Antigo sinal de rebeldia, os piercings voltam à moda em versões discretas, elegantes e às vezes até secretas. Veja quem aderiu

NYT

Há alguns anos, Sarah Slutsky encontrou uma foto online de uma delicada argola de ouro enfiada até a metade da cartilagem da orelha. "Fiquei olhando aquilo. Na época, eu era assistente da revista Vogue e, depois de um dia estressante, decidi colocar". Ela foi com uma amiga fazer o piercing. "Isso foi em 2011", disse Sarah, que agora é estilista de moda. "Sinto que fomos pioneiras".

Foi uma decisão surpreendente para ela. Na década de 1990, quando Sarah era criança, os piercings "eram uma declaração: 'Ouçam o que tenho algo a dizer'. Agora, ter vários piercings dá um toque de modernidade. Tudo se resume a momentos pessoais e pequenas joias secretas – tão pequenas que as pessoas talvez nem notem".


Há algum tempo, ter um piercing era uma coisa escancarada, mas a nova onda é discreta. Piercings delicados em áreas antes reservados aos corajosos – atravessando a parte superior da orelha ou o septo nasal – decolaram com o pessoal da moda. Joias elaboradas que sobem pela orelha apareceram na passarela de desfiles da Givenchy e da Chanel. A modelo Daria Werbowy tem argolas de ouro muito sutis na parte de cima das orelhas, exibidos em suas campanhas publicitárias da Céline.

O piercing também ganhou espaço entre as celebridades. A atriz Emma Watson, uma das clientes de Sarah, foi fotografada com piercings. No começo de julho, Rihanna apareceu numa boate com uma argola no septo, embora tenha se especulado muito na internet que era "de mentirinha".

As atrizes Julianne Moore, Zoë Kravitz e Scarlett Johansson, modelos como Candice Swanepoel e Erin Wasson e Emily Weiss, do site de beleza Into the Gloss, tiveram piercings. E todas procuraram J. Colby Smith, da New York Adorned, que se tornou uma espécie de guru da moda do piercing.

Smith, de 37 anos, faz piercings desde 1999. Filho de uma família de Testemunhas de Jeová, em Utah, a rebelião se manifestou por meio do skate e da música industrial e hardcore. Fazer um piercing e aprender a aplicá-los foram ritos de passagem. Agora ele atende 30 clientes por dia.

Smith é conhecido pela estética delicada, colocando pequenas argolas ou pinos na orelha, muitas vezes com ouro rosa ou diamantes negros. "O truque é agrupar belas peças sutis", explicou. Houve épocas em que isso era considerado feio, mas a joalheria está recuperando o tempo perdido com peças refinadas, simples e de alta qualidade. Na verdade, designers de joias como Hirotaka Jewelry, Wendy Nichol, Blanca Monrós Gómez, Jacquie Aiche e Ginette NY estão alimentando a nova estética, com argolas delgadas e minúsculos pinos ou barras em pedras preciosas.

Recentemente, no pequeno estúdio de piercing de Smith nos fundos da New York Adorned, John Arthur Peetz, de 27 anos, fazia o segundo piercing na orelha direita, e a amiga Carmen García Durazo, 25 anos, colocava uma argola de ouro na peça em formato de concha que ela tem afixada mais ou menos na metade da cartilagem da orelha. Enquanto tocavam músicas do The Cure e do Velvet Underground ao fundo, García Durazo, que colocou piercings nas orelhas pela primeira vez "quando tinha poucas horas de vida", falava sobre a administração da dor. "Eu gosto de dar gritinhos e de segurar a mão de uma pessoa". "Conheço seu tipo", disse Smith com um sorriso.

"De cara você tem uma paixonite por ele", disse Elizabeth Brockway, de 24 anos, pesquisadora fotográfica freelancer do site Vogue.com, que mora em Nova York. "Ele não tem nada de ameaçador, nem mesmo neste intimidante estúdio de tatuagem e piercing no East Village". Ela procurou Smith para fazer sete dos nove buracos que tem nas orelhas. "Parece uma tonelada, mas são joias delicadas de ouro rosa, então não parece tão selvagem".

Ela também tem um piercing no septo nasal, mas logo acrescentou: "Não o uso na frente dos meus pais. E ainda não usei na Vogue, mas sei que poderia".

Segundo Smith, o piercing de septo "é agressivo e tem o objetivo de parecer intimidante", mas ele procurou garotas bonitas e estilosas para experimentarem, ajustando anéis pequenos tão próximos do septo que eles só são notados quando se olha bem de perto.

Alguns piercings, como na língua, sobrancelha e alargadores que produzem buracos grandes nas orelhas são considerados démodé: o visual lembra demais o de garotas que se rebelaram ou não são sutis o suficiente para serem considerados bacanas.

"O piercing funciona com um visual de menininha, como um contraste, mas também para a moda minimalista da Jil Sander que está voltando", disse Ilaria Urbinati estilista de moda que trabalha com as atrizes Shailene Woodley e Lizzy Caplan. Quanto a ela mesma usar piercings, Urbinati acha que hesitou tempo demais. "Nos três últimos jantares de gala de que participei, os convidados falaram em fazer piercings", ela contou. "Eu estava pensando em fazer, mas agora virou modinha demais".

As tendências vêm e vão – ao contrário das tatuagens. Se você se cansar dos piercings, não precisa ficar com eles. "Piercing na orelha inteira é uma escolha", disse Slutsky. "É sofisticado, feminino e apropriado para o escritório. Não é uma luta contra o sistema".

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