Abandonados por seus donos, os primatas mantidos pelo Projeto Mucky vivem das doações de padrinhos e madrinhas, que garantem o bem-estar dos animais

Mucky era um sagüi-do-tufo-preto que vivia no ombro de um morador de rua. Desnutrido, com o rabo pelado, o macaquinho ficava amarrado ao seu dono por uma corda presa pela cintura, tão apertada que, conforme ele foi crescendo, a corda se entranhou na sua carne. Lívia Botar ficou incomodada com a cena e conseguiu que o morador de rua lhe desse o sagüi. Depois de muitas cirurgias veterinárias e cuidados especiais, Mucky foi se recuperando.


Mucky foi o primeiro, há 25 anos. Na sequência, começaram a chegar às mãos de Lívia outros primatas abandonados, muitos provenientes do tráfico de animais. Por 11 anos, Lívia foi recebendo os macaquinhos em São Paulo, depois em Jundiaí, quando sua vida já tinha se voltado totalmente para o ambientalismo e para a recuperação de primatas. Até que ela recebeu a doação de um sítio em Itu, onde fica a sede atual do projeto.

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Foi assim que ela se tornou fundadora e coordenadora do Projeto Mucky , que recupera e cuida de primatas abandonados. Hoje são cerca de 250 primatas, entre sagüis, bugios e sauás, que vivem em gaiolões e provavelmente teriam sido sacrificados se não tivessem chegado ali.

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“Uma vez que um primata é tirado da natureza, ele nunca mais se reintegra plenamente”, explica Lívia. “Por isso é muito difícil encontrar pessoas que se dediquem a abrigá-los quando os donos ‘cansam’ deles como bichinhos de estimação.”

Geralmente, os animais chegam deprimidos também: a vida deles fora da natureza é cheia de traumas. “Para começar, existe um sofrimento psicológico: quando o macaco é retirado de perto da mãe ainda bebê, não aprende a se relacionar com outros da sua espécie. Além do isolamento, ele nem sempre recebe atenção da família”, explica a ambientalista.

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Como os macacos vivem em grupo as chances de rejeição quando se tenta inseri-los de volta na natureza são muito grandes.

Primatas doentes
Os primatas chegam ao Mucky com problemas graves de saúde, como desnutrição. Macacos têm uma alimentação específica, quase impossível de reproduzir em casa ou de comprar pronta, e que inclui até a goma de árvores, dependendo do tipo do animal.

Além disso, os animais podem pegar doenças dos humanos, como herpes ou gripe com muita facilidade.

A falta de sol somada a uma alimentação pobre deixa os ossos frágeis e qualquer acidente é capaz de quebrá-los. “Imagine uma mesa de tampo liso. O macaco pula sobre ela, desliza, cai no chão e parte os ossos. Às vezes o dono nem percebe e eles cicatrizam errado, dificultando os movimentos ou paralisando o animal”, explica Lívia, que já cuidou de incontáveis animais que chegaram sem nem conseguir se mexer. Alem de cirurgias delicadas, muitos precisam de fisioterapia para retomar os movimentos.

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Embora a legislação brasileira permita a criação doméstica de algumas espécies, comprar um primata é sempre uma decisão delicada. Além dos traumas de adaptação que sofrem, são animais que irão demandar cuidados por muitos anos. Um sagüi vive de10 a12 anos, um sauá entre 17 e 20 anos, e um bugio pode chegar até 25 anos, em média. Os animais permitidos por lei nascem em cativeiros, têm venda controlada pelo IBAMA, e devem carregar microchips de identificação, cujo número consta da nota fiscal emitida pela loja.

Apesar da regulamentação, o tráfico ainda é uma realidade que mata cerca de 90% dos animais capturados da natureza, segundo dados do Projeto Mucky. Castanha, uma fêmea de bugio, foi vítima de um caçador, que atirou em sua mãe. O tiro estraçalhou o braço da filhote, que foi encontrada cheia de formigas. Recuperada, hoje está socializada com outros animais do projeto. Há animais que receberam até próteses.

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Os cuidados com os macaquinhos do Projeto Mucky são bancados exclusivamente por doações. “Não estamos recebendo mais nenhum animal, porque estamos no nosso limite financeiro e físico e buscando mais padrinhos”, conta Lívia.

Para apadrinhar um primata do projeto, é possível fazer doações. Padrinhos podem marcar uma visita e conhecer o refúgio, em geral fechado para visitas. “Mas o padrinho recebe notícias, além de fotos exclusivas do seu ‘afilhado’”, conta Lívia. “Pagar um mico” dessa maneira não é vergonha nenhuma.

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