O entusiasmo por cores berrantes, efeitos tridimensionais e padrões estranhos estimula novas criações

Unhas color blocking mistura esmaltes em tons contrastantes
NYT
Unhas color blocking mistura esmaltes em tons contrastantes
Quando tinha uns dez ou doze anos, Lizzie Jagger gostava de pintar paisagens inglesas num jogo de unhas postiças que levava para todo lugar. Suas concepções eram extravagantes, quando não atípicas.

"Eu curtia muito Turner", relembra ela, que morava em Londres na época, com o pai, Mick, e a mãe, Jerry Hall. "'Crossing the Brook' era a minha pintura favorita", ela diz. "Eu usava as cerdas da minha escova de cabelo para conseguir fazer os detalhes com precisão."

Com o tempo, a garota acabou desistindo do passatempo, em parte porque "não via futuro na atividade", brinca ela.

Ah, Lizzie, se você tivesse uma bola de cristal! Hoje em dia se veria cercada por um verdadeiro batalhão de desenvolvedores de produtos dispostos a saber como transformar o esmalte – aquele cosmético tão tradicional – num item essencial e capaz de transformar as unhas em telas em miniatura para os experimentos de moda mais arrojados.

Nos últimos meses, os fabricantes vêm investindo em novidades da qual nem se ouvia falar há dez anos: inovações que vão desde glitter e craquelado até adesivos e aromas em todas as cores conhecidas pelo ser humano, por mais abomináveis que pareçam.

Laranja enlameado, verde tóxico e lilás estridente, cores raríssimas no mercado há questão de poucos meses, hoje lotam as prateleiras de farmácias e lojas de departamentos e são adquiridas por consumidoras à procura de sua Nicki Minaj interior.

O entusiasmo da mulherada por cores berrantes, efeitos tridimensionais e padrões estranhos (leia-se couro de cobra, teia de aranha, pele de onça e daí por diante) elevou o setor de esmaltes ao segmento que mais cresce na indústria da beleza, superando até o imbatível batom. "Tem para unha de todo jeito, forma e tamanho", diz Karen Grant, analista do Grupo NPD, que acompanha as tendências cosméticas. "E se tornou um acessório."

Sem mencionar que elevou as vendas a níveis estratosféricos. Cores diferenciadas, material duradouro e efeitos especiais contribuíram para um aumento de 67% nas vendas das marcas das lojas de departamentos em 2011 sobre o ano anterior, num pulo de 29% em relação aos outros cosméticos – para chegar a um valor total de US$ 710 milhões.

O surgimento de cores audaciosas e, por vezes, espalhafatosas, coincidiu com o colapso econômico e a consumidora passou a ver os esmaltes – com preços variando entre US$ 10 e US$ 30 – como uma forma até econômica de melhorar o visual e as perspectivas. Tudo é uma questão de costume e o que há cinco anos seria considerado vulgar e de mau gosto, hoje é popular.

Parece que quanto mais radicais as unhas, mais desejáveis elas se tornam – tanto que adquiriram uma popularidade só vista em alguns perfumes. Tão descolados são os esmaltes da Essie e Sally Hansen – ou mais exclusivos como os da Nars – que astros pop como Katy Perry, Justin Bieber e Avril Lavigne e os estilistas Thakoon Panichgul e Prabal Gurung associaram seu nomes e suas imagens a alguma marca, sejam as mais exclusivas ou aquelas encontradas em farmácias.

"Nós costumávamos usar o índice batom", explica Renato Semerari, presidente da Coty Beauty, empresa que detém as marcas OPI e Sally Hansen, referindo-se à teoria que reza que as vendas do produto são inversamente proporcionais à saúde econômica, "mas agora já adotamos o índice esmalte". Ele também atribui as boas vendas basicamente à variedade e à oferta.

De fato, há mais ofertas de cores que num pacote de M&M – se bem que muitas ficariam melhores nas paredes do banheiro. Esse apelo quase artesanal é um bônus para os marqueteiros que, segundo a Kline & Company, empresa de pesquisa de consumo, estão correndo para oferecer uma variedade tão grande de cores e brilhos quanto a dos salões mais sofisticados. Alguns tons fazem tanto sucesso que chegam a ser cultuados (entre eles o Particulière, um marrom acinzentado da Chanel que, em 2010, chegou a render listas de espera e guerras de preços no eBay) ou simplesmente copiados de todas as maneiras possíveis.

Há vários anos, a StrangeBeautiful, marca de nicho para as sensibilidades mais cerebrais, lançou cores inspiradas nos trabalhos de Josef Albers e Andy Warhol – e uma que imitava o "vermelho menstruação", como confessou sua criadora, Jane Schub. Em embalagens unitárias ou "volumes" de acrílico com dez, a marca gerou uma enxurrada de imitações de marcas como American Apparel. Para a primavera, Jane quer lançar The Inept Laundress (lavadeira incompetente), uma coleção de – acredite se quiser – dez tons diferentes de "branco sujo".

Para o verão, a Chanel pretende lançar o laranja enegrecido que Peter Philips, diretor de criação do setor de maquiagem da Chanel, apostou que atrairia as consumidoras que adotaram as estampas malucas da estação, embora ache que seu apelo não fique confinado às vanguardistas. Ao contrário das tatuagens e das sandálias gladiadoras, o esmalte não exige muito investimento, muito menos envolvimento emocional.

"Houve uma época em que a mulher tinha um visual e se matinha fiel a ele", explica Peter. Cores como amarelo e cinza metálico representavam um risco, mas hoje, quando a identidade fashion se tornou tão flexível e descartável como o papel de parede do computador, a mulher pode se transformar em Dita Von Teese e, na mesma semana, desfilar como Lauren Hutton. "Esmalte é como maquiagem", ele acrescenta. "Se não ficar bom, é só tirar."

Mesmo as mulheres mais avessas a riscos, aquelas que nem sonham em pintar o cabelo de rosa ou usar uma saia lápis até o chão, podem ficar tentadas a fazer experimentos nas unhas. "Quanto mais você se distancia do rosto, mais disposta está a experimentar algo arrojado", afirma Linda Wells, editora da revista Allure. "Gente que torce o nariz para uma sombra roxa pode pintar as unhas das mãos de verde."
Ou desistir das cores puras para tentar a sorte na arte das unhas, principalmente com uma variedade infinita oferecida por marcas como a Nailene, com seus adesivos de estrelas e luas, e a Sally Hansen Salon Effects, com desenhos que vão de borboletas, losangos e arrastão a listas de zebra e manchas de gato.

"Apostamos no sucesso das cores simples", disse Renato, referindo-se ao lançamento da Salon Effects de adesivos com desenhos, "mas um dos nossos maiores sucessos é a pele de onça".

Como as marcas de esmaltes, as lojas também já oferecem produtos para um número cada vez maior de consumidoras exigentes e irreverentes. Recentemente, a Sephora criou os Nail Studios, stands que oferecem itens da Dior, Nails Inc. e até os perfumados de Betsey Johnson. A Ulta, uma loja de cosméticos do Meio Oeste, oferece aplicações de gel a US$ 25 em suas mais de 400 filiais e 650 cores e, este ano, ampliou seu espaço de vendas em 18 por cento.

Quem gosta de novidades deve procurar marcas como a Layla, que oferece imagens holográficas, e a Deborah Lippmann, que vende esmaltes com partículas de ferro – o que permite que a imagem do ímã aplicado sobre a unha apareça ali feito passe de mágica.

Até as mulheres mais discretas estão frequentando os salões especializados para pedir apliques ou efeitos em 3D. Tie-dye e marmorizado são os mais populares na Marie Nails do SoHo, assim como a imagem de Marilyn Monroe, cuidadosamente feita à mão.

Jenny Matayoshi, que trabalha no salão, lembra uma cliente que chegou com a foto do namorado e pediu para que ela fosse copiada na unha do dedão.

Até poucos meses atrás, Julie Solomon, cliente do TenOverTen, preferia o misturinha para complementar de maneira discreta seu guarda-roupa basicamente preto; como medo de tentar algo novo, ela finalmente se deixou levar e permitiu que a manicure enchesse suas unhas de glitter.

"Fiz para arriscar mesmo", confessa ela, "mas recebi muito elogio, principalmente de mulheres que queriam saber onde eu tinha feito. Acho que elas também deveriam tentar".

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