Prestes a desembarcar no Brasil, o designer londrino aponta a diversidade do País como fundamento básico para jovens profissionais se destacarem no mercado

Quem disse que tecidos, cordas e mangueiras não podem se transformar em objetos de decoração? Sim, podem. Ainda mais nas mãos do designer britânico Tom Price que está de malas prontas para o Brasil. Neste mês, suas obras ficarão expostas no Museu da Casa Brasileira – durante o Design Weekend, evento de design que acontecerá entre os dias 23 e 26 em São Paulo – e suas ideias serão apresentadas durante palestra no BoomSPDesign – fórum internacional de arquitetura, design e arte a ser realizado no dia 24.

Veja uma galeria de fotos com 13 peças da série “Meltdown” produzidas pelo designer:

Com um trabalho que se divide entre design e artes plásticas, Tom Price busca a inovação em novos processos e abusa de materiais inusitados para confeccionar objetos de mobiliário, esculturas e instalações. Sem medo de ousar, o designer recorre a materiais derivados do plástico – tubos e cordas de polipropileno, roupas de poliéster e até lacres de náilon – para confeccionar suas obras.

Mas a inovação vai além da escolha de matérias-primas diferenciadas. O que também chama atenção no trabalho de Price é sua habilidade para descobrir novos meios de produção. Tudo começou quando se viu envolvido na ideia de encurtar uma corda de polipropileno expondo o material ao calor. Diante da tarefa bem sucedida, resolveu investir em processos de aquecimento e prensagem, conseguindo uma nova estética . Para montar boa parte de suas peças – principalmente cadeira e bancos –, ele junta grande quantidade de material em uma bola e pressiona o conjunto contra uma forma de metal aquecida com a forma desejada.

O designer britânico é reconhecido internacionalmente e possui obras que fazem parte do acervo de museus de arte contemporânea, como o Denver Museum of Art e o San Francisco Museum of Modern Art, nos EUA, e o Museum für Kunst und Gewerbe, na Alemanha.

Para conhecer ainda mais sobre o trabalho de Price, confira a entrevista abaixo:

iG: Onde busca referências estéticas para desenvolver seu trabalho?

Tom Price: Grande parte da minha inspiração vem dos materiais com que trabalho e dos processos que uso para transformá-los. Gostos dessas etapas e da oportunidade que elas geram, pois permitem que use as transformações como ferramenta para o design. Além disso, consigo ultrapassar os limites da minha própria imaginação e descobrir o que há de mais novo e interessante, além de formas inesperadas.

iG: Em quais novidades têm trabalhando?

Price: Estou bastante empenhado em um projeto muito grande para os escritórios da (agência de notícias) Bloomberg, em Londres, e tentando desenvolver um novo trabalho com uma variedade de materiais. Além disso, busco me preparar para as exposições de diversas partes do mundo.

iG: Que materiais e processos você ainda não usou, mas gostaria?

Folhas de polipropileno amassadas foram derretidas para compor a cadeira de Price
Divulgação
Folhas de polipropileno amassadas foram derretidas para compor a cadeira de Price

Price: Apesar de ter trabalhado com diversos materiais, existem muitos que não cheguei sequer a experimentar. Mas, na verdade, gostaria mesmo é de explorar novos caminhos . Acho que os projetos mais interessantes começam com processos inovadores. Já trabalhei com fundição de bronze e gostaria de desenvolver ainda mais esta técnica, possivelmente incluindo outros tipos de metais. Também quero experimentar processos de extrusão (no qual materiais são forçados através de orifícios) e diferentes tipos de processamento de plástico.

iG: Como percebe o design brasileiro hoje?

Price: Tenho estado bastante ocupado com novos projetos e não tive acesso a muitas informações sobre o design do Brasil. Porém, gosto muito do trabalho dos irmãos Campana e espero descobrir mais novidades durante a minha visita.

iG: De que maneira nossos designers podem tirar proveito da intensa expressão cultural do País?

Price: Em 2000, passei dois meses viajando por Manaus, Belém e Rio de Janeiro. Durante este período aprendi muito sobre a cultura de vocês e percebi que minhas impressões sobre a música brasileira, por exemplo, ficavam restritas ao samba, à bossa nova e MPB. Com a visita pude tomar consciência da riqueza incrível e dos diferentes tipos de música que existem aí. E, como sou um grande defensor da diversidade e individualidade, acredito que os designers brasileiros não devem se conformar com estereótipos, mas realmente procurar uma forma de expressar o que é importante ou de interesse especial para eles. Se a verdadeira essência do Brasil é a diversidade, então a expressão de seu design deveria ser a mesma.


"Se a verdadeira essência do Brasil é a diversidade, então a expressão de seu design deveria ser a mesma"

iG: O que torna um design revolucionário?

Price: É a capacidade de transformar que caracteriza o poder da revolução. Se o design mudar a forma com que experimentamos, entendemos e até fazemos as coisas, aí ele será revolucionário.

iG: Comercialmente, como um designer pode ter liberdade e ousadia para criar suas peças?

Price: Felizmente, para mim, há um mercado aberto que vai além dos limites da arte. A maioria do trabalho que produzo é vendida a colecionadores, galerias e museus, em um comércio bastante diferente do convencional. Mas, como o design de produto é uma indústria recente, os profissionais ainda sentem muita dificuldade para ganhar boas remunerações, em especial se projetarem para grandes marcas. Os royalties pagos são ridiculamente pequenos – quando o profissional é relativamente desconhecido – e é preciso ter várias peças em produção com fabricantes diferentes. Por isso, eu prefiro desenvolver meus próprios projetos e tentar vender diretamente ou por meio de galerias.

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