Em alta no exterior, combinação de técnicas artesanais ao design de móveis ainda é vista com receio pelo mercado brasileiro

Uma das características marcantes do design brasileiro, reconhecida inclusive no exterior, é o emprego de técnicas artesanais nas produções. Designers como Sergio Matos, Paulo Biacchi e os irmãos Campana são alguns dos profissionais que investem na proposta, combinada à tecnologia. A valorização mundial do trabalho feito por artesãos, no entanto, não bastou para emplacar a ideia por aqui. “Falar de artesanato no Brasil parece algo depreciativo. O público não entende que a mistura do artesanal e tecnológico ajuda a valorizar a identidade do País”, afirma Biacchi, um dos responsáveis pela Fetiche Design.

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Quem deu início ao movimento de resgate cultural foram os irmãos Campana, em 1989, ao abusar de criatividade na criação de peças inusitadas confeccionadas a partir de materiais como fios de PVC e cordas. Mas a necessidade de ser reconhecido no exterior antes de no próprio País, causa ainda muita insatisfação entre os designers. “Precisamos ser elogiados em Milão para que os brasileiros entendam nosso valor. Na Itália, existem ótimos artífices trabalhando com couro e sendo valorizados. O artesanato não diminui em nada, ao contrário, só agrega ”, afirma Nicole Tomazi, arquiteta e designer da Oferenda Objetos.

A falta de reconhecimento do público e da própria indústria prejudica (e muito) a evolução do design nacional, pois diversos profissionais desistem de criar peças com tal perspectiva. E quem resolve apostar na ideia paga um preço elevado. Na maioria dos casos, é preciso investir na autoprodução, arriscando dinheiro do próprio bolso. Este é o caso dos profissionais da Fetiche Design que, sem respaldo da indústria moveleira no início da carreira, resolveram produzir por conta própria. “Os representantes industriais não conseguiam incluir peças com partes artesanais na linha de montagem. Não tinham máquinas nem processos adaptados”, diz Biacchi. “Tivemos de reunir artesãos em nosso ateliê e usar as estruturas vindas da indústria.”

Os irmãos Campana foram os pioneiros na empreitada de inclusão do artesanato no design
Divulgação
Os irmãos Campana foram os pioneiros na empreitada de inclusão do artesanato no design

A designer Nicole também enfrenta dificuldades no trabalho com artesanato. “Em 2011, resolvi desenvolver móveis com estruturas metálicas e tramas de tecidos. Conversei com industriais, porém, ninguém topou produzir. Tive de me adaptar”, diz. A alternativa de Nicole foi dividir a produção, assim como na Fetiche. O resultado foi positivo e, hoje, diversos itens da marca conseguem valorizar a textura e o caráter emotivo das criações artesanais. A cadeira “Vó Judite”, produzida em 2011, é um destes casos, sendo o crochê o elemento de maior expressividade da peça.

O outro lado da moeda

A pequena inserção do artesanato na indústria é também culpa dos designers, acredita Ivo Pons, idealizador da ONG Design Possível. “A maioria dos profissionais exclui os artesãos da cadeia produtiva e perde uma troca de experiências muito relevante. É fundamental conhecer a técnica antes de adaptar a peça na indústria”, afirma. Quem procura ir contra esta tendência é o designer Sergio J Matos. Além de reunir artesãos, o paraibano famoso pelo trabalho com tramas resolveu criar pequenas unidades industriais em seu ateliê. “Estou de olho em novos materiais e procuro incluir tecnologia sempre que possível. Já tentei trabalhar com resina e estamparia, mas não saiu do papel porque dependia da indústria e os empresários não toparam”, afirma.

O problema de incluir técnicas artesanais na linha de montagem é a dificuldade (e o custo elevado) da adaptação dos processos. Empresários alegam que a etapa de desenvolvimento do projeto é a parte mais custosa – e que às vezes não há o devido retorno financeiro. “Antes de pensar em incluir artesanato nos produtos, buscamos calcular a relevância da peça no mercado. O que encarece é a necessidade de estabelecer padrões e normas para técnicas pouco comuns na indústria”, diz Mila Rodrigues, diretora de criação da Schuster. Mas qual é o segredo para que as peças artesanais caiam no gosto popular? É garantir, segundo Mila, a presença da tecnologia e modernidade, seja por meio de formatos inusitados ou materiais inovadores.


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