporâneos e outros que ainda surgirão no futuro, e não dar nova roupagem às coisas”, diz, criticando o uso indiscriminado da palavra por cabeleireiros que se autoproclamam “hair-designers”, manicures que viram “nail-designers” etc. “Isso pode até ser ‘styling’ (referente a estilo), mas duvido que um novo corte de cabelo ou pintura de unha vá transformar a vida de alguém.”


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