Um dos profissionais mais premiados e admirados do Brasil, Marcio Kogan fala sobre o sonho de fazer obras públicas e a presença de escritórios internacionais no País

Suas obras são marcadas por traços limpos, grandes volumes e ambientes integrados com o meio externo, em combinações sofisticadas que fizeram de Marcio Kogan um dos arquitetos mais requisitados e premiados do Brasil. Em uma conversa franca com o profissional, descobrimos um pouco mais sobre suas inspirações, sonhos e indignações, como a crescente presença de escritórios internacionais de arquitetura assinando projetos no País. “A exigência de formas inéditas nos projetos, algo tão aclamado hoje pelas empresas, não passa de uma aberração arquitetônica”, afirma. Veja a entrevista abaixo.

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Na galeria de fotos, um tour pelo escritório de Marcio Kogan

iG: De onde tira inspiração para criar obras tão exuberantes?
Marcio Kogan: Não existe milagre no momento da criação. Busco sempre integrar o projeto com o entorno e atender as necessidades do cliente . Aliás, acredito ser ele quem faz a grande diferença. Quanto maior a ousadia permitida, melhor será o resultado. Gosto de trabalhar com precisão e encher de luz natural as construções. Acredito conseguir inspiração na cidade onde vivo, nas viagens, enfim, no dia a dia.

iG: O estilo do morador influencia na arquitetura?
Kogan: Sim, claro. Na casa Gama Issa, em São Paulo, tive de adaptar o projeto devido ao grande número de livros da coleção do cliente. Para isso, imaginei uma grande estante, que pedia um pé-direito duplo. A casa de alvenaria ganhou linhas bem delimitadas e enormes panos de vidro espalhados ao longo dos 700 m². O imóvel ainda ganhou portas de correr que integraram totalmente a sala de estar com a área externa. (Tamanha exuberância resultou em prêmio no World Architecture Awards 2002 e menção honrosa na IV Bienal Ibero-Americana.)

iG: Arquitetos estrangeiros têm marcado presença no Brasil e assinado projetos de grande porte. A ousadia que as empresas esperam conseguir destes profissionais não pode ser encontrada por aqui?
Kogan: São perspectivas diferentes. A ousadia que eles oferecem é algo que não gosto. A exigência de formas inéditas nos projetos, algo tão aclamado hoje pelas empresas, não passa de uma aberração arquitetônica. A identidade brasileira sempre valorizou o brutalismo moderno na arquitetura. Nossa ousadia deve ser traduzida no uso de volumes intensos e no tom de seriedade empregado nas construções. É isso que faz sentido aqui e reforça a nossa identidade.

Kogan acredita ser o cliente quem faz a grande diferença nos projetos
Edu Cesar
Kogan acredita ser o cliente quem faz a grande diferença nos projetos

iG: São poucos os arquitetos que assinam obras públicas no Brasil. Qual é a sua interpretação sobre o assunto?
Kogan: Minha maior vontade depois de formado era a de fazer habitações sociais, por isso, me especializei inclusive no exterior. Entretanto, percebi que no Brasil esse tipo de obra não era valorizada e tinha baixíssima qualidade. Enveredei para outro lado na arquitetura e sempre senti falta de assinar tais projetos. Somente agora estou envolvido em uma obra pública. Ainda hoje falta articulação política para viabilizar a parceria com os arquitetos. Não há um entendimento aqui sobre a real importância da arquitetura em um país.

iG: A maioria das obras que projeta conta com um exterior de muita beleza. Mas como resolve quando isso não acontece?
K
ogan: É bastante comum ver meus projetos totalmente integrados ao meio ambiente. Porém, quando o entorno não contribui, tento trazer o máximo de qualidade de vida para os espaços internos. Isto pode incluir até mesmo a presença de uma árvore no meio do pátio da casa.

iG: Qual será o futuro da arquitetura diante de tanta evolução tecnológica?
Kogan: Projetar é uma tarefa cada vez mais complexa. Antes, as construções brasileiras mal tinham ar-condicionado como exigência, sendo construídas em duas semanas. Mas isso está mudando. A indústria do conforto nos impulsiona a planejar novas soluções e a ter mais conhecimento sobre as tecnologias do mercado.


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