Ter um jardim na cobertura é arma para amenizar os efeitos climáticos

Famosos por seus jardins suspensos, os babilônicos nem imaginavam, no século 6 a.C., que anos mais tarde seus espaços verdes com função decorativa serviriam de exemplo para a implantação de uma das soluções mais simples e eficazes contra os efeitos nocivos do aquecimento global.

“O uso dos telhados verdes está em voga devido aos muitos problemas que ele soluciona, como ilhas de calor e a inversão térmica”, afirma o engenheiro agrônomo João Manuel Linck Feijó, presidente da Associação Brasileira de Telhados Verdes (ATV Brasil).

Museu da Academia de Ciência da Califórnia, 
em São Francisco
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Museu da Academia de Ciência da Califórnia, em São Francisco
Com a instalação de diferentes espécies de plantas em telhados e lajes, arquitetos, engenheiros e paisagistas vêem criando verdadeiras ilhas ecológicas, com microclima próprio, que ajudam a amenizar a temperatura em até 3ºC e neutralizar o dióxido de carbono (CO2) do entorno.

Em São Paulo, a nova unidade do Hospital Israelita Albert Einstein já conta com cobertura verde
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Em São Paulo, a nova unidade do Hospital Israelita Albert Einstein já conta com cobertura verde
“As coberturas verdes começaram agora a ser mais valorizadas por sua função ambiental do que estética, uma vez que são verdadeiros reservatórios de água”, diz o paisagista Marcelo Faisal. Além de ajudar a reduzir o calor da estrutura, a água recolhida das chuvas ainda pode ser reaproveitada no sistema de esgoto, limpeza e refrigeração do prédio.

Mesmo com tantos benefícios, o paisagista afirma que a procura pelos telhados ecológicos ainda é pequena. “A demanda por paredes verdes ainda é maior. Acho que isso acontece porque as pessoas têm medo de infiltrações e do custo. Falta informação.”

De acordo com Feijó, o custo para a aplicação do telhado verde varia conforme o tipo de paisagismo, mas acabam variando de R$ 80 a R$ 150 por metro quadrado. Na escolha das espécies a serem plantadas, as gramíneas levam vantagem por serem mais leves e resistentes, o que diminui a necessidade de manutenção.

Faisal também lembra que, por se tratar de um peso extra, principalmente em duias de chuva, quando a terra fica molhada, o projeto do telhado verde deve ter “uma estrutura reforçada e um belo trabalho de drenagem e impermeabilização para evitar problemas”. De acordo com o engenheiro Tadasi Akeho, do escritório KA Arquitetos, em geral, este reforço é feito com uma camada de concreto entre a laje e a terra, o que garante a impermeabilização do local, evitando infiltrações e outros problemas.

A maior incidência de insetos e lagartixas também pode ocorrer, mas é preciso lembrar que eles fazem parte do ecosistema e garantem o equilíbrio natural do jardim.

Jardins suspensos já são realidade no mundo

O telhado em alto-relevo do Museu da Academia de Ciência da Califórnia abriga mais de um milhão de mudas nativas da região sob suas clarabóias
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O telhado em alto-relevo do Museu da Academia de Ciência da Califórnia abriga mais de um milhão de mudas nativas da região sob suas clarabóias
Na Europa e nos Estados Unidos os tetos verdes já são uma realidade em boa parte dos novos edifícios, sejam eles privados ou públicos. Caso do museu da Academia de Ciência da Califórnia, inaugurado no fim de 2008, em São Francisco.

Projetado por Renzo Piano, ganhador do prêmio Pritzker – o Oscar da arquitetura -, o edifico utiliza praticamente todos os mecanismos de sustentabilidade. As paredes foram construídas com sobras de tecidos, como o jeans, e o telhado em alto-relevo abriga mais de um milhão de mudas nativas da região sob suas clarabóias. O resultado são sete pequenos montes, que acompanham o relevo do Golden Gate Park, onde está instalado o museu, criando um diálogo direto com o entorno.

Na capital paulista também começam a surgir projetos semelhantes. O mais recente é Hospital Israelita Albert Einstein, inaugurado neste ano. Ali, o uso da cobertura verde veio junto com a aplicação do conceito de sustentabilidade na arquitetura de todo o prédio, a fim de melhorar a qualidade de vida dos pacientes e funcionários.

“O telhado verde é uma tendência, porque a tendência é a sustentabilidade”, afirma Anna Carolina Botelho, coordenadora de projetos da construtora Kahn do Brasil, responsável pela obra. Associado a reservatórios de água e ao gerenciamento de descargas pluviais, a implementação do jardim suspenso reduzirá em 30% o volume de água da chuva que sai do prédio.

Outra estrutura verde que acabou se tornando verdadeiro ponto turístico do bairro da Vila Madalena é o edifício da loja carioca Farm, na Rua Harmonia. Desenvolvido pela Triptyque, a construção não tem apenas telhado verde, mas paredes recobertas por mudas de plantas das mais variadas espécies, além de um sistema hídrico que reutiliza toda a água do prédio.

O gerente de desenvolvimento do escritório de arquitetura, Fábio de Paula, acredita que o uso desse tipo de cobertura só deve aumentar com o passar do tempo. “A construção de prédios com telhados verdes é uma tendência na arquitetura mundial. Não se trata apenas de buscar maneiras de se construir com menor impacto ambiental, mas de uma solução para que as construções interajam com o meio ambiente de forma consciente e eficiente.”

Iniciativa ecológica começa a virar lei

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água da chuva que sai do prédio do Hospital
Albert Einstein" /
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O jardim suspenso reduz em 30% o volume de
água da chuva que sai do prédio do Hospital
Albert Einstein
Recém-chegado do Congresso Cities Alive, em Toronto, Canadá, onde foi discutida a aplicação de telhados verdes em todo o mundo, João Manuel Linck Feijó garante que a utilização de telhados verdes está se tornando uma tendência cada vez mais forte não só dentro da arquitetura, mas também da urbanização e do paisagismo das cidades.

Desde o ano passado, por lei, pelo menos 25% da cobertura de todas as novas construções acima de 250 m2 (ou 1.000m2, dependendo do bairro) na cidade de Tóquio devem ser, obrigatoriamente, verdes. “Nova York, Cidade do México e Toronto também adotaram uma legislação especial para esse tipo de solução sustentável”, completa o engenheiro.

No Brasil, por enquanto, apenas um projeto de lei do deputado federal Jorge Tadeu Mudalen (DEM - SP) foi apresentado. Nele está previsto um desconto de 5% no IPTU para os habitantes de cidades com mais de 500 mil pessoas que implantarem coberturas verdes em 50% de seus telhados.

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