Ele é entusiasta do Android, mas ela insiste: o iPhone é melhor. Agora eles vão discutir para saber quem tem razão

Existe um intruso em meu leito conjugal. Brilhante, colorido, sedutor e fácil de agarrar, ele está capturando a atenção do meu marido à noite. E eu já estou farta disso.

O intruso é o iPad dele, uma compra à qual objetei arduamente. Depois de um longo dia vendo luzes piscando na frente da minha mesa no trabalho, da minha mesa em casa, do meu laptop e do meu celular, fico feliz em libertar meus olhos e me retirar para as sossegadas e estáticas páginas de um livro, à moda antiga. Mas o iPad, com seus ícones alegres e claridade insistente, invariavelmente rouba o meu olhar em uma distração inevitável. Não consigo ler perto dele. Meu marido o adora.

iPad, o tablet da Apple, invade a cama do casal
Getty Images
iPad, o tablet da Apple, invade a cama do casal
Nossa rixa sobre leitores digitais de livros versus "madeira morta" (como chamariam cruelmente os tecnófilos) não é a única discordância baseada em dispositivos eletrônicos que se metem em relacionamentos que, de outra maneira, seriam harmoniosos. Recentemente, tentando resolver um problema em meu iPhone, pedi ajuda a uma colega. "Estive pensando em comprar um iPhone", ela me disse, melancolicamente. "Mas meu marido é bastante antiApple. Ele não quer nenhum produto deles dentro de casa".

Um casal poderia parecer adorável procurando juntos por itens na Apple Store. Trocar livros online também seria ótimo. Mas nem todos se dão bem tecnologicamente. O homem pode insistir em um Kindle, enquanto sua esposa quer usar um Nook. Para outros é a persistente discórdia sobre BlackBerry ou iPhone – ou o antigo debate PC versus Mac.

"Meu namorado Bill acha o meu telefone ridículo", afirmou Amy Robinson, de 28 anos, que ainda usa um aparelho Nokia dos anos 90. "Ele tira sarro de mim o tempo inteiro: 'Por que você ainda tem esse telefone? O que há de errado com você?'".

Bill Rice, o namorado de 30 anos, trabalha em uma startup de tecnologia e foi uma das primeiras pessoas a adquirir o Motorola Xoom. E quando o Android 4G foi anunciado, Bill ficou contando os dias até seu lançamento.

Por mais compatibilidade que um casal possa ter enquanto amigos, amantes ou companheiros domésticos, a incompatibilidade tecnológica pode ser enfurecedora. Porque, embora os casais se amem, eles também adoram seus aparelhos. Estudos demonstraram que as pessoas desenvolvem sentimentos muito parecidos com o amor pelos seus telefones celulares. 

A paixão por uma marca pode gerar briga quando a intenção é “converter” o outro
Getty Images
A paixão por uma marca pode gerar briga quando a intenção é “converter” o outro
Melody Chalaban, 35 anos, usuária de iPhone e gerente de relações públicas de uma companhia de software, e Michael Swain, 35 anos, arquiteto e proprietário de um Android, ilustraram a notificação "Reserve a Data" de seu casamento com uma imagem do robô do Android jogando o logo da Apple para o ar – qual dos dois saiu vencedor, se é que houve um vencedor, fica aberto à interpretação.

Apesar de outras afinidades, nem sempre as identidades eletrônicas de um casal combinam. "Eu odeio tanto o iPad quanto o Kindle Fire dela", declarou Charles Ardai, 42 anos, editor da Hard Case Crime, sobre a coleção de tablets de sua esposa, Naomi Novik, de 38 anos. "Tenho repugnância por livros que não sejam feitos de papel e tinta", disse.

Segundo ele, essas diferenças são mais profundas do que o sentimento superficial de gostar mais de um cacareco que de outro. "Naomi é a definitiva criadora de tendências, porque ela é fundamentalmente otimista. E eu sou fundamentalmente um pessimista, o que explica por que escrevo ficção sombria e chocante, e tenho estranhas noções tecnológicas", disse.

Bill Douglas, de 39 anos, consultor de mídia social, sentiu-se traído quando sua esposa, Bis Misra, uma médica de 37 anos, mudou para o iPhone. "Nós compramos juntos os nossos primeiros Droids", lamentou.

Rich Hemlich, diretor de marketing de um site de leilões, de 47 anos, disse que a afeição de sua namorada pelo iPhone o deixa maluco. "Ela jura de pés juntos o tempo inteiro que não é uma elitista da Apple, mas pula de alegria sempre que alguém pergunta que tipo de telefone ela tem", disse Hemlich, comprometido proprietário de um Droid Razr.

Ele tentou persuadi-la a "mudar para melhor", mas disse: "Foi aí que começamos a entrar em uma batalha. Ela fica prometendo que vai mudar para um Android quando seu contrato expirar, mas sempre renova o tal contrato”. Em relação a todo o resto, "ela é completamente fiel a mim".

Seja lá o que digam sobre respeitar as escolhas do parceiro, para muitos casais, a conversão do outro é a meta verdadeira. Deborah Sweeney, 37 anos, dona de uma pequena empresa em Calabasas, na Califórnia, era defensora de longa data do BlackBerry. "Durante os últimos sete anos, meu marido tentou me fazer mudar para um iPhone", disse ela. "Ele me dizia constantemente que eu era maluca". Quando a BlackBerry teve uma falha de serviço há pouco tempo, ele ficou radiante: "Viu?" Em novembro, ele finalmente a persuadiu a trocar de telefone. "Eu honestamente tive sentimentos de afastamento e remorso", disse Sweeney sobre a mudança.

Jenna Chavez-Laszakovits, de 25 anos, consultora técnica em San Antonio, é uma mulher tipo PC-Nook-LG. Seu marido Eric Laszakovits, de 31 anos, é um homem tipo Mac-Kindle-iPhone. No Natal de 2010, ele deu a ela um iPod. "Para ser honesta, foi um pouco exagerado", explicou. "Mas ele é um grande entusiasta, e queria compartilhar seu amor pelos produtos da Apple comigo. Acho que o melhor canal que ele encontrou foi o Natal". O marido provocou: "Depois de ganhar o aparelho, ela gostou. A bateria descarrega todo dia, de tanto que ela usa", fato que a esposa admite.

Mas, para muitos casais, os esforços para vencer o parceiro eletronicamente terminam apenas em frustrações. Emma Moore, de 36 anos, dona de uma companhia de software, comprou um Nook para seu namorado, Jim, logo depois que eles começaram a sair.

Ele ainda não ligou o aparelho. "A vida dele ficaria tão mais fácil", disse ela. "Em vez disso, toda manhã ele carrega quatro jornais até a lanchonete. Um dia, eu acho que Jim vai entender o que estou tentando fazer por ele", disse Moore.

Ah, sim, um dia, algum dia ele irá mudar... e quando esse dia chegar, a tecnologia (se não o relacionamento) já terá seguido em frente.

__________________________________
Pamela Paul, The New York Times.

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.