Imóvel comprometido ganha sobrevida com reforma criativa, de baixo custo

Cinco anos atrás, numa viagem de trem muito longa de Ulan Bator, na Mongólia, a Pequim, os americanos Kat O'Sullivan e Mason Brown levaram um bloco de notas e fizeram uma lista das coisas que uma casa dos sonhos deveria ter: sala com luz negra, mapa do chão ao teto, videiras crescendo dentro de casa, tartaruga de estimação do lado de fora, vitrola, tenda de circo. Todas presentes na atual residência do casal.

A lista de desejos, que se estende por várias páginas e é tremendamente caprichosa, também especifica uma cópia do dicionário inglês Oxford num pedestal, um buraco de minigolfe, um poste de barbearia, tapete de lã grega, vários balanços, incluindo um na varanda, badulaques do Tarzan, muitos móveis esculpidos com pés de animais, espelhos dourados, uma mesa de banquete grande, um aquário e uma passagem secreta.

"A lavadora e secadora ainda está faltando", disse a artista plástica O'Sullivan com um suspiro. Que tipo de casa tem duas tendas de circo e videiras crescendo no interior, mas não conta com uma lavadora e uma secadora? A Calico, casa necessitando de reparos em Cottekill, região no Estado de Nova York, que eles compraram por pouco mais de US$ 200 mil e a qual passaram os últimos cinco anos transformando num refúgio boêmio para o que ela chama de "trauma" de viver num apartamento decadente no Brooklyn.

Os quartos refletem o uso criativo de materiais e cores. O balcão da cozinha é revestido não com azulejos nem granito, mas com moedas. Gaveteiros modulares da década de 70 que guardam material de costura são pintados com o amarelo vivo do ícone pop de rosto sorridente, o “smile”. Um santuário foi construído para abrigar uma torradeira de US$ 200 – o único luxo yuppie confesso de O'Sullivan.

O ônibus escolar inteiramente grafitado faz parte do complexo criado por O'Sullivan e Brown
Randy Harris/The New York Times
O ônibus escolar inteiramente grafitado faz parte do complexo criado por O'Sullivan e Brown

No andar de baixo há um quarto com um curioso teto abobadado, um salão de baile miniatura onde o casal dá festas com fumaça de gelo seco e laser, uma clareira no bosque onde realizaram dois casamentos e um segundo terreno, no qual existe uma piscina.

"É legal virar o acampamento ou a pensão de todos os nossos amigos sem dinheiro", declarou O'Sullivan. A casa fica num terreno de seis hectares em meio a uma floresta, ao lado de uma estrada vicinal de duas pistas, mas não tem como não encontrá-la. O exterior foi pintado com todas as cores do arco-íris, com faixas verticais e horizontais. "Gastamos US$ 1 mil em tinta para pintar a casa”, afirmou O'Sullivan. "Quando saí da loja os funcionários aplaudiram."

Um mapa gigante toma a parede da sala de jantar da família, nos Estados Unidos
Randy Harris/The New York Times
Um mapa gigante toma a parede da sala de jantar da família, nos Estados Unidos

Em 2009, O'Sullivan e Brown rachavam um loft no Brooklyn com quatro outros amigos. Mas perceberam que, com o constante aumento do aluguel, terminariam expulsos. O casal havia acabado de visitar a Mongólia e se convenceram de que uma tenda seria suficiente para lhes abrigar. E a procura pelo terreno, preferencialmente a duas horas de distância da cidade, teve início. Terminaram em Calico por acaso.

A casa que melhor se encaixou em seus planos e orçamento limitado era remendada por fora e sombria por dentro, com os pisos cobertos por sete camadas de linóleo sujo. O lugar era um desastre oficial. "Mas eu sei bater um martelo. E a casa era um bônus", disse Brown. Passaram a residir ali naquele outubro, antes da chegada do inverno. Em vez de isolamento térmico adequado, encontraram jornais velhos enfiados dentro das paredes. "O 'New York Times' de 1931 não tem um poder isolante muito alto", O'Sullivan falou com um rosto inexpressivo. "Aquele primeiro inverno foi brutal e frio."

Mas, aos pouco, começaram a reformar os sistemas elétricos e hidráulicos, além de construir novas versões para o alicerce, poço, fossa e telhado. Apesar das muitas reformas que eles mesmos fizeram ou supervisionaram, O'Sullivan não se considera uma faz-tudo. "Eu pinto, grampeio e colo. E sei delegar." Sua abordagem da reforma e da decoração da casa é igual: cobrir tetos e paredes com sedas e tecidos de cores vibrantes que comprou na Índia e em outros países visitados. Outra técnica muito empregada é formar uma coleção de algo cafona ou fora de moda e forrar uma parede, como ela fez com máscaras de papel machê compradas no Equador.

Brown pegou um quarto para criar uma biblioteca masculina vitoriana. O cômodo contém globos antigos e dois itens da lista de desejo: uma vitrola (de seu avô) e um compartimento secreto (atrás das estantes de livros que vai do chão ao teto). Surpreendentemente, o quarto do casal no andar superior, batizado por eles de sala celestial, é gracioso e minimalista como um estúdio de ioga. Uma ou outra planta e a vista da janela para o lago são as únicas distrações visuais. "Tento nem trazer meu computador aqui", explicou O'Sullivan. "É a minha fuga."

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