
A tradição da azulejaria na arquitetura brasileira teve seu ápice na construção de Brasília, com os painéis criados pelo talento de Athos Bulcão nas obras de Oscar Niemeyer. Paradoxalmente, os anos que se seguiram vivenciaram um grande ostracismo dessa arte no Brasil. Por décadas, a azulejaria desapareceu dos painéis e mesmo estes passaram ao largo da arquitetura brasileira.
O que aconteceu com a arte muralista e a arte azulejista, em particular, para literalmente sumir como um componente importante da arquitetura brasileira? Como um País que possui o prédio do Ministério da Educação, no Rio de Janeiro, e a Igreja da Pampulha, em Belo Horizonte, - dois grandes exemplos da arquitetura brasileira e mundial, onde podemos apreciar os painéis pintados em azulejos por Portinari, - pode abandonar essa tradição herdada dos portugueses?
É difícil explicar, mas a resposta mais imediata a essa indagação pode ser atribuída, em parte, à arquitetura despojada, seca, quase militar, que passou a se fazer no Brasil, principalmente em São Paulo, onde predominou a chamada “arquitetura brutalista paulista”. A arte mural passou a ser considerada, de forma injusta, como decoração e, desse ponto de vista, execrada e condenada ao ostracismo pela arquitetura moderna brasileira.
Por outro lado, os empresários e governantes passaram a encarar de maneira imediatista e rasteira as obras de arquitetura. Tudo que não fosse funcional, ou seja, que não resultasse em resultados imediatos, não eram levados em consideração. Enquanto isso, em Brasília, Athos Bulcão, quase solitariamente, continuou a nos oferecer algumas das obras de arte, que hoje são motivo de orgulho para nós brasileiros.
Felizmente, alguns artistas começam a resgatar essa arte. Calu Fontes, em São Paulo, e Alexandre Mancini, que honra a tradição mineira e que continuou a arte de Athos Bulcão, são dois profissionais que estão produzindo releituras extremamente criativas.
A impressão que se tem é que ultimamente o radicalismo na arquitetura esteja sendo abandonado em prol de uma estética mais livre e sem preconceitos, enfim, o abandono do “less is more”. Em resumo, por motivos que não podemos diagnosticar com precisão, a azulejaria talvez esteja vivendo um renascimento. O que é mais do que bem-vindo.
Marisa Ota - jbianchi@ig.com - Marisa Ota é formada em artes plásticas pela FAAP. Criadora da Paralela Gift, é especialista em identificar e apresentar novas tendências de design ao mercado brasileiro