Voltado a resolver problemas urbanísticos da cidade, o Una Arquitetos propõe mudanças radicais em regiões como Lapa, Sapopemba e Parque Dom Pedro

São Paulo foi classificada, em outubro, pelo site de viagens U City Guides como a nona metrópole mais feia do mundo. E não foi à toa. A ausência de planejamento urbanístico tornou a capital paulista um lugar caótico e com poucas áreas verdes. “Não há planejamento nem coordenação entre as gestões em São Paulo. Os projetos acabam se perdendo", diz Fabio Valentim, do escritório Una Arquitetos. O profissional fala com propriedade. Desde 2010 tenta tirar do papel a revitalização do Parque Dom Pedro, na Zona Leste da cidade, aprovado pela gestão Kassab. Ainda em discussão na Prefeitura, o projeto propõe eliminar os viadutos que existem no local e unir os terminais de ônibus e a estação de metrô em um composto intermodal, além de criar um sistema de lagoas, vários parques e uma esplanada de 730 metros de extensão. Surgindo, assim, um modelo integrado e urbanisticamente coerente. 

“Os governos constroem viadutos e não pensam nos impactos gerados", completa Valentim. "Aqui se gasta muito para fazer mal feito. As empresas não contabilizam na obra os impactos relacionados ao trânsito gerado, aos atropelamentos e a poluição. O que é um erro”, diz Cristiane Muniz, outra parte fundamental do Una, formado ainda por Fernanda Barbara e Fernando Viégas, todos ex-colegas de turma na Universidade de São Paulo.

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Determinados a iniciar discussões necessárias sobre a valorização do espaço público e a integração da comunidade e do entorno das obras, sem perder de vista a beleza, o grupo vem alcançando reconhecimento internacional. Desde 1996, quando foi criado, o Una já foi convidado a expôr em duas edições da Bienal de Arquitetura de Veneza e recebeu diversas premiações na Bienal Internacional de Arquitetura de SP.

“Eles representam o bom momento da arquitetura brasileira. Desenvolvem projetos interessantes e buscam soluções para acessos, volumetria, inovação e espaços públicos ”, afirma Enio Moro Jr, professor do curso de arquitetura e urbanismo do Centro Universitário Belas Artes de SP. 

Os arquitetos do Una não se intimidam com os problemas da cidade e buscam soluções viáveis
Edu Cesar
Os arquitetos do Una não se intimidam com os problemas da cidade e buscam soluções viáveis

Na pauta do quarteto ainda está a unificação da Lapa – também em estudo na Prefeitura desde 2010 –, que busca juntar as regiões alta e baixa do bairro paulistano por meio do desenvolvimento de uma estação única, com área aberta e edifícios sobre a marquise. Para tanto, será necessário realocar as linhas de trem para o subsolo – algo possível e viável, segundo os arquitetos

Apesar de algumas de suas propostas de mudanças serem drásticas, eles não desanimam. “A nova geração quer andar de bicicleta e se sentir integrada à cidade. As pessoas começam a perceber a importância de construções bem articuladas serem realizadas”, afirma Valentim, que agora sonha em concretizar a reurbanização de uma parte do complexo de oito favelas no bairro Sapopemba. Aprovado em um concurso público nacional, em 2011, o projeto de R$ 3,7 milhões integra o plano Renova SP e prevê a transferência de moradores de áreas de risco para novas habitações e a construção de espaços públicos (praças e quadras) para os quase 100 mil habitantes da região. “Procuramos sempre analisar questões relacionadas ao terreno, vento, clima e à interação necessária entre a construção e a sociedade . Não faz parte do nosso perfil criar moradias sem propor soluções para falhas urbanas existentes”, afirma Viégas.

A presença recorrente do Una Arquitetos em concursos públicos é mais um aspecto que chama atenção no mercado. “Um escritório envolvido com concursos quer discutir ideias. Isso é muito comum no exterior, mas não aqui. Eles têm capacidade para tanto e refletem muito bem os problemas da cidade”, afirma Adalberto da Silva Retto Jr, professor de arquitetura da Unesp. A importância de tais disputas é ressaltada por Fernanda: “Aprendemos muito ao desenvolver projetos públicos. A grande questão é que, na maioria das vezes, vence o plano de menor custo e, na fase final, as construtoras ainda se impõem sobre os arquitetos”.

Para aplacar a ansiedade frente à lentidão dos órgãos públicos, eles também se dedicam a projetos privados. Repletas de volumes, linhas retas, panos de vidro e pés direitos duplos, as casas construídas pelo escritório também não fogem à filosofia inicial e buscam sempre valorizar e integrar-se ao entorno. Caso do imóvel de São Bento do Sapucaí, interior de São Paulo, cujo ar modernista (presente nos traços de Niemeyer e Lúcio Costa) já foi digno de destaque em diversas publicações epecializadas no Brasil e exterior. 


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