Leveza das formas e delicadas soluções de engenharia revelam o verdadeiro talento do arquiteto brasileiro

Sutilmente afastados do solo, o Palácio da Alvorada, o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal mostram um Niemeyer em pleno domínio da técnica e na fase mais produtiva de sua carreira. A leveza de sua arquitetura também aparece em detalhes como os vértices dos pilares curvilíneos do Alvorada e dos arcos das fachadas da Editora Mondadori, na Itália, e do Palácio do Itamaraty, em Brasília. Criações que tanto influenciaram a obra de outros arquitetos.

Os arcos do Palácio do Itamaraty tornaram-se uma das marcas da arquitetura de Oscar Niemeyer
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Os arcos do Palácio do Itamaraty tornaram-se uma das marcas da arquitetura de Oscar Niemeyer

Mas a primazia sutil de sua obra ganha ainda mais força na escada circular de concreto projetada no interior da sede do Ministério das Relações Exteriores, na Capital Federal, uma de suas formas mais bem elaboradas. Também são destaque na construção o grande espelho d’água que faz o prédio “flutuar” e os jardins assinados pelo paisagista Roberto Burle Marx, que atuou em parceria com Niemeyer em diversos projetos, completando com o verde o brutalismo do concreto aparente.

Os detalhes também fazem a fama da Catedral Metropolitana de Brasília, a começar pela cobertura do templo. Formada por 16 peças em fibra de vidro em tons de azul, verde, branco e marrom, inseridas entre pilares de concreto, ela faz da igreja uma verdadeira obra de arte, enriquecida com peças de nomes como Athos Bulcão, Alfredo Ceschiatti e Di Cavalcanti. 

“O projeto da catedral deixa qualquer arquiteto embasbacado”, afirma o arquiteto Fernando Forte, do escritório FGMF. Ela encanta, de acordo com ele, “pela síntese incrível entre forma, estrutura e função, que mostram a inacreditável capacidade de um Niemeyer audaz com total domínio do repertório simbólico, espacial e construtivo”.

A cobertura da Catedral de Brasília é formada por 16 peças em fibra de vidro dispostas entre pilares de concreto
Flickr Jvc
A cobertura da Catedral de Brasília é formada por 16 peças em fibra de vidro dispostas entre pilares de concreto
Para Forte, Niemeyer apontou, durante a “adolescência” do movimento Moderno, caminhos muito diferentes dos que existiam até então. “A plasticidade com que ele demonstrou ser possível trabalhar os preceitos do Modernismo complementou – e, em muitas vezes, até desafiou – o rigor do racionalismo”, destaca.

Era o auge da carreira de Niemeyer e sua arquitetura virou uma febre. “Uma série de arquitetos em todo o mundo lançaram mão de marquises em curva, arcos, pilares, vãos livres, telhados em V e abóbadas”, afirma Rodrigo Queiroz, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo.

O que Niemeyer trazia de novo, não somente aos profissionais que trabalharam diretamente com ele, mas a todos que acabou influenciando em todo o mundo, era “um método único, que transgrediu a arquitetura moderna com técnica, espacialidade e poética formal próprias”, diz o arquiteto João Virmond Suplicy Neto, ex-presidente do IAB (Instituto dos Arquitetos do Brasil).

Niemeyer e Corbusier

O desenho de Oscar Niemeyer começou a ganhar forma ainda na sua infância, mas foi na experiência no escritório dos arquitetos Carlos Leão e Lúcio Costa que se consolidou como arquiteto, ainda muito jovem. Foi nessa época que conheceu o arquiteto Le Corbusier.

Panos de vidro, como os do Partido Comunista Francês, mostram a influência de Le Corbusier na obra de Niemeyer
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Panos de vidro, como os do Partido Comunista Francês, mostram a influência de Le Corbusier na obra de Niemeyer

Era 1936 e a carreira de Niemeyer e Le Corbusier tomou novo rumo graças a esse encontro. O uso de pilotis ou pilares (que deixam a fachada livre da estrutura), telhados cobertos por jardins, fachadas de vidro e brises-soleil (dispositivos posicionados em fachadas para diminuir a incidência da luz solar) – já tão presentes na obra de Corbusier – passaram a aparecer nos projetos do arquiteto brasileiro Niemeyer. E o inverso ocorreu com o colega franco-suíço.

“Le Corbusier foi um dos grandes nomes da arquitetura mundial que olharam com atenção para a obra do mestre brasileiro, o que se refletiu de forma flagrante em obras de sua autoria, como a capela de Ronchamp, na França”, afirma Abilio Guerra, professor da FAU Mackenzie. A construção à que se refere, concluída no início da década de 1950, foi revolucionária por trazer um teto curvo e negro, suspenso por paredes inclinadas e janelas de tamanhos irregulares.













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