Autoridade em saúde pública alerta que o receio em molhar ou suar os fios leva mulheres ao sedentarismo

Rebecca diminuiu a frequência de atividades físicas para poupar o cabelo
NYT
Rebecca diminuiu a frequência de atividades físicas para poupar o cabelo
A maior autoridade em saúde pública americana, o Office of the Surgeon General, normalmente ataca problemas abrangentes, como tabagismo e prevenção de doenças. Mas a diretora atual do órgão, Regina M. Benjamin, visitou uma feira de negócios neste mês para falar sobre outro problema. Segundo ela, muitas mulheres deixam de se exercitar porque estão preocupadas em estragar o cabelo. “Muitas vezes vemos mulheres falando que não podem se exercitar hoje porque não querem suar ou molhar o cabelo”, disse ela em entrevista. “Quando você começa a fazer exercícios busca motivos para não ir, e o cabelo acaba sendo mais um deles”, completa.

O problema, para Benjamin, é que muitas mulheres investem quantias consideráveis de dinheiro e tempo em relaxamentos e outros tratamentos químicos para transformar os cachos naturais em looks lisos e sedosos. Umidade e movimentação, porém, podem rapidamente desfazer os procedimentos e, em função disso, elas evitam atividades físicas de vez.

A feira que Benjamin participou – a Bronner Bros International Hair Show – reúne 60 mil hairstylists, incluindo aqueles especializados em tratamentos para fios afros. “Odeio usar a palavra ‘desculpa’ mas essa é uma delas”, disse a diretora. “Queremos encorajar pessoas e também dar às mulheres a possibilidade de se sentirem bonitas por sua saúde”.

Outros experts médicos apontaram que o fator estético é apenas um entre vários obstáculos do exercício. Para quem lida com cobranças familiares, dos filhos e do trabalho, fazer uma hora de exercício pode parecer um luxo e ao final do dia e muitas mulheres "estão simplesmente cansadas”, disse Panela Peeke, professora assistente de medicina na Universidade de Maryland e porta voz da Faculdade Americana de Medicina Esportiva. “Escuto isso dos meus pacientes o tempo todo”, diz.

Pesquisadores do Wake Forest Baptist Medical Center, na Carolina do Norte, avaliaram 103 mulheres negras e perceberam que um terço delas se exercitava menos por conta da preocupação em prejudicar seu cabelo. Dessas mulheres, 88% não seguiam a recomendação de fazer 150 minutos semanais de atividade física de média intensidade. Amy McMichael, que comandou o estudo, disse que notou que algumas das suas pacientes acima do peso mencionaram o cabelo entre os motivos pelos quais não faziam ginástica.

Desde que começou a ocupar o cargo de Surgeon General, Benjamin lançou iniciativas para estimular exercício físico, boa alimentação e contra o fumo. Mas seu ponto de vista da relação entre o cabelo e a saúde é o que recebeu mais atenção. “Não são só as mulheres negras. Tenho falado com muitas pessoas e percebi isso com outras pacientes também. Elas dizem: arrumo meu cabelo uma vez por semana, não quero estragar”.

Rebecca Alleyne, uma cirurgiã de câncer de mama de Los Angeles, disse que corria, andava de bicicleta e nadava seis dias por semanas até um ano e meio atrás, quando ela colocou extensões nos cabelos. “Sabia que iria parar um pouco. A barreira para mim eram os 60 dólares e duas horas e meia de investimento, que me deixaram parada alguns dias para preservar meu cabelo”. Em seis semanas ela diz que ganhou dois quilos e meio.

Jackie Gordon, 47, secretária executiva, começou a alisar seu cabelo na adolescência. A companhia onde ela trabalha até permite pausas maiores na hora do almoço para quem vai fazer exercício, mas ela não acompanha os colegas na aula de spinning: “é muito esforço arrumar meu cabelo depois, mas quando digo isso percebo os olhares. Dizem que estou dando desculpas”, diz ela. “Tenho que secar e modelar meu cabelo, é no mínimo hora de trabalho”, completa.

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