Vidrinhos de produtos que não são mais fabricados chegam a custar mais de R$ 500 em leilões para loucas por esmaltes

Esmalte é uma paixão para muitas mulheres. Mas para algumas, essa paixão pode parecer desconcertante ou insana, ao observar de fora.

Os objetos de seu desejo ‒ que buscam no site de leilões eBay ou em terras distantes, e sobre os quais fazem verdadeiros tratados em seus blogs ‒ são vidros de esmaltes antigos. Mais especificamente, cores que já estão fora do mercado e não podem mais ser compradas, mas sim garimpadas, esquecidas na caixinha de alguma manicure de um salão obscuro ou lojinha de bairro, à espera de que uma sortuda a acrescente à coleção e anuncie a façanha no Instagram para os outros membros dessa estranha subcultura.

Festa em Nova York reúne apaixonadas por esmaltes antigos, que já sairam de linha
Elizabeth D Hermann / The New York Times
Festa em Nova York reúne apaixonadas por esmaltes antigos, que já sairam de linha


Um item raríssimo para as entendidas é o Starry Starry Night, da Essie, geralmente abreviado SSN. O pigmento marinho, polvilhado de glitter prateado, é idolatrado pelo fato de que, com apenas algumas camadas, é possível obter uma profundidade impressionante.

Para quem não tem condições de adquirir um vidro do dito cujo (um leilão realizado no eBay em fevereiro terminou com um frasco sendo vendido por US$250 – ou aproximadamente R$ 550), pingentes, brincos e outras peças pequenas de bijuteria pintadas com a cor estão disponíveis on-line.

Outra raridade: o Clarins 230, cor que saiu de catálogo em 2008 e vira e mexe é vendida por mais de US$150 (aproximadamente R$ 330) no eBay. Essa cor, aliás, é tão difícil de ser encontrada que é conhecida como "xixi de unicórnio". Brilhante e profunda, a cor que é descrita como "o arco-íris em um vidro" oferece tons que variam do vinho ao verde, do dourado ao laranja.

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Embora as duas cores sejam muito difíceis de achar, há inúmeros "quebra-galhos", isto é, cores de outras marcas que são praticamente idênticas a elas. A mistura de duas cores para a obtenção de uma terceira, muito desejada, é conhecida como "fazer o Frankenstein".

"Depois que você começa a 'caçar' esmaltes, percebe que as cores voltam periodicamente", garante Scrangie Marcanio, de 28 anos, blogueira de Chicago. "Ou alguém acaba lançando um tom idêntico". E conta que ainda tem o primeiro esmalte verde que usou, um vidro da Wet & Wild comprado em uma farmácia há mais de 10 anos.

Admirada por suas análises minuciosas e fotos de alta resolução, Scrangie, que se confessa obcecada por esmaltes, fotografa e escreve sobre o produto desde 2004 ‒ e se refere ao blog como "o arquivo das unhas". Em cada post ela dá detalhes sobre a fórmula, composição do glitter, a facilidade de aplicação, o pincel, o vidro, o cheiro, o tempo de secagem e quantas camadas são necessárias para dar um acabamento brilhante e duradouro. É conhecida por testar novidades até 50 vezes por dia ‒ e quando a cor exige, tenta fotografar as mãos até no escuro e/ou depois de mergulhá-las em uma tigela cheia de água.

Ela, que geralmente encontra os esmaltes em mercados de pulga e vendas de garagem (atividade chamada "caçada empoeirada"), jura que nunca contou os vidros de sua coleção, mas calcula que esteja entre três e quatro mil.

Bem mais modesta é a de aproximadamente 650 vidros de Amy, a blogueira de 28 anos responsável pelo Gotham Polish. Como Scrangie, ela guarda suas preciosidades em um armário cujas gavetas têm a altura perfeita para a organização de pequenos frascos. Além disso, mantém um registro das cores que possui em uma planilha.

Gillian Haratani, costureira da Ópera de São Francisco, arruma suas cores em um espectro tipo caleidoscópio ao redor de uma mesa hexagonal, com os tons mais fortes na parte externa. Ela gosta de pintar as unhas assistindo a partidas esportivas - "Beisebol é o melhor; você consegue acompanhar sem ter que ficar olhando toda hora" -, e coloriu as unhas do pé em um tom cinza escuro, quase granito, para combinar com o piso do trem que ela pega para chegar ao trabalho.

Há quem ache que esse passatempo é solitário e deprimente, mas não é. Rosalie Knox, artista de 30 e poucos anos que integra uma banda glam-punk, compra esmalte nos saldões das lojas de cosméticos, lojas de perucas e de 1,99: "lugares onde ninguém compra nada há 20 anos", ela garante. E organiza uma festa tradicional no Pyramid Club, em Nova York, onde acende luzes negras e oferece serviços de manicure com luzes fluorescentes.

Em uma noite de sábado recente, sentada na semiescuridão vendo os baladeiros desfilarem em roupas de couro, Rosalie explicou o fascínio que tem pelos esmaltes. "É uma coisa fácil de colecionar. O frasco é pequeno. É uma coleção que dá para manter pelo tempo que se quiser, não necessariamente o resto da vida. É acessível".

Daniele Frazier, artista do Brooklyn, bairro de Nova York, acrescenta: "É uma sensação de 'caça ao tesouro', uma coisa tipo parece que você ganhou na loteria".

As duas moças enviam fotos das unhas pintadas uma para a outra várias vezes por semana. "Ah, sim, é uma coisa pessoal. Você está cuidando delas, deixando ali uma marca que é difícil tirar", explica Rosalie. E enfatiza que o objetivo não é ficar bonita: "Não tem nada a ver com essa coisa de se enfeitar, eu gosto mesmo é das cores. Não tem graça comprar aquele rosa basicão".

Deborah Lippmann, que criou sua própria marca de esmaltes e personaliza cores para celebridades que incluem Sarah Jessica Parker, Lady Gaga e Renée Zellweger, se sente lisonjeada pelas críticas favoráveis das blogueiras.

"Antes a mulherada achava que esmalte era só esmalte, e sou muito agradecida a elas por terem mudado de ideia. São a minha motivação para procurar meu químico e discutir novas possibilidades, me inspiraram a aperfeiçoar meu produto. São elas que não me permitem descansar porque estou sempre animada, querendo saber de cores novas".

Deborah confessa que há anos tenta obter o acabamento exato do relógio rosa-dourado da Cartier, mas afirma que a tecnologia para isso "não existe". Detalhe que não incomoda Scrangie, que prefere que alguém a ajude a encontrar o seu objeto máximo de desejo: um arco-íris negro: "Ainda não vi uma cor igual à de uma poça de óleo", reclama ela.

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