Tendência de verticalização apresenta problemas urbanos como falta de vagas na rua e lixo que cai das sacadas dos apartamentos

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O que antes era um quintal ensolarado, agora passa a maior parte do dia na sombra e ainda é alvo de objetos e lixo que caem de sacadas de apartamentos. Esta é a realidade vivida por muitos moradores de casas em bairros de São Paulo, que, com a tendência de verticalização da cidade, estão cada vez mais cercados de prédios por todos os lados.

Entre 2001 e 2010 foram lançados 3.420 edifícios residenciais na capital paulista - em 2010 foram 268, 32 deles na zona oeste, onde ficam bairros como Pinheiros, Itaim Bibi e Jardim Paulista. Para os vizinhos que moram em casas, a saída é assimilar o impacto e aprender a viver com o espigão ao lado.

Ronald Kenneth Scott, empresário do setor de leilões e morador do bairro do Brooklyn Novo, que fica na área da subprefeitura de Pinheiros, recorda que há até cerca de dez anos havia um terreno "muito bonito, com árvores e tudo o mais", bem ao lado do sobrado onde mora desde 1985.

Há 26 anos morando na mesma rua, Sandra viu de perto a invasão dos prédios na capital paulista
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Há 26 anos morando na mesma rua, Sandra viu de perto a invasão dos prédios na capital paulista

No local hoje fica um dos vários prédios em volta de sua casa, que trouxeram um problema crônico de umidade em uma de suas paredes e restringiram, não só a visita diária da luz do sol à residência, como também as vagas para estacionar na rua. "Faz muito tempo que não paro na rua. Quando vem alguma filha nossa aqui, temos que apertar nosso carro para poder entrar. Sou multado em frente de casa (se parar na rua)."

Sandra Carneiro Correia se mudou há 26 anos para a mesma rua. "Nós só tínhamos casas na região. Aí começaram os prédios e eles vieram em uma velocidade muito grande", afirma.

Plano Diretor

Para o professor Carlos Augusto Mattei Faggin, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, o Plano Diretor de São Paulo, que regula a disponibilidade de áreas para verticalização, "é muito gentil com a especulação imobiliária".

"A grosso modo, (entre) 60% e 65% da área da cidade de São Paulo está disponível para este fim, são as ZMs, que são Zonas Mistas, onde você pode ter empreendimentos comerciais, residenciais, todos eles muito favorecidos pela verticalização".

O professor afirma que, graças a este fato, "a resistência a esta tendência não tem amparo legal". "Há planejamento, mas ele é favorável à especulação imobiliária, no sentido de que há um entendimento – que eu acho que já está muito ultrapassado – de que a indústria da construção civil é uma das motrizes da economia nacional", disse.

Contatada pela BBC Brasil, a Prefeitura de São Paulo destacou que o Plano Diretor da cidade deve ser submetido a uma revisão neste ano.

Louças fora do armário

A auxiliar de enfermagem aposentada Maria Aparecida Rosa Porta acabou indo à Justiça por causa da construção de um prédio, há cerca de dois anos, no terreno vizinho à casa em que ela mora desde 1977 e que está na família de seu marido há cerca de 70 anos. "A minha casa, por dentro, está toda abalada, com rachaduras", afirma. "Estamos na Justiça (para conseguir um ressarcimento dos prejuízos)."

"Quando eles usavam aquele bate-estacas (durante a construção), aquele barulho, aquele impacto vinha todo (para a casa). Até minhas louças, tudo, vinha para fora do armário."

A casa faz parte de uma herança e, caso seja vendida, o dinheiro precisará ser dividido entre os herdeiros. Maria Aparecida conta que já recebeu ofertas, mas o valor oferecido sempre foi muito baixo.

Região central

Outras regiões que tiveram grande número de lançamentos residenciais verticais foram a da subprefeitura da Vila Mariana, com 25 lançamentos em 2010 e um total sempre acima de 30 entre 1993 e 2008.

Moradores paulistanos sofrem com a nova tendência de verticalização
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Moradores paulistanos sofrem com a nova tendência de verticalização

As subprefeituras do Campo Limpo e Lapa também tiveram, cada uma, 22 lançamentos apenas em 2010. No caso da Lapa, nos últimos anos o número de lançamentos sempre ficou acima de 20 por ano.

A tendência de verticalização nessas áreas mais centrais se explica pela demanda. As pessoas querem morar nelas "porque eles têm uma infraestrutura muito boa de transporte, de comunicações, água e esgoto, energia elétrica", diz o professor Carlos Augusto Faggin.

"Ninguém quer construir no extremo da zona leste ou no extremo da zona sul. Lá, a infraestrutura é muito pequena e a possibilidade de venda é menor ainda, porque o poder aquisitivo destas populações ainda é baixo, apesar do esforço de transferir renda", afirma.

Patrimônio

Na região da subprefeitura da Sé, onde estão bairros como Bela Vista, Consolação e Liberdade, entre outros, apenas em 2010 foram 18 lançamentos residenciais verticais. O engenheiro aposentado João Mariano do Nascimento mora na região da Consolação há 65 anos e testemunhou essa tendência.

De um lado de sua casa, onde mora desde a década de 90, existe um prédio residencial, do outro, um shopping, atrás, mais três torres residenciais em um condomínio construído nos últimos cinco anos e mais um prédio comercial. Ele já recebeu várias ofertas para vender sua casa, mas nenhuma satisfatória. Por isso, pretende continuar onde está, apesar de estar cada vez mais cercado. "Nós estamos muito bem aqui. Imagine você que tenho uma frente de dez metros, posso colocar três carros aqui, deixar uma passagem... O que seria disso em um apartamento?", questiona.

'Nem vítima, nem herói'

O rápido avanço vertical em nome da demanda por apartamentos expõe também a vulnerabilidade dos imóveis que fazem - ou poderiam fazer - parte da própria história da cidade. Para alguns, o mecanismo do tombamento é insuficiente para proteger construções que fazem parte da memória da cidade.

O ator Paulo Goya, que herdou um casarão construído em 1927 e tombado como patrimônio histórico em 2002, no bairro da Bela Vista, avalia que um plano de uso e ocupação do solo da cidade facilitaria na conservação não apenas dos imóveis isoladamente, mas também dos arredores.

Na década de 70, um prédio de 12 andares foi construído nos fundos do casarão. Mais recentemente, logo ao lado, foi aberto um estacionamento de uma empresa de TV a cabo. Ao lado do estacionamento, já estão sendo vendidos os apartamentos de um outro prédio, de 20 andares, cuja construção deve começar em breve.

Sem atividades culturais agendadas para o casarão em 2013 devido à falta de dinheiro, o ator afirma que é preciso "repensar a cidade". "No meu caso específico, não sou nem vítima nem herói de nada. Atualmente só me sinto profundamente humilhado. Uma trabalheira para conseguir manter tudo isso e não consegui fazer nada. É muito chato."

O professor Faggin, que também é conselheiro do Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico (Condephaat), diz que as ações de tombamento "acabam sendo muito pontuais".

Para o professor, 2013 pode ser um ano de mudança não apenas para a questão do patrimônio, mas também para o problema da verticalização, já que o Plano Diretor da cidade está para ser revisto.

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