Designer de interiores lança amanhã no MCB livro sobre a influência portuguesa no espaço doméstico brasileiro

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O livro da designer de interiores, Maria Lúcia Machado, será lançado no MCB
O que o calçadão de Ipanema, a tolha de mesa rendada da casa da sua avó e a cadeira de balanço com encosto de palhinha têm em comum? Por trás de todos eles existe uma forte herança portuguesa que se emaranhou à cultura brasileira desde a chegada da família real ao País.

É para contar essas e outras histórias que a designer de interiores Maria Lúcia Machado decidiu escrever o livro “Interiores no Brasil: A Influência Portuguesa no Espaço Doméstico”, que será lançado amanhã (24) no Museu da Casa Brasileira (MCB), em São Paulo.

Resultado da dissertação de mestrado defendida conjuntamente no Instituto de Artes Visuais, Design e Marketing (IADE) e na Fundação Calouste Gulbenkian – ambas em Lisboa, Portugal –, a obra apresenta todo o processo evolutivo ocorrido na decoração e arquitetura brasileira nas épocas colonial, neocolonial e modernista, sob a influência de seu principal colonizador. “Essa divisão é muito importante, pois é a partir dela que podemos perceber em que momento estávamos mais à mercê de Portugal e de seu estilo, e quando, finalmente, começamos a buscar nossa própria identidade”, afirma Maria Lúcia.

Entre os elementos trazidos pelos portugueses e que se fixaram no nosso cotidiano estão os azulejos , a chita, as rendas de bilros, as pedras portuguesas , os tapetes arraiolos e as cerâmicas saramenha (também conhecidas como meia-faiança, caracterizadas pelo tom amarelado-envelhecido, e o efeito envernizado dos utilitário).

“O mais interessante é que, mesmo passado muitos anos desde 1808 esses elementos continuam em nossa sociedade, mas seus usos foram modificados e modernizados”, explica a autora Maria Lúcia Machado. Caso das pedras portuguesas, que inicialmente eram usadas apenas em pavimentos municipais como calçadas e praças (como nos calçadões cariocas) e hoje podem ser encontradas no interior das residências, como revestimento para pisos e até mesmo em paredes . “As pedras ganharam polimento e ar mais sofisticado”, completa a pesquisadora.

Inicialmente usadas apenas em pavimentos municipais, como no calçadão carioca, as pedras portuguesas, hoje, ganharam nova roupagem e são encontradas até em paredes
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Inicialmente usadas apenas em pavimentos municipais, como no calçadão carioca, as pedras portuguesas, hoje, ganharam nova roupagem e são encontradas até em paredes

Outro elemento trazido foram os azulejos . Segundo Maria Lúcia, os primeiros registros da azulejaria no Brasil foram entre 1620 e 1640 e, a princípio, era utilizada basicamente na arquitetura religiosa. “Foi apenas a partir do século 18 que os azulejos começaram a ser usados na decoração”, diz Maria Lúcia. “E foi aqui, em nosso País, que ele conquistou a arquitetura externa para proteger as paredes contra a umidade e a maresia.”

Foi apenas no século 18 que os azulejos passaram a ser utilizados na decoração. Azulejos de Athos Bulcão, no aeroporto de Brasília
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Foi apenas no século 18 que os azulejos passaram a ser utilizados na decoração. Azulejos de Athos Bulcão, no aeroporto de Brasília

A colorida chita, originária da Índia, também evoluiu, tornando-se objeto decorativo nas mais diferentes situações e não apenas nas casas mais populares. Chegando a tal ponto de prestígio que, em 2008, o arquiteto Marcelo Rosenbaum inspirou-se em suas estampas para criar uma linha de aparelho de jantar e chá para a Oxford.

Em 2008, o arquiteto Marcelo Rosenbaum inspirou-se nas estampas das chitas para criar uma linha de aparelho de jantar e chá
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Em 2008, o arquiteto Marcelo Rosenbaum inspirou-se nas estampas das chitas para criar uma linha de aparelho de jantar e chá
As rendas também foram trazidas pelos portugueses por volta de 1808, e o que antes era utilizado apenas em mantos do clero e da realeza, hoje pode ser encontrada em colchas, toalhas de mesa e cortinas.

Mudanças nos espaços domésticos

A arquitetura portuguesa também sofreu modificações nos anos seguintes ao seu desembarque em terras brasileiras. Os quartos de dormir , antes restritos a um pequeno ambiente sem janelas e utilizados apenas para o repouso, ganharam amplitude e necessidade de ventilação nos trópicos. “Os higienistas do século 19 aconselhavam ter um lugar de dormir mais arejado, com aberturas para a circulação do ar”, diz a autora.

O banheiro, antes deslocado da residência, hoje é uma extensão do quarto. Assim como no projeto da arquiteta Angélica Araújo, de Belo Horizonte
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O banheiro, antes deslocado da residência, hoje é uma extensão do quarto. Assim como no projeto da arquiteta Angélica Araújo, de Belo Horizonte

O banheiro ,antes deslocado da residência, também passou a ser em maior quantidade pela casa e, décadas depois, uma extensão do quarto (suítes). Hoje, deixaram de ser apenas um local de banho para ser um espaço de culto ao corpo com grandes espelhos e verdadeiros spas .


Serviço:

Lançamento do livro com palestra da autora
Local: Museu da Casa Brasileira
Data: 24 de março (quinta-feira)
Horário: à partir das 19h30
Endereço: Av. Brigadeiro Faria Lima, 2705 – São Paulo (SP)


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