Apontado como o arquiteto da vez, o premiado Bjarke Ingels dá aulas sobre o Rio em Harvard e lança seu livro-manifesto no Brasil

Aos 38 anos, o dinamarquês Bjarke Ingels é um sujeito em busca de grandes ideias e algumas polêmicas. À frente do escritório BIG (Bjarke Ingels Group) , fundado em 2006, ele é apontado como a promessa da arquitetura atual. Sua assinatura já rendeu importantes prêmios, entre eles, o Leão de Ouro da Bienal de Veneza de 2004 (projeto da Casa de Concerto de Stavanger, Noruega) e o Prêmio Europeu de Arquitetura 2010, concedido em outubro. Foi também eleito uma das pessoas mais criativas de 2010 pela revista Fast Company.

Agora Ingels está empenhado em buscar ideias para o Rio de Janeiro. Esse semestre, ele lecionou na Escola de Design de Harvard, no curso batizado de Rio Studio. A proposta é colher projetos para ajudar com que os investimentos gerados com a Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016 sejam canalizados para melhorias, a longo prazo, para a cidade. Ele já esteve no Rio, onde morou em uma favela.

Ingels flerta com o controverso. Ao construir o pavilhão da Dinamarca na Expo Shangai, no ano passado, o arquiteto “sequestrou” uma estátua símbolo nacional de Copenhague para instalar na feira. Também causou furor ao aceitar fazer a biblioteca nacional do Casaquistão, governado pelo ditador Nursultan Nazarbayev.

Ele defende uma “alquimia arquitetônica”, na qual não precisaríamos optar entre ter um jardim ou morar na cidade, por exemplo. A proposta é uma terceira via entre arquitetos utópicos, de um lado, e pragmáticos, de outro. “Defendemos uma arquitetura utópica pragmática que cria lugares perfeitos social, econômica e ambientalmente.” O manifesto é exposto no livro “Yes is More”, que será lançado no Brasil neste ano e foi todo concebido como uma história em quadrinhos. Bjarke Ingels deu essa entrevista exclusiva ao iG:

O jovem arquiteto Bjarke Ingels coleciona prêmios à frente de seu escritório BIG. Em 2010, recebeu o Prêmio Europeu de Arquitetura
Jakob Glatt
O jovem arquiteto Bjarke Ingels coleciona prêmios à frente de seu escritório BIG. Em 2010, recebeu o Prêmio Europeu de Arquitetura
iG: É uma surpresa saber que um arquiteto reconhecido como você está preocupado com as condições da cidade do Rio de Janeiro. De onde surgiu o seu interesse pelo Brasil?
Bjarke Ingels:
Fiquei encantado com a beleza e a energia do Brasil desde que visitei o país há nove anos. Vim, a princípio, para conhecer obras de Oscar Niemeyer , Lina Bo Bardi , Lelé e Burle Marx . Mas, desde aquela época, pude perceber o verdadeiro potencial do modernismo : um caminho inegável para a qualidade de vida. Tempos mais tarde, voltei ao Rio de Janeiro para passar uma semana na favela Tavares Bastos, que se tornou uma área pacificada depois da ocupação do Bope.

iG: Como foi sua experiência de morar temporariamente em uma favela brasileira?

Bjarke Ingels: Fiquei novamente maravilhado, mas dessa vez com a essência da favela como modelo urbano. Claro que estamos falando de uma favela pacificada, ou seja, segura e tranquila. Acredito que as favelas têm condições de espaço e um senso comunitário no qual vale a pena investir. Paradoxalmente, as vilas da Costa Amalfitana, na Itália, um dos lugares mais luxuosos do mundo, são bastante similares à paisagem urbana e à circulação de pedestres nas encostas dos morros cariocas. Ao invés de considerá-los meramente um problema, acredito que eles são detentores de uma forma muito interessante de urbanidade.

iG: As favelas não podem ser um entrave para as Olimpíadas?
Bjarke Ingels:
É claro que as questões sociais, econômicas e ambientais necessitam de melhorias e são um desafio. Mas existe muito potencial a ser trabalhado por lá. Quando o Rio foi escolhido para ser o anfitrião dos Jogos Olímpicos de 2016 (por coincidência, o resultado saiu no dia do meu aniversário de 35 anos e eu estava na minha cidade, em Copenhagen), pensei que isso pudesse ser o motivo para criarem benefícios sociais e econômicos para os cidadãos cariocas, ao invés de deixá-los naquela ressaca olímpica, com dívidas públicas e estádios vazios depois da festa acabada.

iG: Quanto tempo você ficou no Brasil? Apenas conheceu o Rio de Janeiro?
Bjarke Ingels:
Estive no Brasil por um tempo razoável, a maior parte dele na cidade do Rio, mas conheci São Paulo, Belo Horizonte (para fazer a peregrinação Niemeyer) e Brasília . Também conheci Paraty e Ilha Grande. Apenas a região Norte ficou faltando na minha lista.

iG: No Brasil, corremos o risco do recurso público ser mal empregado. A infra-estrutura utilizada nos Jogos Panamericanos, que aconteceram em 2007, está abandonada.

Bjarke Ingels: Dias atrás alunos estavam comparando o Rio de Janeiro com Barcelona para ver se a gente poderia aprender com o aparente sucesso de Barcelona pós-olimpíada. O segredo é que a cidade espanhola conseguiu ser ágil nos primeiros estágios do plano de urbanização. Resumindo, acredito que os planejamentos e os pensamentos não devem se restringir ou terminar com a Olimpíada. Devemos aproveitar os Jogos para atingir objetivos maiores.

iG: Existe a possibilidade dos projetos criados em Harvard serem apresentados ao governo brasileiro?
Bjarke Ingels:
Nosso objetivo é reunir todas as ideias em um formato de jornal, desenvolver uma série de artigos aos modos “The Harvard Review do Brasil”, bem como apresentar os principais destaques aos políticos brasileiros, se nós tivermos acesso.

O deck é o diferencial da casa marítima. A construção serve para as crianças brincarem e também para guardar os barcos
Carsten Kring
O deck é o diferencial da casa marítima. A construção serve para as crianças brincarem e também para guardar os barcos

iG: Podemos esperar um escritório BIG no Brasil?
Bjarke Ingels:
Tenho certeza de que vários colegas meus adorariam viver e trabalhar no Brasil. Se houvesse uma proposta de trabalho, não seria difícil encontrar voluntários para irem ao País.

iG: Qual a sua opinião sobre nossa arquitetura?
Bjarke Ingels:
Acho que a arquitetura brasileira incorpora a noção de modernismo hedonista, em que a tecnologia contemporânea e as formas de produção são utilizadas para maximizar a qualidade de vida e o prazer, ao invés daquela previsibilidade chata e seca do minimalista moderno do Norte europeu. Um exemplo disso é Bo Bardi e seu conceito de “arquitetura pobre”. Essencialmente, a ideia de eliminar o supérfluo para atingir o efeito máximo com o mínimo é uma lembrança constante das prioridades básicas na arquitetura.

iG: Qual a contribuição do BIG para a arquitetura contemporânea?
Bjarke Ingels:
É uma pergunta difícil de responder, mas talvez eu possa chamar de arquitetura de inclusão. Em vez do clichê do arquiteto como juiz exclusivo do bom gosto, acreditamos na ideia de incorporar influências, interesses e demandas de diferentes grupos da sociedade, o que acaba impulsionando o nosso processo de design. Como resultado, nossos edifícios são um resultado da diversidade do meio, e não uma mera manifestação dos nossos gostos pessoais.

iG: O que significa alquimia arquitetônica?
Bjarke Ingels:
É o conceito de que podemos criar valores agregados, misturando ingredientes tradicionais como habitação e estacionamento, como o feito no nosso projeto Mountain. Ao combinar uma estrutura de estacionamento com um prédio de apartamentos, a gente transforma o estacionamento em uma montanha de carros e os apartamentos em casas com jardins.


Ingels ganhou o concurso para construir o prédio da prefeitura de Tallinn, na Estônia. O projeto prevê muita transparência e luz natural
Divulgação
Ingels ganhou o concurso para construir o prédio da prefeitura de Tallinn, na Estônia. O projeto prevê muita transparência e luz natural
iG: “Yes is More” substitui o conceito “Less is More”?
Bjarke Ingels:
O conceito de Mies, de que menos é mais, rapidamente foi degenerado a um tipo de estética minimalista, provocando uma avalanche de revoluções e a mutação do sentido original da frase. Propusemos o “Yes is More” como um mote otimista para o inclusivismo, uma arquitetura que é impulsionada por dizer sim a todas as demandas e preocupações da sociedade.

iG: Se você fosse o cliente, que projeto encomendaria para o BIG?
Bjarke Ingels:
Eu pediria um projeto que procurasse combinar o máximo possível de opostos em um prédio ou em algum ambiente: tanto ricos como pobres, privados e públicos, densos e abertos, íntimo e coletivo, físico e espiritual. Sempre tentamos mesclar as condições que são tidas como opostas ou excludentes. Nem sempre você tem que escolher entre um ou outro. Muitas vezes você pode ter os dois.

iG: Soubemos que você gosta de ficção científica. Dê o seu palpite: como será o futuro da cidade?
Bjarke Ingels:
O que me interessa sobre ficção científica não são as novelas espaciais futurísticas. Penso essencialmente no que nosso Harvard Studio sobre o Rio tenta fazer: explorar o potencial do Rio de Janeiro durante e após a transformação do evento olímpico.









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