Empresas de pesquisas decretam o fim das salas de jantar e home-offices e apontam para a valorização dos espaços voltados ao prazer

O bom momento da economia e as mudanças no cotidiano do brasileiro são os principais fatores que influenciarão na forma de morar nos próximos anos. Com a necessidade básica de moradia atendida, muitas vezes facilitadas por planos de financiamento promovidos pelo governo como o Minha Casa Minha Vida, as classes C e B começam a buscar produtos de maior valor agregado. “Com a economia estável e a segurança de emprego, as pessoas se sentem mais à vontade para contrair dívidas e melhorar seu padrão de moradia”, afirma Romero Busarello, diretor de marketing da Tecnisa.

É essa segurança e aposta no futuro que tem, segundo Busarello, jogado o preço dos imóveis a patamares irracionais. “É a cultura do ‘dane-se’, ‘eu posso me dar’.” Movimento que ganha ainda mais força nas classes A e B, nas quais a casa própria já deixou de ser o grande sonho de consumo e o imóvel novo é visto como oportunidade de investimento ou elemento agregador de status e qualidade de vida.

“A partir do momento que as pessoas passaram a ficar mais em casa e reunir os amigos ali, esse espaço passou a ser um elemento de valorização social, de demarcação de estilo de vida”, afirmou Maria Aparecida Toledo, sócia-diretora de planejamento da Toledo Associados Pesquisa de Mercado, durante palestra no Centro de Altos Estudos de Propaganda e Marketing da ESPM .

O fim do home-office e da sala de jantar

Cozinhas e terraços gourmet tendem a se integrar e absorver a sala de jantar
Divulgação
Cozinhas e terraços gourmet tendem a se integrar e absorver a sala de jantar
É de olho nessas novas necessidades que as construtoras começam a antever mudanças nas plantas residenciais. “Se o carro da classe média é um Tucson (da Hyundai), não podemos continuar a projetar vagas de garagem para carros de médio porte”, diz Busarello. “Se a internet sem fio e o lap top possibilitaram ter mobilidade na hora de trabalhar, para que reservar um espaço só para isso em casa?”, completa o executivo, decretando o fim dos home-offices como áreas delimitadas.

Outra área conhecida, que tende a desaparecer aos pouco das plantas é a sala de jantar. Símbolo de status, ritualização da refeição e hierarquia familiar, com suas mesas imponentes com lugares marcados, elas perdem significado numa sociedade que valoriza a confraternização ao redor do fogão e a informalidade à mesa. “A área antes reservada à sala de jantar deve se incorporar à cozinha criando grandes espaços gourmet”, explica Maria Aparecida.

Com isso, surge outra tendência, a da criação de duas sacadas principais: uma voltada aos festins em torno da churrasqueira, do forno de pizza e do fogão – fazendo as vezes de quintal – e outra dedicada ao estar, onde a vista e o conforto são primordiais. “As mulheres não querem ver seus sofás sujos com mãos de carvão ou gordura. Separar essas duas áreas é fundamental para evitar futuros desentendimentos entre o casal”, completa a pesquisadora.

Pelo mesmo motivo prático deve se fortalecer também a criação de dois banheiros na suíte do casal: um para ele e outro para ela. Sendo um deles maior e mais cuidado, com banheira, ofurô, sauna e outros pequenos luxos que dão novo significado à hora do banho.

Isso sem falar das plantas abertas e das inúmeras possibilidades de personalização do imóvel, facilidades praticamente obrigatórias daqui em diante.

Verticalização da decoração

Poucos móveis valorizam os espaços livres
Getty Images/Blend Images RR/Ned Frisk
Poucos móveis valorizam os espaços livres
Vivenciando um raro momento de segurança financeira e prosperidade, o brasileiro passou a valorizar o conforto e o prazer estético em casa. Isso estimulado, ainda mais, pelo surgimento de programas televisivos como “Lar Doce Lar”, de Luciano Huck, e “Sonhar Mais um Sonho”, de Gugu Liberato, que fazem reformas completas e apresentam soluções criativas para a casa dos telespectadores contemplados.

“Nos últimos anos houve uma verticalização do design e da decoração. Hoje, eles estão, de certa forma, mais acessíveis a todas as classes sociais”, afirma Maria Aparecida. “As pessoas passaram a decorar mais do que mobiliar. Tanto que, em apartamentos de até R$ 100 mil, é comum encontrar pelo menos um ambiente decorado ou planejado”, completa.

Mas isso também poderá mudar, segundo especialistas da empresa de pesquisa e tendências WGSM. De acordo com as últimas análises apresentadas no Brasil em junho, a próxima década reserva uma “verdadeira revolução nos lares”, com a redução do número de móveis para dar espaço a peças multifuncionais, a valorização das áreas livres e o aumento no número de produtos ligados à internet, sem necessidade de fios ou controles remotos.

Na decoração, peças absurdas e surreais estarão constantemente combinadas a clássicos, trazendo um toque de divertimento aos ambientes. Formas arredondadas, tecidos que valorizam o movimento, efeitos ópticos e materiais nobres que imitarão outros de menor valor – o chamado real falsificado, como couro que parece plástico ou fibras naturais que lembram algodão – também estarão em alta.


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