Conheça a trajetória do arquiteto polonês que faz parte da história do design brasileiro

Bastam alguns minutos de conversa para saber que, mesmo prestes a completar 88 anos, o arquiteto e designer Jorge Zalszupin, hoje um respeitável senhor de azuis profundos e cabelos brancos penteados para trás de maneira impecável, continua a ser um visionário.

Criador da cadeira Dinamarquesa, uma das peças mais populares do design brasileiro desde 1959, este polonês, nascido na cidade de Varsóvia e habitante do Brasil há 61 anos, prepara para setembro o lançamento de mais uma nova coleção. Agora sob a tutela de Etel Carmona e sua fidelidade às madeiras certificadas e ao trabalho sustentável.

“Estou bolando muitas coisas. Já dei a ela vários modelos para serem produzidos, mas ainda virão novidades. Tem de tudo: bar, poltronas, muitas mesas baixas”, diz ele, confortavelmente acomodado em um dos inúmeros protótipos que mobíliam sua casa.

Questionado sobre a cadeira que lhe deu fama, e que hoje também é produzida pela empresa de Etel, ele ainda guarda a modéstia dos primeiros anos como designer profissional. “Aquele foi o primeiro objeto que desenhei e não percebi que poderia ser um grande sucesso. Sabia que a Mole, do Sérgio [Rodrigues], seria histórica, mas não conseguia ver isso na Dinamarquesa”, diz, citando a poltrona que se tornou ícone do trabalho de outro grande designer brasileiro, festejado no mundo todo.

A paixão nascida dos livros

Apesar do reconhecido talento para o design, Jorge Zalszupin nunca abandonou seu lado arquiteto. “Agora estou mais envolvido no design, mas isso porque o design depende mais de mim e arquitetura, do cliente.”

A profissão entrou na vida de Zalszupin de maneira curiosa. “Sempre quis ser engenheiro para fabricar automóveis”, conta ele. Mas a vontade acabou por volta dos 15 anos, ainda em Varsóvia, antes da Guerra, quando passou em frente a uma livraria. “Entrei e vi um livro grande, com capa de juta e vários croquis, onde estava impresso apenas duas letras: L e C. Fui olhando e descobri que era de Le Corbusier. Fiquei apaixonado.”

A história, revista hoje, chega a soar estranha uma vez que, naquela época, a arquitetura com fachadas fechadas e janelas pequenas para proteger do frio na Polônia não tinha nada de sexy. “Não tinha nada que me seduzisse. Nenhuma daquelas formas do Niemeyer”, lembra Zalszupin.

E foram justamente as sinuosidades do mestre que incentivaram o então jovem arquiteto formado na Romênia a trocar a reconstrução de uma França pós-guerra pelo Brasil. “Conhecia o trabalho dele pela revista 'L'Architecture d'Aujourd'hui' e aquilo me dizia que o Brasil era um país para arquitetos.”

Aqui, acabou descobrindo um novo nicho, o do design. “Depois que construía a casa, os clientes acabavam me pedindo para criar também os móveis. Acabei me associando a marceneiros e criando as primeiras séries.”

Sensualidade e arte

Além do talento para os desenhos e os negócios, Jorge Zalszupin descobriu nos últimos anos que também tem jeito para as artes plásticas. “Comecei a me dedicar quando já não tinha mais que ir para fábrica todos os dias ou levar o trabalho tão a sério. Foi uma forma de ocupar o tempo. Estava cansado de não fazer nada”, conta rindo, entre quadros feitos com pedaços de madeira, papel e espelho. Todos fiéis às formas puras e sensuais que caracterizam sua obra.

Aliás, sensualidade é a palavra de ordem no trabalho de Zalszupin. “Gosto passar a mão nas coisas e a madeira é extremamente sensual, quente e viva, principalmente se você a trabalha de forma arredondada, respeitando sua natureza”, afirma, apontando características que, a seu ver, não podem ser encontradas no alumínio ou no vidro.

“O ser humano precisa de coisas quentes, que lhe dão a sensação de estar protegido. Procuro muito essa proteção contra o exterior, talvez por causa da Guerra.”

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