Premiado por suas criações com materiais reciclados, o designer Alejandro Sarmiento fala sobre a necessidade de experimentação e quebra de barreiras comportamentais

Em meados da década de 80, quando iniciei meus estudos na Universidade de Buenos Aires, tinha um jovem docente chamado Alejandro Sarmiento que já ganhava prêmios internacionais de design. Em 95 tivemos oportunidade de trabalhar juntos para o Progetto Biológico, da empresa italiana Alessi e há seis anos ele criou, ao lado da jornalista especializada em design Luján Cambariere, o projeto Sartori .

Dirigido a estudantes e jovens profissionais das áreas do design - industrial, gráfico, têxtil, moda, imagem, som e arquitetura -, os Satorilab são oficinas experimentais que têm como base o uso de materiais industriais reciclados. “Nossos pilares são o pensamento e a experimentação”, afirma Sarmiento que, a convite da curadora Adélia Borges, participou do seminário internacional Innovation Lab, realizado durante a Bienal Brasileira de Design Curitiba 2010.

Conversamos com Sarmiento para saber como o design pode colaborar para a sociedade contemporânea.

iG: Como acontecem os Labs?
Alejandro Sarmiento:
Os laboratórios são experiências intensivas de uma semana a um mês, com temas específicos. Os assuntos escolhidos são sempre valores essenciais da vida, que servem como estímulo para começar a refletir, pesquisar, explorar e, por meio dos materiais reciclados, criar consciência do consumo desmedido e seu impacto no meio ambiente, e como o design pode colaborar para diminuir isso. Como uma usina de criação, queremos possibilitar o acesso a tecnologias e materiais, fomentar a cultura do pensar, a experimentação e o trabalho coletivo, sem egos.

iG: Como você começou a se interessar por aliar o design criativo à questão da sustentabilidade?
Sarmiento:
Sempre fiz assim, porém não sabia. A palavra sustentabilidade apareceu com força no mundo a partir de 2000 e, hoje, os workshops nos permitem desenvolver uma atividade coletiva, que colabora com projetos sociais e beneficia um coletivo mais vulnerável.

iG: As pessoas ainda têm muito preconceito para comprar peças feitas com material reciclado?
Sarmiento:
Isto já está mudando e estamos colaborando para acelerar esta mudança de valores culturais. Existem outros projetos trabalhando a partir de matéria prima reciclada na Argentina e no Brasil também.

iG: É possível reciclar qualquer resíduo industrial? Há alguma limitação?
Sarmiento:
Sim. Há algumas limitações técnicas, porém a criatividade sempre nos surpreende.

iG: Você saberia dizer quanto do lixo é de fato reutilizado hoje? O que se pode fazer para aumentar essa porcentagem?
Sarmiento:
Não sei os números exatos, mas seguramente é uma porcentagem muito pequena. Entretanto, as barreiras comportamentais já estão mudando. Para ajudar nessa transformação estamos criando o projeto Marca Carcel, para ajudar a comercializar para lojas de museus os produtos criados nos laboratórios – com resíduos industriais - e produzidos por detentas da prisão feminina de Ezeiza, na Argentina. Assim, conseguimos fechar o ciclo e gerar renda para este grupo social vulnerável.

iG: Você sente que nos últimos anos houve maior interesse dos alunos pelo desenvolvimento de trabalhos sustentáveis?
Sarmiento:
Todas as experiências vividas com alunos de Argentina, Brasil, Chile e Colômbia nos demonstram isso. Os jovens estão muito preocupados com os problemas que estamos gerando para o futuro. E tudo isto é o que discutimos nas oficinas e o que os produtos que lá são criados têm para apresentar ao público.








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