Livro revela costumes do paulista no início do século 20 através de sua louçaria

A constatação de que, apesar da grande quantidade de indústrias de louça existentes na capital paulista e no Grande ABC no início do século 20, eram os pratos, as xícaras e as jarras de origem europeia que predominavam no acervo museológico da região, serviu como estopim para que o historiador José Hermes Martins Pereira começasse a pesquisa que deu origem ao livro “Louça Paulista – As Fábricas de Faiança e Porcelana de São Paulo”, lançado nesta semana.

Mestre em história da arquitetura e membro do Grupo de Estudos de Faianças e Porcelanas do Museu Paulista da Universidade de São Paulo, Pereira descobriu que a faiança produzida localmente sempre foi muito usada pela população no dia a dia, por ter um custo mais baixo, enquanto as porcelanas francesa e inglesa ficavam reservadas a datas especiais, foco de principal atenção dos museus. Daí a predominância das peças que deram origem ao estudo.

Entretanto, é na união das peças comemorativas e do dia a dia que se pode traçar com maior clareza os costumes e hábitos dos paulistas à mesa no início do século 20.

Pesquisa de campo

Entre as centenas de peças catalogadas pelo estudo, estão jarras, pratos, vasos, floreiras, molheiras, estatuetas, canecas, tigelas, petisqueiras, pires e outros objetos, além de documentos e fotos raras das 11 indústrias do setor que existiam à época – a única que resistiu ao tempo foi a Porcelana Teixeira, em São Caetano do Sul.

“Descobrimos muitas peças guardadas como lembrança, especialmente pelas famílias dos produtores de Mauá e São Caetano do Sul. Também tivemos a sorte de poder contar com a ajuda da bisneta do fundador da primeira fábrica de louças paulista, então funcionária do Museu do Ipiranga.”

O historiador refere-se a Romeu Ranzini, criador da Louças Santa Catarina, fábrica que iniciou suas atividades em 1913, na Água Branca (bairro paulistano), tendo sido posteriormente adquirida pelas Indústrias Matarazzo, que abririam também uma fábrica do setor em São Caetano do Sul.

É de Romeu Ranzini a louça de que Pereira mais gosta. “Ele era um estudioso da porcelana e costumava testar novas técnicas. Gosto muito de toda a produção dessa época, mas principalmente de um vaso que é resultado de uma dessas experimentações de Ranzini”, conta o autor.

O autor do livro atribui a expansão das fábricas de louça em Mauá, São Caetano do Sul e bairros paulistanos como Água Branca, Lapa, Vila Prudente e Belenzinho à facilidade de acesso ferroviário. O desenvolvimento do setor coincide com o crescimento de vilas operárias nessas regiões.

Serviço

“Louça Paulista – As fábricas de faiança e porcelana de São Paulo”
Autor: José Hermes Martins Pereira
Edição: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo/ Edusp/ Museu Paulista da Universidade de São Paulo
292 páginas
Preço R$ 75,00


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