Conheça a trajetória do arquiteto paulistano Marcio Kogan, reconhecido mundialmente por fazer obras exuberantes, com traços limpos e ambientes integrados com a paisagem

A maneira tímida como Marcio Kogan se expressa poderia indicar algo sobre o seu fazer na arquitetura. Mas não. As obras do arquiteto paulistano, ganhador de mais de 200 prêmios nacionais e internacionais, se diferenciam pela exuberância estética. Kogan se mostra em traços limpos, grandes volumes e ambientes integrados com o meio externo. “Gosto de usar a grandiosidade. Quero levar harmonia aos moradores e emocionar por meio da proporção”, afirma ele, que recebeu o título de membro honorário no Instituto Americano de Arquitetos (AIA). “É um profissional discreto e muito sensível. Impressiona a clareza e sofisticação que imprime nos projetos. Ele se apropria de materiais como madeira e concreto para conseguir resultados extremamente delicados. É uma resposta muito madura na carreira”, diz Angelo Bucci, arquiteto e professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo de SP (FAU).

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“A exigência de formas inéditas nos projetos, algo tão aclamado hoje pelas empresas, não passa de uma aberração arquitetônica”
, diz Kogan sobre a crescente presença de escritórios internacionais de arquitetura assinando projetos no Brasil.

A ligação do arquiteto com o mundo das pranchetas começou ainda em casa, na presença do pai engenheiro. “Acompanhava ele durante as visitas aos canteiros das obras e já sentia que ali seria o meu lugar”, revela. Aron Kogan ganhou notoriedade por projetar e construir, em parceria com o arquiteto Waldomiro Zarzur, o maior arranha-céu brasileiro (com 170 m e 51 andares), o edifício Mirante do Vale, no Vale do Anhangabaú, em São Paulo. Mas outra paixão surgiu no caminho do jovem estudante: o cinema. Kogan se aventurou atrás das câmeras e produziu 13 curtas-metragens, muitos em parceria com o também arquiteto Isay Weinfeld, com quem viria a assinar projetos arquitetônicos. O auge de sua incursão cinematográfica foi o longa “Fogo e Paixão”, com a participação de atrizes como Fernanda Montenegro e Mira Haar, em 1988. A falta de retorno financeiro, no entanto, o fez voltar para os croquis - no inicio da década de 80 - e abrir o futuro Studio Mk27.

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Márcio Kogan preservou a linguagem do cinema nas obras. Não à toa, muitas das casas que desenha têm o máximo de ambientes integrados, todos de beleza cenográfica, trazendo a área externa para dentro da casa. Outra marca do profissional é a retomada da tradição modernista brasileira dos anos 70 (a ver a utilização dos cobogós em novas interpretações), com releituras de grandes mestres como Affonso Eduardo Reidy, Lina Bo Bardi, Vilanova Artigas, Oscar Niemeyer e Lucio Costa. “Kogan passou por várias fases do modernismo e transitou inclusive no pós-moderno, sendo irônico assim como o Weinfeld. Agora apresenta rigor e esmero construtivo. As obras são marcadas por poucos detalhes, o que é um desafio, pois aparecem muito”, afirma Mario Figueroa, professor e coordenador do curso de arquitetura da Faculdade Armando Álvares Penteado (FAAP). “Ele é ousado e não hesita em experimentar novas possibilidades. Tamanho ecletismo resulta numa liberdade maior nos projetos”, afirma.

A premiada Casa Cubo traz a marcante estética brutalista usada com frequência pelo arquiteto Marcio Kogan
Divulgação/Fernando Guerra
A premiada Casa Cubo traz a marcante estética brutalista usada com frequência pelo arquiteto Marcio Kogan

Entre os projetos mais icônicos de seu portfólio estão as premiadas Casa Cubo, que surpreende pelo contraponto entre o brutalismo do grande quadrado de concreto e a delicadeza dos pilotis que a sustentam; Casa Paraty, feita com duas caixas de concreto aparente que repousam delicadamente na encosta de uma das ilhas da região; e Casa Corten, cuja fachada ousa na utilização do aço, suavizado internamente pela madeira. Fora o hotel Fasano São Paulo, assinado em parceria com Isay Weinfeld, e diversas villas no condomínio Fasano Boa Vista, no interior de SP. Entre elas a do publicitário Alexandre Gama. “Antes de começar um projeto, peço que os clientes me tragam todos os seus sonhos, para que consiga desenvolver algo mais próximo de suas expectativas“, diz Kogan. “O verdadeiro reconhecimento vem da satisfação dos clientes e não dos prêmios na parede.”

O sucesso do arquiteto paulistano é também fruto de um bom relacionamento com a equipe – integrada inclusive pelo filho Gabriel, que escolheu a mesma profissão do pai. “Acho natural trabalhar com os filhos e é muito bom quando as coisas funcionam bem. No nosso caso funciona”, diz. Os profissionais do Studio Mk27 interagem entre si e levam dinamismo aos ambientes brancos do escritório. O espaço de Kogan é marcado por uma estante repleta de miniaturas de design (algumas compradas e outras tantas ganhadas de clientes) e objetos lúdicos atrás da mesa. Hoje, com 61 anos e casado com a artista plástica Raquel, Marcio se vê envolvido em novos projetos residenciais, além de dois resorts (um em Bali e outro em Portugal) e um outro curta-metragem, agora sobre os problemas de São Paulo. “Quero poder voltar a fazer cinema , mas com projetos menores e produções mais simples. Minha ideia é mostrar os trabalhos de arquitetura com humor e de maneira pouco convencional.”

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