“Não foi a agricultura que acabou com a Mata Atlântica, foi a construção”

Um dos maiores arquitetos do Brasil, João Filgueiras Lima, o Lelé, rejeita o uso da madeira, trata sustentabilidade como premissa básica e garante que o pós-modernismo foi um erro

Lila de Oliveira, iG São Paulo | 19/07/2010 07:57

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Ele iniciou sua carreira na construção de Brasília a convite de Oscar Niemeyer e trabalhou ao lado do antropólogo e educador Darcy Ribeiro no Centro de Planejamento da Universidade de Brasília. Aos 78 anos, João Filgueiras Lima, o Lelé – o apelido foi recebido ainda na juventude, por atuar na mesma posição que o jogador homônimo, do Vasco –, ainda conserva a voz firme, os pensamentos rápidos e claros e uma incrível força de trabalho. Assim como seu grande amigo Niemeyer.

<span>O arquiteto João Filgueiras Lima, o Lelé, ao lado do amigo Oscar Niemeyer</span> - <strong>Foto: Divulgação</strong> <span>Ginásio infantil do Centro Internacional de Neurociências, em Brasília</span> - <strong>Foto: Nelson Kon</strong> <strong>Publicidade</strong> <span>Estrutura da cobertura do Centro Internacional de Neurociências</span> - <strong>Foto: Divulgação</strong> <span>O auditório do hospital projetado por Lelé, em Brasília, tem painel acústico criado por Athos Bulcão</span> - <strong>Foto: Nelson Kon</strong> <span>Os painéis do ginásio infantil projetado por Lelé, em Brasília, levam a assinatura de Athos Bulcão</span> - <strong>Foto: Nelson Kon</strong> <span>As formas curvas da cobertura do hospital fluminense denotam a influência de Niemeyer na obra de Lelé</span> - <strong>Foto: Celso Brando</strong> <span>Detalhes do hospital fluminense, mais recente projeto de Lelé, estão expostos no Museu da Casa Brasileira, em São Paulo</span> - <strong>Foto: André Wissenbach</strong> <span>A foto do Centro Tecnológico da Rede Sarah, em Salvador, faz parte da exposição “A Arquitetura de Lelé: Fábrica e Invenção”</span> - <strong>Foto: Nilton Souza</strong> <span>Lelé na construção de Brasília, em 1957</span> - <strong>Foto: Divulgação</strong> <span>Passarelas do Terminal Iguatemi, em Salvador, projetado por Lelé</span> - <strong>Foto: Divulgação</strong> <span>Projeto de Lelé para a fábrica do Instituto Brasileiro de Tecnologia do Habitat</span> - <strong>Foto: Divulgação</strong>


Um dos maiores nomes da arquitetura moderna no Brasil, Lelé ganha, a partir do dia 21 de julho, mais uma exposição em sua homenagem: “A Arquitetura de Lelé: Fábrica e Invenção”, no Museu da Casa Brasileira, em São Paulo.

No comando do recém-criado Instituto Brasileiro de Tecnologia do Habitat, o arquiteto conversou com o iG sobre a construção da Capital Federal, sua admiração por Oscar Niemeyer, sustentabilidade e a experiência inovadora que protagonizou com os projetos dos 10 hospitais da Rede Sarah.

iG: Qual a importância da exposição do Museu da Casa Brasileira para o senhor?
Lelé: É importante pela competência das pessoas que estão envolvidas na montagem, o Max (Risselada, arquiteto e professor da Universidade de Tecnologia de Delft, da Holanda) e o Giancarlo (Latorraca, diretor do museu e autor de um livro sobre a obra de Lelé). Eu só forneci o material.

iG: O senhor trabalhou na construção de Brasília com Oscar Niemeyer, ao lado de quem é visto como um dos maiores expoentes da arquitetura moderna. Como foi essa experiência e como ela influenciou seu trabalho?
Lelé: Fui convidado a ir para Brasília pelo próprio Oscar e acabei trabalhando muitos anos com ele. Nossa relação afetiva é muito estreita até hoje. Fui superinspirado por ele como ser humano e arquiteto. Aprendi tudo com ele. Ele sempre tem soluções diferentes, é um gênio. Ninguém explorou tão bem a plasticidade do concreto armado como ele. E o interessante é que, o que ele fez – e ainda faz – é superatual.

iG: Niemeyer já foi criticado por priorizar a estética em detrimento da funcionalidade...
Lelé: Não é isso. O fato é que a beleza é uma função. Por que a gente tem que ter prédio feio na cidade? Não. Tem que ter um compromisso com a beleza.


"Quando você começa a dizer que está fazendo o que é uma obrigação, fica esquisito"
 

iG: Em 2009, o senhor recebeu um prêmio por seus projetos econômicos e de baixo impacto ambiental, considerados sustentáveis. O senhor acha que a questão da sustentabilidade se banalizou?
Lelé: É necessário rever obras que, de certa maneira, teriam que respeitar mais o ser humano. Acho que se você está usando um material para o prejuízo da sua existência no planeta, você tem que rever sua posição. É nossa obrigação economizar recursos naturais, mas tudo que vira modismo se deteriora. Quando você começa a dizer que está fazendo o que é uma obrigação, fica esquisito. Os discursos são muito dissociados da prática. O sujeito que mora num apartamento com quatro quartos e quatro banheiros, e vive num individualismo exacerbado, deve estar com todo mundo doente na família. As pessoas estão usando um espaço muito maior do que precisam para ser feliz.

iG: E em relação aos materiais usados na construção, o que de fato é sustentável?
Lelé:
Não tenho preferência por nenhum material, mas não gosto de usar madeira. Porque aqui não é como na Finlândia, na Dinamarca e na Suécia, que replantam. No Brasil, o replantio é basicamente de eucalipto, que é uma madeira pobre para a construção. Não há política florestal que me convença de que posso usar essa madeira. Não foi a agricultura que acabou com a Mata Atlântica, foi a construção.
 

"Não foi a agricultura que acabou com a Mata Atlântica, foi a construção"
 

iG: Existe algum projeto que o senhor considere o mais importante de sua carreira?
Lelé:
É difícil, pois foram muitas etapas. O hospital da Rede Sarah, no Rio de Janeiro, que foi aberto em 2009, representa o estágio mais avançado da minha carreira, então é o meu preferido hoje. Ele tem as mesmas experiências que os outros hospitais da rede, mais houve um ganho maior.

iG: Os hospitais da Rede Sarah tornaram-se referência no atendimento público para o tratamento do aparelho locomotor e os projetos chamam atenção pela questão da humanização dos ambientes. Em sua opinião, como a arquitetura pode influenciar a saúde?
Lelé:
Se o paciente não está psicologicamente preparado para a cura, é muito difícil que os tratamentos médicos sejam eficientes. Então, ele tem que estar num ambiente legal. Esse paciente requer um tratamento especial e a humanização é um componente terapêutico. Diferente da maioria dos espaços hospitalares, a Rede Sarah tem ventilação e iluminação natural. E eu faço isso desde o hospital de Taguatinga, que projetei em 1968. A iluminação natural ajuda e muitas terapias são feitas ao ar livre. Por isso a gente também integrou espaços internos e externos.

Foto: André Wissenbach

A claraboia é destaque no hospital da Rede Sarah, no Rio de Janeiro

iG: A fábrica do Centro Tecnológico da Rede Sarah, ativa de 1992 a 2009, foi responsável pelo barateamento da construção dos hospitais da rede. Essa foi sua experiência mais intensa de projeto integrado à produção?
Lelé:
Sim, pois foram 10 hospitais. Sempre trabalhei com essa questão da industrialização para baratear o custo. E como construtor, existe uma preocupação com os materiais, que não sejam predatórios em relação à natureza.

iG: No Instituto Brasileiro de Tecnologia do Habitat, que o senhor fundou em 2009, como essa questão da economia de recursos é trabalhada?
Lelé:
Na verdade, o instituto surgiu justamente porque as fábricas da Rede Sarah recebiam muitos pedidos, mas como a gente estava vinculado ao poder público, não era possível atender essa demanda. O instituto é uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público. A gente produz componentes para obras de interesse social, como escolas, creches e hospitais. E temos a intenção de atuar na área de ensino também, com cursos nas áreas de arquitetura e construção.

iG: Em que projetos o senhor está envolvido atualmente?
Lelé:
Estou trabalhando no projeto do Tribunal Regional do Trabalho da Bahia. São oito prédios e a preocupação maior é que eles fiquem meio por cima das árvores, porque ali é uma região muito arborizada.
 

"O pós-moderno foi totalmente equivocado. Foi um descaminho"

iG: O que o senhor acha da arquitetura feita hoje no Brasil e no mundo?
Lelé:
Desde que comecei minha carreira, há 55 anos, a arquitetura passou por vários caminhos, como o pós-moderno, que para mim foi totalmente equivocado. O pós-moderno foi um descaminho. Mas hoje tem muita coisa boa por aí, gente como o (Santiago) Calatrava e o (Frank) Gehry, que fazem aquelas obras-primas, explorando a tecnologia. São criações que têm expressão, representam algo. Mas o que me sensibiliza mesmo é a obra do Niemeyer, que, aliás continua produzindo coisas incríveis.

iG: Em grandes cidades, manifestações de arte urbana têm ganhado força e o grafite divide muitas opiniões. Como o senhor vê essa intervenção na paisagem urbana?
Lelé:
Não gosto, acho uma expressão inadequada, mas a relação das artes plásticas com a arquitetura não pode ser desprezada. Trabalhei a vida toda com o Athos Bulcão, que é um dos principais artistas que faz essa integração. A arte tem que nascer integrada à arquitetura, não pode ser colocada em qualquer lugar.
 

"Estamos vivendo uma época exibicionista"
 

iG: O que o senhor acha dos condomínios-clube, tão procurados pela classe média brasileira?
Lelé:
Acho horrível! Detesto essa coisa seletiva. Estamos vivendo uma época exibicionista. Você tem que provar que tem poder para ter aquele objeto. O objeto em si não importa. O problema da segurança não pode ser resolvido assim. A origem da insegurança está na falta de emprego. Se todo mundo tivesse condições, ninguém precisava se isolar. É uma distorção o sujeito ter que se defender da própria espécie. Existe uma doença e existem os sintomas. O ser humano querer se proteger do semelhante é um sintoma. Quando eu era menino, a realidade era outra, a gente brincava na rua.

iG: O senhor já fez projetos residenciais?
Lelé:
Fiz muitos projetos residenciais, mas só para amigos. A questão do projeto residencial envolve muitas coisas. A gente tem que conhecer bem a personalidade de quem irá morar na casa, senão não faz a coisa certa. Por isso me sinto mais à vontade fazendo casas para amigos. Quantos eu fiz? Nem sei. Tenho muitos amigos.


Serviço

“A Arquitetura de Lelé: Fábrica e Invenção”
Local: Museu da Casa Brasileira
Av. Faria Lima, 2705 – São Paulo (SP)
Tel: (11) 3032-3727
Data: de 21 de julho a 19 de setembro
Ingresso: R$ 4,00 – Estudantes: R$ 2,00 – Gratuito domingos e feriados









 

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