Especialista em projetos digitais em 3D, arquiteto americano ressalta a função social de sua profissão

Apontado como um dos grandes especialistas na utilização do BIM (Building Information Modeling), ferramenta digital que auxilia na criação e construção de complexos projetos em 3D, o arquiteto americano Paul Seletsky veio ao Brasil para participar do 13º Congresso da Sociedade Iberoamericana de Gráfica Digital, realizado na Universidade Mackenzie, em São Paulo.

Diretor de Projetos Digitais no escritório de arquitetura SOM (Skidmore, Owings e Merril), de Nova York, Seletsky esteve envolvido com desenvolvimento do 1 World Trade Center, projeto assinado pelo arquiteto David Child, que até 2013 deverá ocupar o lugar das Torres Gêmeas, em Manhattan. Em entrevista ao iG Casa  ele fala sobre o futuro da profissão e a função social do arquiteto.

iG: Como é ter feito parte da equipe que desenvolveu o projeto do 1 Word Trade Center, empreendimento que ocupará a área onde aconteceu a tragédia do 11 de setembro?
Paul Seletsky:
Este é, sem dúvida, um projeto simbólico, assim como o obelisco em Washington, o Capitólio e a Casa Branca. Entrei no escritório em maio de 2005, quando o projeto havia

Projeto do 1 World Trade Center adaptado pelo escritório americano SOM
Reprodução
Projeto do 1 World Trade Center adaptado pelo escritório americano SOM
acabado de ser entregue, mas é claro que sinto muito orgulho em fazer parte desse time, não só como arquiteto, mas pelo significado social que ele tem. Há algum tempo encontrei com David Child (arquiteto responsável pelo projeto final do 1 WTC) na rua e ele estava muito feliz de ver que mais do que criar um marco, seu projeto estava ajudando a restabelecer o urbanismo da cidade. É uma abordagem humanista.

Seria possível fazer esse projeto e tantos outros, como os modernos edifícios criados pelo arquiteto americano Frank Ghery (responsável pelo museu Guggenheim de Bilbao, na Espanha), por exemplo, sem o BIM?
Paul Seletsky:
Vamos responder desta forma, você pode colocar um prego na parede com um martelo ou com a sola de um sapato. O resultado será o mesmo, mas o tempo que se levará para isso é completamente diferente. A questão não é só essa, é preciso saber qual a tecnologia mais adequada para a natureza e complexidade de cada projeto. No caso do Ghery, cujos projetos exigem muitos estudos, essa tecnologia é fundamental, mesmo assim ele não abre mão de fazer moldes manuais para ter uma conexão humana com que se está criando.

Com essa tecnologia, a tendência é surgirem cada vez mais edifícios que são verdadeiras obras de arte, muitas vezes valorizando muito mais a estética do que a funcionalidade. Como fica a função social do arquiteto frente a isso?
Paul Seletsky:
Não há nada errado em ser artista, mas o arquiteto tem uma responsabilidade social diferente. A arte pode tocar nossos sentidos e sentimentos, mas não terá impacto no ambiente ou no aquecimento global como nossas obras. Daí a vantagem de termos, hoje, ferramentas de análise como o BIM, que nos permitem ser tão caprichosos quanto quisemos enquanto designers, e ao mesmo tempo validar nossas ideias de sustentabilidade, gasto de energia e impacto ambiental.

Estas questões parecem estar no centro da questão arquitetônica nesse momento, não?
Paul Seletsky:
É preciso pensar nisso sempre, porque se não projetarmos edifícios baseados nas premissas de sustentabilidade agora, no futuro teremos de pensar em como lidar com os problemas ambientais que causamos. A arquitetura não pode ser algo excludente. Ela afeta nossas vidas e o ambiente em que vivemos, então, cuidar do mundo também é nossa responsabilidade.

O senhor teve tempo de conhecer a cidade de São Paulo?
Paul Seletsky:
Sim, um pouco. É uma cidade fascinante e com grande infraestrutura, mas muitas coisas que mereciam ser repensadas e melhoradas, tais como a quantidade de carro e o nível de pobreza e sujeira que se vê pelas ruas. Não quero pintar um quando negativo, porque têm coisas boas também, como as áreas verdes e o senso de comunidade que vi em alguns lugares públicos, como a Praça Buenos Aires, onde há espaço para crianças, corredores e cães.

O que achou da mistura de estilos arquitetônicos?
Paul Seletsky:
A arquitetura tem de ser reinventada a cada era para traduzir o seu tempo. Não estamos mais na era industrial ou na era da informação para ficar copiando velhas fórmulas. Vivemos em uma comunidade de troca de informação e é preciso aprender a tirar vantagem dessa conexão virtual.

Pensando nessas novas ferramentas, que tipo de arquiteto teremos no futuro?
Paul Seletsky:
Precisaremos de profissionais que sejam mestres em construção, arquitetos que saibam combinar ciência e arquitetura, para entender todas as variáveis do processo e, assim, poder interagir com a tecnologia e tirar o máximo proveito do que estará disponível. Mas antes de tudo, é preciso correr riscos. O fracasso de hoje levará outros a fazerem melhor.

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.