Oficinas de visagismo, manicure e beleza para pacientes e acompanhantes ajudam a elevar a autoestima e colaboram para que tratamentos de doenças graves sejam bem-sucedidos

“Eu sempre gastei muito dinheiro com meu cabelo, ele era enorme”. As palavras saudosistas saem da boca de Kátia Montefusco, 36 anos, enquanto ela mostra uma série de selfies em seu telefone celular. Maquiada com sombra, batom e uma cabeleira realmente longa, a moça que nos olha da tela do aparelho transmite vaidade e, além disso, orgulho.

Kátia é uma paciente no Instituto do Câncer do Estado de São Paulo e está no último ciclo da quimioterapia contra câncer de mama. Pela primeira vez, a lojista participa da oficina de visagismo promovida por profissionais voluntários no hospital e está ansiosa para retirar a henna que lhe dará novas sobrancelhas – devido ao tratamento, Kátia perdeu os cabelos, as sobrancelhas e os cílios.


Mudanças
Em outubro passado, Kátia recebeu a confirmação de que seu tratamento começaria e o sentimento foi conflitante. “Eu fiquei feliz, porque isso queria dizer que eu ia me tratar, mas ao mesmo tempo me toquei que ia ficar careca”, conta. Quando o cabelo começou a ficar realmente ralo, Kátia pegou o aparelho de barbear do marido, Daniel, e raspou a própria cabeça. “Foi uma cena digna de novela, com muita emoção”, ela lembra.

Desde então, Kátia está sempre com um lenço na cabeça, especialmente em casa, pois não quer que o marido e o filho de 15 anos a vejam fragilizada. “Eu preciso me manter forte pelo meu filho, e não quero que meu marido me veja assim”, explica. Kátia até ganhou uma peruca das voluntárias do ICESP, mas o acessório foi roubado quando seu carro foi arrombado. “Eu tinha usado [a peruca] em um casamento”, Kátia mostra outra foto de si, com curtos cabelos postiços: “o corte era superdiferente”.

A doença de Kátia, assim como outras que exigem tratamento intenso, abalam os pacientes tanto física quanto psicologicamente. “O câncer de mama, para a mulher, é muito agressivo”, diz Christina Tarabaya, psico-oncologista do hospital A. C. Camargo. “Em 24 horas seu corpo pode mudar drasticamente, seja por causa dos cabelos que caem ou de uma mama que é removida”, explica.

Essa mudança drástica exige um período de adaptação à nova imagem e à nova condição. “Algumas mulheres que nunca foram vaidosas começam a usar maquiagem e acessórios nessa fase, porque percebem que sua imagem causa uma forte impressão para si e para os outros. Às vezes, é questão de mudar o foco, de se adequar. Quem só cuidava do cabelo pode começar a caprichar na maquiagem”, conta Christina.

A manutenção da vaidade e, principalmente, da autoestima, é fundamental para o tratamento ser o mais bem-sucedido possível, pois os fatores emocionais influenciam muito no tratamento. “O tratamento das doenças agressivas é mais eficaz quando a paciente tem fé e vê um motivo para lutar”, conta Fanny Grinfeld, coordenadora do Programa Contínuo de Apoio a Pacientes, Familiares e Amigos (PROCAP) do Hospital Israelita Albert Einstein. Ainda segundo Fanny, quando a paciente se cuida e se sente cuidada, a autoestima fica elevada e o sistema imunológico responde a essa positividade.

Embora muito se fale nos benefícios da autoestima elevada no tratamento oncológico, a literatura médica atesta sua eficácia em tratamentos de diversas doenças. De acordo com o artigo “Avaliação do apoio social e da autoestima por indivíduos coronariopatas, segundo o sexo”, publicado na Revista da Escola de Enfermagem da USP, em 2009, e de autoria de Camila Silvério, Rosana Dantas e Ariana Carvalho, “a elevada autoestima tem sido associada a baixos níveis de depressão e tensão, favorável recuperação social e física e elevada qualidade de vida após eventos cardíacos”.

Entre amigas
No A.C. Camargo, o grupo Amor à Vida reúne as pacientes para palestras e atividades e, nesses momentos, acontecem trocas de dicas de beleza entre as mulheres. “Essa sensação de pertencer a um grupo, de ter apoio de um semelhante, dá muita força à mulher para enfrentar a doença”, conta Christina.

Além do apoio à paciente, é importante dar atenção também às inseguranças dos familiares e acompanhantes. Maria Valéria Figueiredo e Ana Paula Freitas estavam na mesma oficina que Kátia, no ICESP, e aguardavam sua filha e marido, respectivamente, terminarem de tomar a medicação.

“Eu costumo conversar muito com vizinhos e amigos que passaram por algo assim”, conta Valéria, cuja filha Amanda teve um melanoma maligno. “A gente até conversa na sala de espera”, diz Ana Paula, “mas tem momentos que pedem silêncio”. As duas mulheres fizeram as sobrancelhas e as unhas nos serviços voluntários do ICESP, para passar o tempo e, principalmente, se distrair.

Segundo Marcelo Cândido, supervisor de hospitalidade do ICESP, a ideia do programa é acolher tanto o paciente quanto a família, para que todos se sintam confiantes no corpo médico e no tratamento oferecido. “No núcleo de beleza, a ideia é tirar o foco da doença, e quando a sala está cheia fica realmente um clima de salão de beleza”. Cândido e a equipe passam pelos leitos convidando os acompanhantes para participar das atividades e, no caso dos pacientes acamados, levam o serviço para o quarto.

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