Em meio às residências de artistas famosos, em Los Angeles, um imóvel se sobressai pela ousadia. Conheça sua história

NYT

Pegar a Sunset Boulevard até o Oceano Pacífico, em Los Angeles, é um passeio maravilhoso, mundialmente famoso. Você desliza por cânions rústicos onde moram estrelas de cinema e respira a brisa do oceano a leste de Brentwood, como se a natureza houvesse abastecido os moradores com ar-condicionado gratuito. No mesmo trecho de estrada, você certamente encontrará parte da ousada arquitetura da cidade. Pouco antes de Pacific Palisades há uma colina tortuosa, e agarrando-se a ela, uma casa cautelosamente equilibrada em vigas maciças de concreto. A residência de dois andares revestida de madeira parece flutuar perigosamente sobre a estrada. Você olha para cima e lembra-se de terremotos e se arrepia.

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Segundo Thomas Carson, arquiteto de Los Angeles que admira a bravata de engenharia da casa, ela se tornou parte do cenário da famosa rota. "Todos a conhecem", afirmou Carson. J. Scott Carter, um arquiteto, comparou-a a outra vista familiar do sul da Califórnia. "Ela é como um viaduto, com esses pilares de concreto", disse ele, acrescentando: "Vendo de baixo, você não concebe a ideia de alguém estar lá dentro".

A casa realmente possui um ar de mistério. Sua forma dramática e empoleirada sugere a mansão de um vilão de James Bond ou de um excêntrico e recluso produtor de Hollywood. Ela é um notável exemplo de brutalismo, mas não é obra de um arquiteto renomado e não aparece na lista das maiores obras-primas modernistas da cidade. Embora muitas pessoas a conheçam, contou Carson, "muito pouca gente sabe quem a projetou. E menos gente ainda sabe que o homem que mora nela foi quem a concebeu".

Certa tarde no último ano, Robert Bridges descansava em sua cozinha bem acima da Sunset Boulevard, refletindo sobre sua vida e carreira. O cômodo era dividido em dois por uma pesada coluna corbusiana, e bastante escuro. Enquanto ele falava, o leve barulho do tráfego podia ser ouvido 30 metros abaixo. Bridges, de 60 anos, é professor de finanças imobiliárias na University of Southern California, na Marshall School of Business; mas há 30 anos, ele era um construtor e arquiteto que projetou diversas casas pelo sul da Califórnia – incluindo essa, instalada tão precariamente.

"Eu sou, antes de mais nada, cauteloso", argumentou Bridges. "Esta casa pode parecer precária, mas não é. De um ponto de vista de engenharia, esta coisa é absolutamente racional", garante. Seu projeto desafiador da gravidade foi uma resposta a limitações tanto financeiras quanto arquitetônicas. Bridges comprou o terreno íngreme, aparentemente impossível de construir, por US$40 mil (R$ 95 mil) em 1979. Além de sua localização em Pacific Palisades, disse ele, a propriedade tinha apenas mais um benefício evidente: "Na época, era a o que eu podia comprar".

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O delicado equilíbrio da casa nas colinas de Los Angeles
Trevor Tondro/The New York Times
O delicado equilíbrio da casa nas colinas de Los Angeles

Construir a casa apresentou sérios desafios: a inclinação, para começar, mas também o barulho do tráfego. O imóvel teria de defletir uma interminável sinfonia de motores e escapamentos. E Bridges sabia que qualquer planta que ele desenhasse seria altamente visível. "Eu não podia simplesmente colocar colunas coloniais ou alguma grande projeção de uma fundação convencional", explicou ele. Durante uma década, ele trabalhou e criou três filhos com sua esposa, Janelle, enquanto economizava dinheiro e ponderava suas opções. Finalmente, depois "de muitas ideias artísticas e de engenharia", ele chegou a uma solução: concreto reforçado pós-tensão. Conforme explicou Bridges, "é basicamente a mesma tecnologia de uma estrutura de estacionamento".

Pilares de sustentação fazem contato com o chão em bases de concreto; sob as bases ficam estacas inseridas profundamente no solo com certo ângulo – o equivalente a alguém abrindo as pernas para se firmar melhor. Em cima de tudo isso, a casa. Para despejar todo esse concreto, ele não podia pagar uma equipe com maquinário pesado. Foi apenas ele, um guindaste e três outros homens. "Quando você tem 35 anos é diferente do que em outra época de sua vida – tudo é emoção, mas é muito arriscado. Estávamos constantemente pendurados na lateral, fazendo proezas de coragem e estupidez."

Janelle Bridges, às vezes, visitava a obra com seus filhos e via o marido pendurado sobre o vazio. "Eu me lembro, quando nos mudamos, de ter alguns pesadelos sobre quedas", contou ela. "Fico pensando de onde veio isso.” Com toda sua ousadia voltada à Sunset, a casa tem dupla personalidade. Sua entrada fica em uma rua residencial plana, e parece quase modesta. Entretanto, o interior traz o selo de seu método de construção: os tetos são de concreto exposto, enquanto enormes colunas pontuam os espaços habitáveis. Janelle a chama de "o tipo de casa para um homem", embora seu marido tenha usado madeira nos pisos e paredes para torná-la mais quente. O efeito é como estar dentro de uma casa na árvore projetada por Robert Moses.

Robert Bridges disse: "O conceito era um plano aberto, como se fosse um loft em Nova York. Não houve um planejamento cuidadoso sobre detalhes requintados do espaço interior". E de qualquer forma, o foco é para fora, para as coisas que se desenrolam mais abaixo. Na cozinha, uma varanda se estende por cima da movimentada via. "Todos que compram um carro novo em LA dirigem pela Sunset Boulevard, então eu tenho visto de tudo", explicou Bridges, de pé na sacada. "Nós vemos os malucos com seus carros luxuosos a mais de 160 km/h."

De noite, disse ele, a avenida se acalma. "O tráfego se reduz a nada e ficamos com essa plataforma de observação, com uma vista de todo o cânion. À noite, este lugar é incrível." Enquanto construía a casa e depois, Bridges foi cercado por transeuntes curiosos, e ele achava que o interesse acabaria diminuindo –, mas isso nunca aconteceu. Ônibus de turismo ainda passam bem devagar pela Sunset. Estudantes de arquitetura batem a sua porta. Mesmo quando ele está longe de Los Angeles, a notoriedade de sua casa o segue.

"Conheci um cara no Alasca, no meio do nada, que estava tentando descrever uma casa maluca que ele havia visto; lembro-me que o homem estava ligeiramente bêbado e custou a explicar, mas então percebi que ele estava falando da minha casa." Wyatt Bridges, seu filho mais novo, hoje com 22 anos, contou que quando estava crescendo, ele dizia às pessoas onde morava e seus olhos brilhavam em reconhecimento. "Elas diziam, 'Ah, você mora naquela casa que fica pendurada no penhasco'." Conforme cresceu, tornou-se uma fonte de orgulho para ele o fato de seu pai ter construído a casa e grande parte da mobília. "Isso tem muito mais significado porque as coisas não são objetos, são peças históricas."

Não muito tempo depois da família se mudar, em 1991, os Bridges mais velhos, avessos aos riscos financeiros da indústria de construção e sentindo seus interesses tomando outros rumos, trocaram a arquitetura pelo mundo acadêmico. Sua marca duradoura como arquiteto e o trabalho pelo qual ele é mais conhecido, mesmo que anonimamente, é a casa onde ele acorda todas as manhãs. Talvez isso seja apropriado, considerando o que foi preciso para construí-la. "Foi um grande sacrifício trabalhar e construir esta coisa enquanto criávamos nossos filhos", disse Bridges, inspecionando a cidade de seu deck. "Foi uma luta."

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