Formas inusitadas, fachadas de vidro e grandes vão livres marcam os projetos dos arquitetos do Aflalo&Gasperini

Quem aguarda na recepção do escritório Aflalo&Gasperini, sentado nas poltronas Wassily de couro preto e estrutura metálica, logo põe os olhos na maquete do edifício Peugeot que faz as vezes de decoração. Vencedor do concurso anual da Associação Internacional de Arquitetos de 1962, o projeto marca o início da parceria entre os arquitetos Plinio Croce, Roberto Aflalo e Gian Carlo Gasperini, que, mesmo pouco conhecidos do grande público, são responsáveis por grande parte dos prédios que abrigam centenas de paulistanos diariamente. Das sedes do Tribunal de Contas de SP (próximo à avenida Rubem Berta), da IBM Brasil (na avenida 23 de Maio) e Kraft Foods (na avenida Luís Carlos Berrini), à Biblioteca São Paulo (no antigo Carandiru) e o Shopping Iguatemi (na avenida Faria Lima). O escritório é hoje controlado principalmente pela segunda geração dos Aflalo – Roberto (filho) e Luiz Felipe (sobrinho) – e segue transformando a arquitetura da capital paulista. Nos próximos meses, ao menos 12 novas torres de formas ousadas, grandes vãos livres e muito vidro na fachada abrigarão empresas e famílias na capital paulista.

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Confira na galeria de fotos abaixo os principais projetos em andamento na cidade:

O expediente do escritório localizado na Rua Helena, no bairro Vila Olímpia, começa às 8h30 e, aos poucos, os quase 100 funcionários ocupam dois andares de 400 m² do prédio Atrium IV, projetado por eles, claro. Às vezes, um anexo da construção em frente ainda tem de ser usado para acomodar novas equipes. Os arquitetos Luiz Felipe Aflalo Herman e Roberto Cláudio dos Santos Aflalo Filho chegam cedo e buscam se inteirar do andamento das obras. Nas mesas dos projetistas, as pranchetas há muito cederam lugar a modernos computadores e a tecnologia está cada vez mais presente. Mas as referências de grandes nomes do passado, como Jacques Pilon, Rino Levi, Affonso Reidy, Frank Wright, Le Corbusier e Mies Van der Rohe, ainda continuam presentes.

A estética modernista dos anos 70, em busca do racional, sem grandes ornamentos, contribuiu para o emprego de brises, concreto armado e grelhas estruturais em suas obras. Como pode ser visto em construções como o Banco Sudameris (formado por duas grelhas paralelas), localizado entre a avenida Paulista e a alamenda Campinas, e o edifício João Ramalho, em Perdizes. A entrada da tecnologia, no entanto, deu início a uma temporada de pesquisas sobre novos materiais e, o vidro, muito presente nos Estados Unidos, assumiu posição de destaque nos projetos recentes – um exemplo é o prédio Cidade Jardim, na esquina da Rua Mario Ferraz, que recebeu mais de 900 m² do material somente na fachada.

“A importância do escritório no cenário da arquitetura paulistana está relacionada à grande preocupação técnica com os projetos. A funcionalidade é aliada à questão estética e o vidro aparece trazendo leveza e eficiência”, diz Samir Hernandes Tenório Gomes, professor de arquitetura da Unesp Bauru, fazendo uma análise da trajetória desenvolvida pelo Aflalo&Gasperini.

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O "formato de vela inflada" do edifício Infinity serviu ainda para ampliar os andares altos

A possibilidade de controlar aspectos como temperatura e incidência de luz foi determinante para o vidro integrar definitivamente os desenhos da empresa. “Usamos um tipo de laminado que nos permite tais regulagens, além de manter a proposta de integrar o exterior com os ambientes internos. A tendência será investir em materiais que se adaptem ao clima e apresentem células fotovoltaicas”, afirma Roberto. O edifício Infinity, revestido com vidros de alto desempenho – um trunfo para evitar a passagem de calor – já mostra a preocupação do escritório em criar edifícios sustentáveis .

“A referência americana nos projetos do Aflalo&Gasperini é nítida, porém, engana-se quem imagina faltar traço brasileiro. A abordagem aqui exige ajustes de climatização e topologia. Além disso, a qualidade da mão de obra e tecnologia são muito diferentes, o que acaba interferindo no resultado dos projetos”, diz Carlos Faggin, arquiteto, urbanista e professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP.

Áreas de convívio

Outra marca registrada do escritório é a presença constante de vãos livres em suas construções. Edifícios como o FL 4300, na avenida Faria Lima, e o Rochaverá, na avenida das Nações Unidas (próximo ao shopping Morumbi), apresentam tal proposta e valorizam as áreas público-privadas. Os pilares elevados dos prédios conseguem uma estética diferente e oferecem à cidade grandes áreas de convívio. “As pessoas que transitam na rua podem aproveitar as praças, áreas verdes e restaurantes presentes nestes locais. É importante por representar um novo urbanismo em São Paulo”, diz Alex Lipszyc, diretor geral de ensino da Panamericana Escola de Arte e Design.

O entrave para a disseminação destes espaços , no entanto, é a sensação de insegurança na cidade. “Antigamente, as construtoras tinham mais resistência e o projeto virava uma briga, porque sempre acreditamos no valor desta ideia. Hoje, elas já entendem a possibilidade de agregar valor e ter segurança”, lembra Roberto. “Acreditamos que a circulação de pessoas afasta a violência. Por isso, investimos na implementação de galerias de serviços nos empreendimentos comerciais”, diz Felipe. Prova disso é o conjunto Parque da Cidade, a ser inaugurado até o fim do ano ao lado do Rochaverá, na avenida das Nações Unidas. Com 62 mil m² de espaço aberto e 22 mil m² de área verde, ele contará com shopping e restaurantes junto aos escritórios.

Onde tudo começou

A direção do escritório é atualmente dividida entre a segunda geração dos Aflalo, Felipe (esq) e Roberto (dir), e Gian Gasperini, um dos fundadores
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A direção do escritório é atualmente dividida entre a segunda geração dos Aflalo, Felipe (esq) e Roberto (dir), e Gian Gasperini, um dos fundadores

A história de sucesso do escritório paulistano teve origem em 1962 quando Plinio Croce, Roberto Aflalo e Gian Gasperini resolveram trabalhar juntos após ganharem o concurso argentino da Peugeot. Foram responsáveis por obras como os edifícios comerciais Água Branca, a passarela do Viaduto do Chá e o ícone pós-moderno do Citicorp Center (na avenida Paulista). Após a morte de Croce (1984) e Roberto (1992), a segunda geração dos Aflalo entrou em cena. “Eu só percebi a importância do trabalho deles aos dez anos, quando o pai de um amigo elogiou o prêmio de meu pai”, diz Roberto Filho. “Em minha carreira não tinha certeza sobre ser arquiteto, acho que fui excluindo possibilidades. Sou muito racional”, afirma.

Roberto formou-se pela FAU-SP em 1976 e se tornou mestre em desenho urbano pela Universidade de Harvard, em Cambridge, Estados Unidos. Trabalhou com Rino Levi, manteve projetos paralelos e esteve no negócio do pai desde o segundo ano de faculdade. Ao contrário do primo, Felipe sempre quis cursar arquitetura . “Meu tio era uma referência forte. Ele gostava de nos presentear com blocos, crayons e outros materiais de desenho”, diz. “Tive certeza da profissão quando visitei o Sesc Pompeia e fiquei emocionado com a estrutura de concreto e a beleza do pré-moldado”, afirma.

Felipe formou-se em 1978 na Universidade Brás Cubas e participou desde o primeiro ano do negócio da família. A jovem dupla ainda tocou projetos próprios em parceria e vislumbravam formas de abrir um escritório, pois não se percebiam totalmente na empresa. O momento decisivo em suas carreiras aconteceu durante uma reunião de domingo. “Após o almoço familiar, tivemos uma conversa com Aflalo e Gasperini. Queríamos entrar na sociedade, eles aceitaram e passamos a ter uma posição mais definida”, afirma Felipe. Após cinquenta anos, o escritório já contabiliza mais de 1.300 projetos, entre corporativo, residencial, hoteleiro, comercial, viário e públicos (escolas, parques e bibliotecas).

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