A dupla brasileira diz que reconhecer seus traços em outros profissionais torna o trabalho de se reinventar ainda mais difícil

A mesa Cotto e a Luminária-escultura são lançamentos dos irmãos Campana
Juliana Bianchi
A mesa Cotto e a Luminária-escultura são lançamentos dos irmãos Campana
Já se vão quinze anos desde que Humberto e Fernando Campana participaram pela primeira vez da Semana de Design de Milão, considerada a mais importante do segmento. De lá para cá ganharam fama internacional e firmaram parceria com diversos fabricantes em todo o mundo. Caso da casa de champanhe Veuve Clicquot, e das marcas Edra, Venini, Rossana Orlandi, Nodus e Cosentino, para as quais desenvolveram peças e instalações exclusivas, lançadas nesta semana. “Esta é uma das edições em que temos mais novidades para apresentar”, afirma Humberto Campana.

Conversamos com a dupla no intervalo de uma das dezenas de entrevistas que eles deram ao longo do dia, na capital mundial do design.

iG: O Brasil é um dos países que mais mandam visitantes para a Semana de Design de Milão. Por que isso não se repete entre os expositores?
Humberto Campana:
Não sei, temos muitos talentos no Brasil fazendo muita pesquisa contemporânea. Talvez quando se fala do seu quintal, como nós, que sempre fizemos uma fotografia do nosso entorno, você consiga se comunicar e se destacar mais.

iG: Dizem que é mais difícil se manter no topo do que chegar lá. É verdade?
Humberto: Com certeza. A cada dia a pressão para não se repetir é maior. Precisa de um exercício diário de superação para se reinventar, principalmente quando vemos que influenciamos toda uma geração, na qual nos enxergamos. Com o tempo e a maturidade, a exigência fica ainda maior, e até nos entusiasmarmos com algo novo vai muita pesquisa de materiais e estudos técnicos.

iG: Suas criações, assim como as dos grandes designers, ainda são para poucos. Há uma preocupação em democratizar o design?
Humberto:
Nossos projetos têm uma grande carga política e democrática, mas ainda são muito artesanais. Queremos sim poder levar nossas criações para mais gente, o que começamos a fazer com a Melissa e a Alessi, mas é difícil chegar a esse ponto sem perder a humanização do trabalho, que é muito importante.

iG: Desde o começo vocês trabalham com material reciclado, o que é uma forte tendência neste ano. Este caminho tem volta?
Fernando Campana:
Criar menos impacto na natureza tem que ser uma preocupação constante daqui pra frente, em todas as áreas.
Humberto: Mas é preciso criar poesia, fantasia e emocionar com esses materiais. Não ficar no apenas no trabalho com o material, senão fica “ecochato”. É preciso deixar o produto atraente.

iG: Vocês têm peças suas em casa?
Humberto: Tenho todos os protótipos, até para mostrar que são usáveis. Minha casa é meu universo. É claro que é um pouco diferente da casa dos outros, porque parece um cenário, mas é um cenário que funciona.

iG: Como é o convívio de vocês?
Fernando: Nós estamos juntos porque brigamos todos os dias. (rindo) Tiramos férias juntos, temos os mesmos amigos...
Humberto: Mas no trabalho, cada um tem o seu estilo. Eu, por exemplo, sou mais intuitivo e gosto de trabalhar com as mãos.

iG: Vocês já fizeram projetos ligados ao mobiliário, à moda, à cenografia... Em que área ainda não atuaram, mas gostariam?
Fernando: Queria fazer um avião.
Humberto: Adoraria criar um carro biodegradável, que se desfizesse em quatro ou cinco meses.

iG: E na arquitetura?
Fernando: Estamos para estrear nessa área. Acho que no segundo semestre já começamos a construir a primeira residência criada por nós. Será uma casa de três andares, com cerca de 400 m², no Jardim Europa, em São Paulo. Foi demanda de um cliente italiano.

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