Pesquisa aponta que 28% das crianças brasileiras já foram vítimas de ameaças, xingamentos e humilhações e, mais da metade delas, dentro da sala de aula

_CSEMBEDTYPE_=inclusion&_PAGENAME_=ModeloiG%2FMiGComponente_C%2FConteudoRelacionadoFoto&_cid_=1237491693329&_c_=MiGComponente_C

A Ana*, 11 anos, nunca comentou em casa que ela era chamada de gorda e feia pelas colegas. Só desconfiamos que algo não ia bem por causa das notas ruins, da constante irritabilidade e das frequentes desculpas de dor de cabeça para não ir à escola, conta Marco Antônio*, pai da menina.

De acordo com pesquisa feita pela Abrapia (Associação Brasileira Multiprofissional de Proteção à Infância e à Adolescência) com 5.428 alunos de 5ª à 8ª série, com idade média de 13 anos, 28% das crianças brasileiras já sofreram ameaças, xingamentos e humilhações.

Segundo o pediatra Lauro Monteiro, fundador da Associação, Ana é mais uma vítima de bullying, termo inglês que pode ser traduzido como atormentar, perseguir, humilhar. A prática se caracteriza por uma violência física ou mental continuada, normalmente praticada em escolas por um grupo de alunos contra um ou mais colegas, resume.

Perfil do agressor e da vítima

De acordo com o pediatra Aramis Antonio Lopes Neto, autor do livro Diga Não ao Bullying, editado pela Abrapia, tanto meninos quanto meninas praticam e são alvos do bullying. Geralmente, eles partem para a violência física e ameaças enquanto elas se encarregam da difamação, informa.

Entre os principais agressores estão jovens de 6 a 14 anos, autoconfiantes, populares, agressivos com os pais e os professores, impulsivos e que sentem prazer em dominar e ver o outro sofrer. Geralmente provocam com ofensas, apelidos maldosos, chutes, empurrões, quebra ou roubo de pertences.

Devido às agressões, as vítimas passam a demonstrar insegurança e problemas emocionais e psicológicos, como depressão, baixa autoestima, medo de ir à escola e bulimia. Outros sinais que os pais devem observar é a queda no rendimento escolar, alteração no sono, irritabilidade, vômito sem causa aparente e a invenção de dores para faltar ao colégio. Alguns adolescentes chegam a ter intenções suicidas.

Como agir nessa hora

Observar mudanças nas atitudes da criança e valorizar seus sentimentos são os primeiros passos para identificar se ela está envolvida com bullying. No caso de vítima, os pais devem mostrar que o filho não é culpado pelas perseguições e deixar claro que se orgulham dele. É importante também incentivá-lo a contar sobre o que acontece na escola e ter disposição para conhecer as pessoas com quem ele se relaciona, aconselha o pediatra Aramis Antonio Lopes Neto.

Com os agressores a reação deve ser parecida. Só criticar não resolve o problema. É preciso conversar, se interessar e saber ouvir. Deixe claro que o comportamento violento é inaceitável na família e que pode contar com os pais para mudar essa conduta, conclui o médico.

Em ambos os casos, os pais devem convidar os colegas para frequentar a casa e aproveitar o momento para analisar os comportamentos e ajudar na interação das crianças. Foi em um desses encontros que Cássia* percebeu que o filho estava praticando bullying. Notei que ele excluía o amigo que não sabia jogar futebol. Depois, a mãe do menino confirmou que o recreio era motivo de sofrimento para ele, que torcia para que chovesse e a quadra ficasse vazia. Conversei com meu filho, pedindo que ele se colocasse no lugar do amiguinho. Ele entendeu e agora não deixa mais o garoto de fora na hora do jogo.

Outro ponto essencial para os pais é incentivar a prática de atividades extracurriculares, como teatro, dança, pintura, música ou algum esporte, para que o jovem forme novos grupos e aprenda a lidar com situações diferentes.

O papel da escola

Não existe escola sem bullying. A instituição que diz isso desconhece o assunto ou se nega a enfrentá-lo, afirma o pediatra Lauro Monteiro. A orientadora educacional Sônia Gomes Teixeira, do Centro Educacional Miraflores, do Rio de Janeiro, diz que os funcionários devem ser treinados para identificar o bullying e intervir imediatamente, com o auxilio da pedagoga. É preciso fazer constantemente campanhas de conscientização e palestras alertando sobre o problema, além de trabalhos que promovam a solidariedade, a tolerância e o respeito às diferenças sociais, conclui.

* Os nomes foram alterados a pedido dos entrevistados.

Leia mais sobre: bullying

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.