Consultoras sensuais sugerem produtos com jeitinho especial para não assustar as consumidoras

O relógio marca duas horas da tarde de sábado em São Paulo, pouco mais de 200 pessoas se acomodam animadas nas cadeiras da sala de eventos de um hotel na região central da cidade. As mulheres dominam a plateia e também o tema do encontro: a venda de produtos eróticos em lojas e, acredite, de porta em porta. Nas próximas três horas, as chamadas consultoras vão ouvir uma palestra sobre a melhor forma de utilizar os cosméticos sensuais e dicas de sexo anal e oral. O objetivo é aprender para poder orientar melhor as clientes, mas as dúvidas pessoais logo surgem.

Quem comanda o evento com desenvoltura é a empresária capixaba Elaine Pessini, dona de uma marca de cosméticos sensuais que leva o seu sobrenome. “Eu era sacoleira, vendia lingerie nas casas das clientes. Depois de um tempo, comecei a perceber que elas queriam produtos para esquentar a relação, mas tinham vergonha de entrar num sex shop. Aí decidi vender também géis íntimos”, conta a empresária, que teve uma distribuidora destes produtos e posteriormente decidiu fabricá-los ao lado do marido, um tenente da polícia militar.

A consultora Edivania, 33 anos, vende produtos eróticos há cinco anos: “Tem que ser delicada e não usar palavras que assustem”, ela diz
Bruno Zanardo/Fotoarena
A consultora Edivania, 33 anos, vende produtos eróticos há cinco anos: “Tem que ser delicada e não usar palavras que assustem”, ela diz

Na plateia da convenção, muitas histórias de pessoas que estão ganhando um bom dinheiro como consultores de produtos sensuais. “Eu era usuária dos géis íntimos que esquentam e esfriam, então percebi que isso poderia ser um bom negócio e comecei a vendê-los”, diz Rosana Salviano da Silva, 36 anos, que está na área há quatro anos. “A maioria dos meus clientes são mulheres, elas começam tímidas, comprando um óleo de massagem, e depois vão se soltando, pedem um gel comestível para sexo oral, uma algema ou um vibrador”, descreve.

Perfil da brasileira pede embalagens discretas para não constranger as clientes
Bruno Zanardo/Fotoarena
Perfil da brasileira pede embalagens discretas para não constranger as clientes

Laerto Lourenço, 34 anos, não esconde sua empolgação com o mercado erótico. Sócio ao lado do irmão de um sex shop no bairro paulistano de Itaquera, ele mantém um time de 50 consultoras. “Prefiro trabalhar só com mulheres, elas sabem lidar com mais delicadeza com as clientes, sem assustar. O único homem da equipe é gay e fala com a mulher sem que ela fique constrangida”, esclarece o empresário. Lourenço também conta quais produtos eróticos estão fazendo mais sucesso ultimamente. Sem duplo sentido, ele diz: “o anel vibratório peniano está bombando, vendendo muito. É um anel colocado na base do pênis e que provoca pequenas vibrações e prolonga a ereção”, revela.

Além de visitar as clientes que ligam e agendam visitas, as consultoras organizam reuniões para divulgar e vender seus artigos picantes – como nas antigas reuniões de tupperware. Restrito apenas a mulheres e chamados de "Sex Toy Party", esses encontros permitem que um grupo de amigas conheça e manuseie os cosméticos e brinquedos eróticos de uma forma divertida e descontraída. “A consultora faz demonstrações, esclarece dúvidas e também dá dicas de como inserir esses itens de maneira tranquila na relação”, exemplifica Elaine. Mas diferentemente das empresas que comercializam itens de beleza no mesmo sistema, a venda é feita de imediato e não por encomenda. “A cliente quer o produto na hora, muitas vezes para usar no mesmo dia. Não dá para esperar 15 dias”, explica.

Presidente da Associação Brasileira das Empresas do Mercado Erótico e Sensual, Paula Aguiar diz que o setor dos consultores sensuais teve um boom em 2011 por causa do longa-metragem " De Pernas pro Ar ”, estrelado por Ingrid Guimarães. “O filme mostra como o mercado está se profissionalizando e perdendo os estigmas e preconceitos”, analisa a dirigente. De acordo com Paula, a previsão para venda de cosméticos sensuais neste ano deve chegar a 80 milhões de unidades, incluindo aí géis que além de esquentar e esfriar também prometem prolongar a ereção, retardar a ejaculação, dar pequenos choques nos genitais e provocar contrações vaginais.

“Como qualquer consultora da Natura ou da Avon, por exemplo, o faturamento depende do tempo dedicado às vendas. Aquela que só vende para as amigas no fim de semana pode faturar R$ 500 por mês. Mas a consultora que se dedica chega a ganhar R$ 5 mil por mês”, expõe Paula. Para finalizar, a dirigente fala sobre uma curiosa característica da discreta consumidora do Brasil. “As brasileiras gostam de embalagens pequenas, para usar uma vez e jogar fora. É diferente da americana, que compra tubos grandes econômicos e coloca no banheiro sem vergonha das visitas”, conclui.

Conhecedora destes dados e expert também em artes sensuais e pompoarismo, Elaine Pessini prossegue sua palestra. O arsenal de informações adquirido faz com que nenhuma das dúvidas da reunião fique sem resposta. Em certo período da convenção, ela pede que os homens se retirem e só as mulheres fiquem na sala – o repórter e fotógrafo desta matéria permanecem no recinto. No momento só delas, a empresária fala de uma famosa posição sexual. “Na hora de ficar em cima do marido, tipo cavalgando, não pode se balançar como uma doida. Tem que manter a postura. Peito de rica não mexe, só o quadril”, brinca.

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