Depois de perder a avó, Naylor Fallararo resolveu cuidar de outros velhinhos: hoje é responsável por manter a autoestima de idosos sempre em dia

Às vésperas de completar mais um ano de vida, o cabeleireiro Naylor Fallararo teve uma ideia. Em vez de comemorar a data em um bar ou balada, por que não celebrar na casa dos amigos dona Gumercinda, dona Chiquinha e seu Octávio, entre outros tantos? Enquanto Naylor completava 30 anos de idade, alguns destes seus amigos já passam dos 90, e moram em uma casa de repouso em Santos, litoral de São Paulo.

O cabeleireiro não fez estes amigos por acaso. Ele corta os cabelos dos idosos da casa de repouso há dois anos, sem cobrar nada por isso. Às segundas-feiras, dia de folga do salão em que trabalha, ou aos domingos por volta das 15h30 – horário estratégico para não atrapalhar as refeições dos amigos, Naylor se coloca à disposição dos velhinhos, para todo mundo ficar mais bonito.

Naylor começou a cortar cabelos na adolescência, atendendo familiares. Quando terminou o ensino médio, se profissionalizou e fez do hobby de cabeleireiro, profissão. Mas não deixou de lado uma de suas clientes mais fieis da família, a avó Aracy. Ele morava em Santos, e ela em Araraquara, no interior de São Paulo. Naylor não hesitava em enfrentar os 350 km de estrada para cuidar da avó. E foi assim até 2011, quando dona Aracy morreu.

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Duas semanas depois, Naylor resolveu entrar em uma casa de repouso no caminho para o trabalho. “Passava em frente todos os dias e pensava em conhecer. Nesse dia tomei coragem, toquei a campainha e conversei com a proprietária”, conta.

Logo o serviço voluntário e constante de Naylor substituiu a cabeleireira que aparecia eventualmente por lá - e ainda cobrava R$ 5 pelo corte. Como em um salão de beleza, ele atende aos pedidos – enquanto alguns clientes são bem exigentes, outros dão liberdade para o profissional fazer o que achar melhor.

O primeiro dia, ele conta, foi triste e tenso. “As pessoas não estão preparadas psicologicamente a realidade dos velhinhos. Alguns têm Alzheimer, outros babam, ou ficam amarrados em lençóis para conseguirem permanecer sentados na cadeira. Segurei o choro, pensando na minha avó. Nós sempre nos preocupávamos em comprar a melhor fralda, a sopinha mais gostosa... e todos merecem tanto carinho e amor quanto ela”.

Naylor consegue fazer cerca de 10 cortes em duas horas de trabalho. “Seria muito melhor se eu conseguisse uma companhia para trabalhar comigo e agilizar o processo. Já convidei vários profissionais amigos meus, mas ninguém se habilita, é muito difícil”, lamenta.

Mais do que clientes, o cabeleireiro ganhou amigos. Cita Roseli, que tem Síndrome de Down e adora falar sobre comida, as inseparáveis Gumercinda e Chiquinha, sempre sorridentes, e Octávio, ex-jornalista, escritor e poeta que surpreende com sua inteligência e lucidez aos 92 anos. “Sinto paz em lhes dar um pouco de alegria. Eles me agradecem com abraços, beijos e falam coisas bonitas. Tudo que eles querem é alguém que dê atenção”, conta.

A festa de aniversário que ele fez na casa de repouso foi uma delícia, com todos os velhinhos lindos, de cabelos bem cortados e penteados. Naylor comprou bolo, salgadinhos, refrigerantes, e foi presenteado com uma trilha sonora surpreendente. Seu Edgar, um dos moradores da casa de repouso, tocou no teclado de clássicos dos Beatles até músicas da banda alemã Kraftwerk. “Foi meu maior presente. Tudo o que eu queria era dar um momento de felicidade para, mas na verdade, eles me fizeram feliz”, encerra.

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