O psicólogo Ailton Amélio explica como desconstrói a imagem idealizada do ser amado

A dor de amar e não ser correspondido pode ter a intensidade de uma patologia grave, garante o psicólogo Ailton Amélio, autor de diversos livros sobre relacionamentos e especialista na área há mais de trinta anos. Para curar corações partidos ele criou a “Teoria do Desapaixonamento”, que promete desconstruir a imagem idealizada do ser amado durante sessões no consultório. Em entrevista ao Delas, Amélio explica como faz para que seus pacientes superem desilusões sentimentais e voltem à vida. “É um pouco como por os pés no chão”, garante.

iG: O que é a Terapia de Desapaixonamento?
Ailton Amélio: Não se trata de nenhuma mágica, fórmula ou remédio. Tem uma teoria do (Marie-Henri Beyle) Stendhal – escritor francês do século 19 – de que é preciso admirar, ter esperança de reciprocidade e certa dose de insegurança para nascer o amor por alguém. Eu inverti a teoria dele. Então, eu ajudo a pessoa a questionar essa admiração, que no fundo é uma idealização do ser amado. Eu ainda auxilio essa pessoa a verificar se há realmente a possibilidade da outra parte corresponder ao amor.

iG: E como isso funciona na prática?
Ailton Amélio: A pessoa vem ao meu consultório só querendo falar coisas maravilhosas do ser amado. Eu faço com que ela entre em contato com o outro lado, como as características negativas dele ou dela. Daí essa pessoa vai descrevendo as características negativas ou coisas que parecem positivas agora, mas que ao longo do tempo podem se tornar ruins. Eu ajudo o apaixonado a encontrar imagens ruins do outro e depois a montar tudo como se fosse um filme, com cores, sons e ações. Tudo isso sem nunca distorcer a verdade sobre o amado, apenas separando o que é real do que é imaginado. É um pouco como por os pés no chão.

Ailton Amélio:
Arquivo Pessoal
Ailton Amélio: "Tem gente que desapaixona rápido, às vezes fica até com raiva do outro, pega ojeriza"
iG: Você diz que o amor precisa de reciprocidade, mas em muitos casos não há retorno e a pessoa continua apaixonada...
Ailton Amélio: O amor não subsiste sem esperança, mas tem gente que passa anos com esperança, alimentando-se dos mínimos sinais de reciprocidade. No entanto, muitos sinais são apenas de amizade, consideração e polidez, e isso possibilita muitas confusões. Eu ajudo a deixar as coisas mais claras. A gente planeja e até simula uma abordagem, tudo para que ela possa ter certeza lá fora.

iG: Um “não” pode ser libertador...
Ailton Amélio:
Sim. É extremamente dolorido, mas abrevia o sofrimento. A boa notícia é que algumas vezes a esperança se confirma e acaba dando certo.

iG: Em quais situações as pessoas procuram pela Terapia do Desapaixonamento?
Ailton Amélio:
É comum em casos de traição – quando a pessoa sofreu uma agressão ou um golpe financeiro. Ela ainda ama o outro, mas houve um quebra de confiança e não dá para continuar a relação. Em outra situação, a pessoa passa anos apaixonada, mas quando se declara não é correspondida e acaba ouvindo: “Você está viajando, eu só tenho amizade por você”. Tem também casamentos que se desfazem, mas apenas uma das partes deixa de amar. É sempre muito sofrido.

iG: O sofrimento por uma paixão pode ser paralisante?
Ailton Amélio:
Com certeza. Algumas pessoas me procuram em situações graves, não conseguem se envolver em outros relacionamentos. Essas pessoas abandonam o emprego e não dormem. Muitos não conseguem mais trabalhar, estudar e nem saem da cama. Uma paixão não correspondida pode levar a uma depressão séria, principalmente se houver uma predisposição. Para algumas pessoas o negócio é muito severo, se compara a perda de um parente querido.

iG: Aquela velha máxima de que ‘só uma nova paixão cura um amor não correspondido’ faz sentido na vida real?
Ailton Amélio:
Não costuma fazer sentido se for forçado. Se acontecer naturalmente, pode ajudar. Até pode ser bom avistar alguém no horizonte, mas o melhor é desidealizar o amado, melhorar a autoestima e refazer a vida com novos projetos.

iG: Quantas sessões são necessárias para superar uma paixão?
Ailton Amélio:
Varia muito. Tem gente que desapaixona rápido, às vezes fica até com raiva do outro, pega ojeriza. Já outras pessoas demoram mais e até reincidem, principalmente quando o lado de lá dá um sinal, uma esperança. Eu já tive que chamar a outra parte no consultório, ela não estava consciente dos danos que causava cada vez que dava uma esperança, mas a maioria já apresenta melhora em dois ou três meses.
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Ailton Amélio é criador da disciplina “Relacionamentos Amorosos” na Universidade de São Paulo e autor de diversos livros, entre eles “Relacionamento Amoroso” (Publifolha) e “O Mapa do Amor” (Gente Editora).

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