Instituto de design italiano vem ao País para captar alunos interessados em unir o aprendizado às necessidades da indústria

A integração entre fabricantes e alunos de design na indústria moveleira é algo ainda pouco explorado no Brasil, mas essa realidade pode mudar em alguns anos. Interessados em unir a bagagem cultural e o estilo de vida do brasileiro às demandas do mercado, um comitê do Instituto Marangoni de Milão, uma das mais respeitadas escolas de design do mundo, está no Brasil para atrair alunos. “Os jovens precisam compreender desde cedo quais as necessidades dos fabricantes e estes, por sua vez, acompanhar o desenvolvimento dos futuros parceiros. Apenas 30% das ideias se transformam em realidade”, afirma Giulio Cappellini, consagrado designer italiano, dono da marca de móveis de mesmo nome e diretor criativo e acadêmico do Instituto. “O bom profissional deve sujar as mãos, não apenas desenhar. Os projetos mudam até 50% durante o desenvolvimento, por isso, é fundamental que todos se entendam.”

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De acordo com ele, a forma mais certeira de um designer emplacar um projeto na indústria é tornar a produção viável. Apenas criatividade não basta. E não há outra maneira de fazer isso se não entendendo o processo fabril , de preferência, ainda na escola. A conexão indústria-universidade também é defendida por Beto Concenza, diretor criativo da empresa nacional ViaLight. “Contamos com uma formação cultural muito atrelada à diversidade, mas grande parte dos projetos não é aproveitada pela indústria. Falta conversa e oportunidade”, ressalta. “Quando os jovens estão nas escolas, é o momento ideal para receber orientação e ter suas ideias desenvolvidas”, diz.

Algumas empresas brasileiras, entretanto, já perceberam tamanho potencial e iniciaram uma transformação no cenário nacional. A Meu Móvel de Madeira, por exemplo, investiu na criação do projeto “Meu Primeiro Royalty” – programa que incentiva os universitários a desenvolverem móveis para a marca. “Nós mostramos as etapas da produção na fábrica e profissionais experientes analisam a viabilidade das propostas dos estudantes. É um feedback muito rico e que às vezes não acontece no mercado”, afirma Ronald Heinrichs, diretor da empresa.

A proposta de investir na formação estudantil dos designers é o principal objetivo da parceria entre a Cappellini (presente há mais de 34 anos no mercado internacional) e o instituto italiano fundado em 1935, com unidades em Milão, Paris, Londres e Xangai. Nos últimos 12 anos, apenas cerca de 500 estudantes brasileiros apostaram nos cursos do instituto, que em janeiro de 2014 inaugura um novo campus na capital italiana do design. Porém, os italianos querem melhorar a marca e levar a diversidade cultural brasileira à escola, uma vez que o mercado têm demandado cada vez mais peças com matérias primas naturais, cores suaves e toques artesanais.

Para o designer Giulio Cappellini, um bom projeto é aquele que une beleza e funcionalidade
Divulgação
Para o designer Giulio Cappellini, um bom projeto é aquele que une beleza e funcionalidade

Para isso os italianos vêm não só divulgar os cursos, mas lançar um pacote de incentivos estudantis que vão desde bolsas integrais até descontos de cinco mil euros em módulos de graduação e pós-graduação. O ano letivo na escola não sai por menos de 15.900 euros. “Estamos focados nisso porque as necessidades do consumidor final mudaram. Agora, ele busca por aconchego e produtos ‘companheiros’ de vida. Os brasileiros conhecem tal realidade e conseguem trabalhar bem com matérias primas naturais e cores suaves”, afirma Cappellini sempre com foco na formação da mão de obra adequada para o futuro da indústria.

Além disso, a presença de novos materiais e texturas inusitadas deve se tornar algo recorrente no mobiliário, bem como móveis e objetos híbridos, que podem entrar tanto em residências quanto em locais públicos. “Os designers precisam observar a possibilidade de criar a partir de materiais comuns em outras áreas e que possam atender a diferentes necessidades no ambiente”, diz ele, que neste momento testa na empresa a produção de móveis leves e resistentes, feitos com fibras usadas pela Nasa. O designer ressalta também a importância de criar produtos que sensibilizem e tragam sonhos aos consumidores. “O belo vende melhor, deve ser valorizado, porém, nunca ficar distante da utilidade”, diz. “Fabricar tais peças exige muito trabalho e dedicação”, afirma.

A ligação entre escola e indústria já é realidade também entre os alunos da Panamericana Escola de Arte e Design. A instituição brasileira conta com programas que fomentam o desenvolvimento estudantil na criação de projetos inovadores junto a empresas como LG, Penalty, Caloi, Brastemp e BMW. Outra maneira encontrada pelos fabricantes para interagir com os estudantes do País é investir na realização de concursos. Electrolux e Deca apostam na ideia, dão suporte aos candidatos e premiam as ideias mais bem sucedidas. Mas ainda falta muito para os jovens designers se sentirem amparados pela indústria. “Tinha o protótipo da poltrona ‘Trez’ finalizado e não conseguia emplacar por aqui. Só consegui fazer o móvel depois de receber apoio da estrutura italiana”, diz o designer Zanini de Zanine. “Hoje, as fábricas do País já estão mais estruturadas e há foco na alta qualidade. Falta apenas entenderem o belo como ferramenta de negócio”, completa.


Serviço:

Instituto Marangoni
Luiza Bomeny
21-2287-3101

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