Exposição reúne projetos que priorizam relação com o meio ambiente

A admiração por Lucio Costa foi o que motivou o arquiteto Abílio Guerra a organizar a mostra “Arquitetura Brasileira: Viver na Floresta”, em cartaz a partir de 15 de junho no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo.

Projeções, animações, fotos, maquetes, desenhos originais, reproduções, cortes e plantas de 84 projetos trazem um panorama do mais rico período da arquitetura moderna no Brasil (1930-1980), assunto no qual o curador Abílio Guerra se especializou.

“A diretoria do Tomie Ohtake me convidou para organizar uma exposição dedicada à arquitetura brasileira e eu escolhi o tema das minhas teses de mestrado e doutorado”, afirma o professor da Universidade Mackenzie.

Ele explica que não poderiam ficar de fora nomes como Lucio Costa, Oscar Niemeyer, Lina Bo Bardi e João Filgueiras Lima, o Lelé, entre outros. “São profissionais que souberam aproveitar o melhor da cultura e da natureza brasileiras, sem abrir mão da influência europeia, como propunha Oswald de Andrade, um dos maiores nomes da cultura brasileira, em seu Manifesto Antropofágico, escrito em 1928”, explica Guerra.

A principal influência europeia na arquitetura moderna brasileira se deve ao trabalho do arquiteto e urbanista francês Le Corbusier, que defendia, entre outras coisas, a existência de construções suspensas por pilotis e terraços-jardim sobre o concreto armado. Os pilotis aparecem no projeto de Marcílio Mendes Pereira, no bloco das superquadras 205 e 206, da Asa Norte do Plano Piloto de Brasília, entre outros trabalhos que podem ser vistos na mostra.

Sustentabilidade sempre esteve presente

Guerra conta que é comum ver arquitetos estrangeiros deslumbrados com a capacidade que o brasileiro tem de aproveitar o meio ambiente em que constrói. “Mantemos terrenos inclinados e fazemos edifícios suspensos para preservar o entorno, com mínima interferência no solo. Temos uma maior preocupação com a preservação das características naturais.”

A Casa de Vidro, em São Paulo, foi projetada por Lina Bo Bardi e é um dos marcos da arquitetura moderna brasileira
Divulgação
A Casa de Vidro, em São Paulo, foi projetada por Lina Bo Bardi e é um dos marcos da arquitetura moderna brasileira
A Casa de Vidro, criada pela Lina Bo Bardi, em 1951, é um exemplo clássico. A primeira residência a ser erguida no Morumbi, bairro nobre e bastante arborizado, em São Paulo, tem quartos e dependências de serviço assentados no solo. Mas o destaque é a sala envidraçada, sustentada por pilares metálicos, que gera um forte contraste com a mata fechada do local.

O que Guerra propõe, ao reunir esses projetos, “não é uma regressão ao primitivo, mas uma apropriação do natural com o auxílio da tecnologia”. Ele explica que princípios sustentáveis como ventilação e iluminação naturais – que chamam atenção no projeto da rede de hospitais Sarah Kubitschek, de Lelé, por exemplo – não são novidade. “A sustentabilidade virou uma preocupação geral mais recentemente, mas já pautava o trabalhos dos bons arquitetos desde sempre.”

Outro exemplo é o projeto para a cidade de Monlevade (MG), que Lucio Costa desenvolveu para um concurso promovido pela empresa Belgo Mineira. “Ele não venceu, mas o projeto é tão rico como o de Brasília, concurso que ele venceria alguns anos depois”, afirma Guerra. “Ele propõe a harmonia entre a floresta tropical e a arquitetura em um modo de vida intermediário ao rural e ao urbano, intensificando a relação da arquitetura com a paisagem e fazendo alusões ao Modernismo e ao que defendia Oswald de Andrade.”

Burle Marx

A arquitetura de Niemeyer integrada ao paisagismo de Burle Marx é destaque no Cassino da Pampulha
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A arquitetura de Niemeyer integrada ao paisagismo de Burle Marx é destaque no Cassino da Pampulha

O Cassino da Pampulha, desenhado por Niemeyer em 1942, também foi selecionado pelo curador, devido à relação entre os objetos arquitetônicos e o paisagismo de Roberto Burle Marx diante da onipresença das margens da lagoa da Pampulha.

Guerra explica que o mais importante paisagista brasileiro trabalhou em parceria com os principais nomes da nossa arquitetura moderna, justamente porque tinha essa preocupação de integrar a arquitetura com a paisagem externa.

O trabalho de Burle Marx também aparece no desenho original do Aterro do Flamengo, parque com mais de um milhão de metros quadrados onde o profissional deixou sua marca prevendo o plantio de mais de 11 mil árvores.

Trabalhos recentes

O projeto para o Museu do Igatu, em Andaraí (BA), faz parte da mostra “Arquitetura Brasileira: Viver na Floresta”, que tem curadoria de Abílio Guerra
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O projeto para o Museu do Igatu, em Andaraí (BA), faz parte da mostra “Arquitetura Brasileira: Viver na Floresta”, que tem curadoria de Abílio Guerra

A exposição “Arquitetura Brasileira: Viver na Floresta” traz ainda projetos recentes como o de Francisco Fanucci e Marcelo Ferraz, do escritório Brasil Arquitetura, para o Museu de Igatu, em Andaraí (BA). Finalizado em 2008, prevê uma extensa ponte de concreto, suspensa sobre um terreno árido e pedregoso. Uma pequena laje na parte superior protegerá o visitante do sol e da chuva e possibilitará uma bela vista do Vale do Paraguassu.

Serviço

“Arquitetura Brasileira: Viver na Floresta”
Visitação: 15/6 a 1/8
Local: Instituto Tomie Ohtake
Endereço: Av. Faria Lima, 201 (entrada pela Rua Coropés), Pinheiros – São Paulo (SP)
Horário: de terça a domingo, das 11h às 20h
Entrada franca


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