Arquitetos e representantes de movimentos coletivos discutem a importância dos espaços públicos e de sua ocupação

Quem pensa na cidade de São Paulo logo imagina uma metrópole agitada, com muitos prédios, restaurantes e shoppings. Áreas verdes são raras nesta paisagem e, quando presentes, surgem enclausuradas em parques. A falta de espaços públicos que incentivem o convívio ao ar livre é uma realidade na capital paulista, mas a perspectiva está mudando. “Os jovens estão cada vez mais presentes nas ruas. Hoje, temos grandes movimentos coletivos que contribuem para fortalecer a integração. Quando as pessoas ocupam os espaços, conseguem transformá-los e acabam se tornando protagonistas”, diz Guilherme Wisnik, arquiteto.

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A festa alternativa Voodohop, realizada na rua, é uma maneira de os paulistanos conhecerem melhor a cidade
Flickr/ rafael.spinola
A festa alternativa Voodohop, realizada na rua, é uma maneira de os paulistanos conhecerem melhor a cidade

A necessidade de conseguir um lugar para juntar amigos e a vontade de aproveitar melhor a cidade foram importantes no surgimento da Voodoohop. A festa alternativa que começou há três anos teve início com a reunião de amigos em um bar da Rua Augusta. O movimento aumentou e a festa saiu do bar e foi para o asfalto. Hoje, o evento acontece em diversos lugares de São Paulo – a maioria a céu aberto – e reúne centenas de pessoas. “Procuramos escolher locais inusitados e pouco conhecidos. A população precisa descobrir o potencial do município e usar os espaços para a cultura”, afirma Thomas Haferlach, fundador da Voodoohop.

Outras manifestações espontâneas – como os coletivos Existe Amor em SP, Fora do Eixo e Experimenta SP - também marcam presença, o que reafirma a característica mutante da cidade. “Aqui temos vários grupos sociais e relações de indiferença. Apesar disso, os movimentos coletivos conseguem iniciar a engrenagem da mudança”, diz Euler Sandeville, professor de arquitetura e urbanismo da Universidade de São Paulo. “A saída para resolver a falta de espaços públicos é integrar o povo na resolução dos problemas de maneira estruturada e permanente.”

E as conversas já se transformam em realidade. Desde abril a prefeitura organiza reuniões com a participação popular. As discussões buscam reavaliar o atual e único plano diretor estratégico da cidade – aprovado ainda na administração de Marta Suplicy, em 2002. Uma das principais questões envolvidas é o plano de bairro. A ideia do projeto é aproximar moradores e empregos, criando novos “centros” e melhorando o transporte coletivo. “A escala local precisa ser valorizada, pois, sem mobilidade urbana, o município não será aproveitado como um todo”, afirma Sandeville.

A necessidade de ocupar mais os espaços públicos e criar novas áreas livres é também lembrada por Jorge Wilheim, arquiteto e ex-secretário de planejamento de Marta. “As manifestações culturais precisam chegar às periferias e não ficarem restritas apenas ao centro. Além disso, locais como os Centro Educacionais Unificados – CEUs - devem ser mais bem explorados, pois têm uma boa estrutura”, diz. A presença de pessoas nas ruas e praças valoriza os ambientes e chama a atenção para os problemas existentes. “O melhor incentivo que a prefeitura pode dar a estas manifestações espontâneas é oferecer estrutura à cidade. Instalar banheiros químicos durante os eventos, por exemplo, é importante. Mas quem anda à pé precisa de boas calçadas e um metrô repleto de conexões e pontos de embarque”, afirma Wilheim.

A sociedade transforma

Além de raros, os espaços públicos de São Paulo apresentam uma característica que dificulta a relação de convívio : o caráter de passagem. “Praças como a da República e Roosevelt têm poucos bancos e gramados protegidos. Isso não traz acolhimento e a população simplesmente passa”, afirma Edson Silva, organizador do movimento coletivo Experimenta SP. A falta de identificação com o local gera, muitas vezes, o abandono. “A cidade fica mais segura ao ser ocupada e a prefeitura investe quando a região mostra significado, desse modo, é importante aproveitar os espaços”, diz.

O Experimenta SP foi criado em 2012 para incentivar a ocupação das áreas abandonadas na capital paulista. A primeira manifestação do coletivo – que contou com diversas atividades culturais - aconteceu na Praça do Pôr-do-Sol, em Pinheiros, e reuniu cerca de 10 mil pessoas. O poder de transformação pode ainda ser observado em regiões como a Vila Madalena. “O Beco do Coruja (na Praça das Corujas) estava abandonado e, após ser modificado com grafites e canteiros, virou ponto de encontro”, afirma Silva. E o arquiteto Roberto Loeb completa: “os espaços públicos devem ser encarados como um verdadeiro edifício comunitário. A população deve se envolver e administrar em conjunto com a prefeitura”.


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