Peruqueira Nilta Murcelli completa 50 anos de carreira e tem como clientes Xuxa, Ana Maria Braga, Cláudia Raia e uma coleção de histórias

O dedo indicador movimenta a madeixa de fios soltos, o dedão serve de apoio e o médio arremata o trançar dos cabelos feito ponto de crochê. As pregas realizadas na carcaça de silicone ficam tão rentes uma às outras que, após colocada, ninguém diz que a peruca não é cabeleira natural.

Há cinco décadas, as mãos da peruqueira Nilta Murcelli, 75 anos, repetem estes movimentos que já fizeram a atriz Regina Duarte virar Chiquinha Gonzaga, esconderam as sequelas da quimioterapia de Ana Maria Braga e disfarçaram o "andar de cima" calvo de políticos de quem ela ameaça revelar a identidade, mas volta atrás.

“Destes clientes, prefiro não dizer o nome”, diz diminuindo a voz, dentro dos dois andares da loja e salão de beleza que leva seu nome, em um prédio instalado na Rua Augusta, São Paulo. É lá que a dona bate ponto de terça a domingo, “sem descanso”.

Com sotaque meio mineiro, meio ítalo-paulista – que indica a origem da menina nascida em Monte Alegre (MG) e crescida na zona leste paulistana – Nilta conta sua história como uma das experts em perucas há mais tempo na ativa no Brasil. Começou a carreira fazendo penteados em bonecas de pano, inovou na técnica atendendo aos pedidos das vizinhas que queriam “ser Brigitte Bardot” e completa 50 anos de trabalho fazendo a cabeça das mais variadas estrelas da televisão e do cinema.

Os porta-retratos que enfeitam o local de trabalho espalham os rostos das clientes famosas que já sentaram na cadeira de Dona Nilta: Xuxa, Luana Piovani, Claudia Raia, Glória Pires e Deborah Secco , entre outras. São tantas as artistas que, quando a peruqueira grita para uma das 48 assistentes trazer “a Rita Lee e a Ana Maria Braga”, a impressão é de que a cantora e a apresentadora vão, de fato, descer as escadas do salão.

Alarme falso. Dona Nilta batiza suas perucas com o nome das musas inspiradoras do acessório. As confecções, além de ajudarem a dar forma a personagens de novelas, minisséries, cinema e teatro, também embelezam pacientes que perdem os cabelos por causa de doenças, em decorrência da idade ou só por vontade de inovar o visual.

No salão na rua Augusta, em São Paulo, Nilta posa com parte da equipe de 48 pessoas
André Giorgi
No salão na rua Augusta, em São Paulo, Nilta posa com parte da equipe de 48 pessoas

Enquadrada por perucas de sua autoria, Dona Nilta topou fazer o ensaio fotográfico que ilustra a reportagem. Em segundos, incorporou a grisalha cruel Miranda Priestly – protagonista de "O Diabo Veste Prada" –, a ruiva sexy Jessica Rabbit, a roqueira com mechas Rita Lee e a loira com raiz marcada, estilo Ana Maria, de quem sente saudade e “é amiga desde os tempos do "Note e Anote”, antigo programa da apresentadora na Rede Record.

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“Sinto falta também da Hebe”, divaga com tristeza, relembrando a morte da outra loira animadora de auditórios, “que terá para sempre no coração”. As duas ficaram amigas porque Nilta fez perucas sob medida para ajudar Hebe a não perder a vaidade durante o período em que ficou careca por causa do tratamento contra o câncer. “Ela dizia que o médico cuidava do corpo, mas da cabeça a responsável era eu”.

Nilta virou grife e referência para muitos outros artistas, fazendo perucas – costuradas à mão e à maquina – além de penteados e megahair (alongamento artificial dos fios). O custo hoje dos produtos chega em até R$ 10 mil, e um aluguel pode custar R$ 400. “E pensar que tudo começou com o sonho de ter uma loja nos Jardins (bairro nobre da capital paulista)”, diz, pontuando o início da trajetória.

Silvio Santos
Quando menina, Nilta ganhava bonecas de pano costuradas pela mãe e, como brincadeira, enfeitava a cabeça das “filhinhas” com retalhos. “Comecei a treinar aí.” Sempre teve talento para o crochê e paixão por cabelos, “mas jamais pensou em unir as duas coisas em um ofício”, lembra.

Viveu até os 17 anos na cidade mineira, estudou só até o primário, e veio para São Paulo junto com os pais tentar uma nova vida. O dinheiro foi difícil de achar na cidade dos sonhos, mas um amor Nilta encontrou. Casou, engravidou com 20 anos e foi morar em uma casa de dois cômodos.

O salário do marido marceneiro era curto “para tanto mês” e mesmo sem luxo na casinha, dona Nilta viu potencial na penteadeira que tinha no quarto. Naquele móvel, começou a fazer o cabelo das vizinhas que sempre pediam os coques e ondulações “à la Brigitte Bardot”.

O que era “bico” virou carreira e Nilta abriu o primeiro salão no bairro do Belém, zona leste, oferecendo cursos a outros peruqueiros iniciantes. Em 1965, viu que Silvio Santos realizava um concurso de perucas todos os domingos. “Fiz um penteado inusitado, inspirado na ‘A Praça É Nossa’ (programa de humor). Ganhei o primeiro lugar”.

Anos depois, foi premiada novamente, desta vez pela Associação dos Cabeleireiros. Ganhou uma viagem para a Alemanha. “Sabia que, de lá, era mais fácil ir para a França. Aproveitei a viagem e fiz um curso francês de trança de raiz. Dei sorte, porque voltei ao Brasil sendo a única profissional com esta técnica, que inovou o jeito de fazer alongamentos.”

Mulher de Fases
A clientela crescia e Nilta só pensava em abrir um salão nos Jardins. “Todo cabeleireiro famoso, que dava palestras, tinha salão neste bairro”, lembra. “Dei sorte novamente. Um amigo que atendia clientes na rua Augusta, a mais charmosa na minha opinião, estava cansado e quis vender o ponto bem baratinho. Comprei no início dos anos 1980”.

Nesta época, Nilta já fazia sucesso com as perucas e apliques, desenhados com a técnica de trança enraizada e pontos de crochê. Os pedidos das suas clientes mudavam conforme o passar dos anos e, olhando em retrospectiva, formam uma linha do tempo sobre o padrão de beleza das mulheres.

“Primeiro, elas só queriam parecer a Brigitte Bardot e As Panteras (série de TV dos anos 1970). Depois, os pedidos eram pela Wanderléia (Jovem Guarda). Aí veio o padrão liso absoluto dos anos 1980 e 1990 e finalmente as ondas e movimentos estilo Gisele Bündchen”, pontua. “Ultimamente, me pedem muito para ficar igual à Dona Helô (personagem de Giovanna Antonelli na novela ‘Salve Jorge’).”

Em meio a estes pedidos variados, um dia o telefone da loja da Augusta toca e era da Globo, sim, a emissora. “Ficaram sabendo das minhas perucas e pediram para eu transformar a Regina Duarte em Chiquinha Gonzaga (personagem da minissérie global de 1999)”, conta. “Adorei a Regina, minha primeira famosa. Não parei mais. Já fiz a Piovani, o Raul Cortez, a Glória Pires, a Glória Menezes, a Cláudia Raia”, e estende a lista, mostrando as fotos.

“Até na casa da Xuxa eu já dormi para terminar a peruca usada em um dos filmes (‘O Mistério de Feiurinha’). Olha, foi a cama mais confortável que eu já deitei. Isso porque era o quarto de hóspedes!”.

Dona Augusta
O ofício de peruqueira foi passado para a família, e hoje, a única filha e as duas netas são sócias do salão, que ocupa 2 mil metros quadrados e tem até elevador – para as clientes com dificuldade de andar poderem chegar ao segundo andar. Nas transformações femininas que as perucas de dona Nilta ajudaram a proporcionar, ela só lamenta as mudanças ocorridas no entorno do seu sonhado salão.

“A rua Augusta mudou demais nos últimos 25 anos. Já foi incrível e perdeu seu prestígio. Calçadas esburacadas, lixo, pobreza”. Se a rua fosse uma mulher, suspira Dona Nilta, ela faria uma peruca linda para radicalizar o visual da Dona Augusta.

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