Fundador da Ovo, um dos estúdios de design brasileiro mais premiados em 2010, Gerson de Oliveira fala sobre seu processo criativo

2010 foi um ano cheio para os designers da Ovo . Eles participaram de duas importantes mostras – a Bienal Brasileira de Design e a exposição “Design Brasil: 101 Anos de História” – e lançaram três novas linhas de produtos.

Em novembro, a consagração veio com o prêmio do Museu da Casa Brasileira , pela linha Tiras, apresentada em 2009.

A Ovo é comandada pela dupla de designers Gerson de Oliveira e Luciana Martins
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A Ovo é comandada pela dupla de designers Gerson de Oliveira e Luciana Martins
E o que vem por aí? “Sempre que finalizamos a criação de uma linha, nós nos damos um tempo de respiro para começar a pensar nas próximas peças”, afirma Gerson de Oliveira, que comanda a marca ao lado de Luciana Martins.

Das telas para o design

Gerson de Oliveira e Luciana Martins se conheceram na Faculdade de Cinema da USP, mas o interesse pelas artes plásticas acabou falando mais alto. “Em um curso de desenho, quando estava criando uma natureza-morta, fiz uma folha e uma flor e percebi que aqueles traços dariam uma boa faca”, conta Gerson, que depois do insight decidiu se matricular em uma oficina de escultura de metal. Foi quando a dupla firmou a parceria, que se consolidaria em 2002 com a criação da marca e da loja.

Ao sentar na cadeira Cadê, uma das criações da Ovo, o tecido se adapta ao formato de seu corpo
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Ao sentar na cadeira Cadê, uma das criações da Ovo, o tecido se adapta ao formato de seu corpo

“Abrimos a loja já em 2002 porque queríamos expor nossos trabalhos em um ambiente onde todo o contexto se comunicasse. Quando você vê tudo junto, a ideia é transmitida de uma forma mais clara”, afirma o designer. No local, estão expostos sofás, cadeiras, tapetes, luminárias e acessórios para casa. Além do showroom, há também o Anexo Ovo, que funciona como extensão da loja e, esporadicamente, é aberto para mostras.

Confira entrevista exclusiva concedida por Gerson de Oliveira ao iG.

iG: Por que escolheram o nome Ovo? Por que a logomarca tem uma vírgula antes da palavra?
Gerson de Oliveira:
“Ovo” remete à criação, origem, vida... Me lembra um pouco também aquela expressão “ovo de Colombo”, que tem o sentido de “percebi, saquei”. Fora que é uma palavra muito bonita e curta. Além disso, na época em que escolhemos o nome, surgiam muitas marcas de design no Brasil com nomes em inglês ou italiano. Queríamos algo em português, mas que fosse fácil de pronunciar em outros idiomas. A vírgula remete à virada que demos em nossa carreira em 2002, com a criação da marca propriamente dita.

As luminárias Cubo, de acrílico translúcido, permitem combinações diversas
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As luminárias Cubo, de acrílico translúcido, permitem combinações diversas

iG: Como é o processo criativo de vocês?
Gerson de Oliveira: Design é imaginar alguma coisa e dar vida a ela. Nós sempre elaboramos a ideia inicial juntos. Fazemos o “brainstorm” e o primeiro rabisco. Depois, um de nós fica responsável pelo desenvolvimento do produto. A inspiração vem de algum insight, uma ideia ou pensamento ou mesmo de uma demanda.

iG: Tem algum designer ou artista que te inspire?
Gerson de Oliveira:
Não teria uma única pessoa para citar, mas tenho alguns heróis. E a Luciana compartilha dessas ideias comigo. O Josef Albers com certeza é um deles. Ele foi pintor e professor da Bauhaus, e é nossa maior referência em termos de cor. O Isamu Noguchi, designer e escultor norte-americano, também nos inspira muito. Tenho também muitas referências no universo da arquitetura, que é uma área que eu amo, como o trabalho do escritório japonês Sanaa. Quanto aos designers mais contemporâneos, gosto bastante dos Irmãos Bouroullec. O que mais admiro é o fato de que a identidade do trabalho deles está no conceito, não no material, nem na forma, e isso é uma coisa que buscamos constantemente. Acho uma característica genial.

iG: Existe alguma peça no mercado que gostaria de ter criado?
Gerson de Oliveira:
Não tenho isso. Por exemplo, acho as luminárias do Noguchi espetaculares, mas não tenho necessidade de tê-las em minha casa. É uma relação de admiração.

Os cabideiros Huevos Revueltos carregam o humor que está no DNA da Ovo
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Os cabideiros Huevos Revueltos carregam o humor que está no DNA da Ovo

iG: O humor é uma das características mais marcantes das peças da Ovo.
Gerson de Oliveira:
O humor está na base do nosso trabalho. Não é nossa intenção transmitir humor, mas faz parte da ideia, acontece naturalmente.

iG: Qual a importância do nome da peça?
Gerson de Oliveira:
O nome é uma parte superimportante para nós. Entendemos o nome como parte do produto. O produto se completa não só pelo uso, mas também pela mensagem que ele transmite.

iG: Em 2010, vocês receberam o prêmio Design do Museu da Casa Brasileira, pela linha Tiras, feita com madeiras certificadas. Como é a relação da Ovo com a sustentabilidade?
Gerson de Oliveira:
Priorizamos o aproveitamento da matéria-prima, mas nossa abordagem de sustentabilidade passa mais pela ideia do que pelo material. A gente propõe uma criação que faça sentido hoje e sempre, que não seja descartável. Não só em termos de construção física, mas em relação ao conceito também. Mas, claro, fazemos questão de trabalhar com madeiras certificadas e, no caso da linha Tiras, trabalhamos com pequenos pedaços de madeira para revestir com tecido, então a perda é praticamente zero.

Lançadas em 2009, as peças da linha Tiras foram premiadas pelo Museu da Casa Brasileira em 2010
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Lançadas em 2009, as peças da linha Tiras foram premiadas pelo Museu da Casa Brasileira em 2010

iG: Algumas peças da Ovo, como as luminárias Cubo e os cabideiros Huevos Revueltos, já são sucesso há bastante tempo. Qual o segredo para criar algo atemporal?
Gerson de Oliveira:
O móvel precisa ser muito bom para ser atemporal. Na criação, você pode adotar vários partidos. Você pode criar algo que fique bem na foto ou pegar carona em algo que está na moda, mas isso é efêmero. Toda peça de design que se manteve viva por muito tempo tem um desenho bom. Autenticidade também é básico para o bom design.

iG: O que é mais importante: estética ou funcionalidade?
Gerson de Oliveira: O bom design alia tudo, mais que a funcionalidade, a usabilidade, a beleza e a poesia. A gente persegue tudo isso.

iG: O que mudou no design feito no Brasil na última década?
Gerson de Oliveira:
Desde que comecei, percebo que cada vez mais o design no Brasil está se profissionalizando. Começou a existir uma aproximação maior com a indústria e, aos poucos, o design está se tornando mais acessível.

A poltrona da linha Laterais, lançada em 2010, foi feita a partir de uma chapa de compensado naval
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A poltrona da linha Laterais, lançada em 2010, foi feita a partir de uma chapa de compensado naval

iG: E o que falta para que o design brasileiro tenha mais reconhecimento no exterior?
Gerson de Oliveira:
A enorme projeção dos Irmãos Campana foi muito importante para todos nós porque eles chamaram atenção para o fato de que aqui existe uma boa produção de design contemporâneo. Já havia um certo reconhecimento do público internacional, principalmente devido ao trabalho de Sergio Rodrigues , mas antes tudo isso só chegava até os especialistas. Hoje o Brasil desperta muita curiosidade, seja no design, na moda, nas artes ou na arquitetura. Mas também temos que fazer a nossa parte, ir atrás e fazer acontecer.

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