Dificuldades financeiras e até novelas são fatores que explicam o alto índice de rompimentos, segundo especialistas e pesquisas

Foi Cecília Santos quem decidiu se separar do marido. Depois de sete anos de casamento, a tradutora percebeu que eles se afastaram em função de dificuldades financeiras, um parto com complicações e rotinas muito diferentes. “Eu trabalhava bastante e a gente não fazia mais nada junto, não conversava. Sempre saí muito sozinha, mas percebi que não era mais por liberdade e sim por distanciamento”, relata. Já no caso de Eden Wiedmann, publicitário de 35 anos, ele e a esposa resolveram, há cinco meses, colocar fim à união de 12 anos: “Não houve um culpado, mas um desgaste devido aos rumos que tomamos, profissionais principalmente, além da rotina e as mudanças em nossas personalidades“, avalia ele.

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Guilherme Lara Campos / Fotoarena
"Não preciso de um relacionamento para ser feliz", diz Cecília Santos
Casos como o de Cecília e Eden se tornaram comuns e acontecem em função de uma crise na evolução do relacionamento, segundo a psicóloga Eliana Piccoli Zordan, especialista em conjugalidade. “Mais de 50% das uniões ocidentais resultam em separação e isso pode acontecer em todas as etapas da vida”, aponta ela.

As pesquisas mostram que as juras de amor são cada vez menos eternas. O número de divórcios realizados em cartórios aumentou 109% no Estado de São Paulo de 2009 para 2010, segundo dados do Colégio Notarial do Brasil. Desde 1984 a taxa de divórcios se mantém alta no país, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em 2009 o índice ficou em 1,4 casos para cada mil habitantes.

Uma das explicações para o grande número de casais que desistem da vida a dois é técnica: a Lei 11.441, de 2007, facilita a dissolução de famílias sem crianças. Mas o fenômeno social intriga especialistas em relacionamentos. “O casamento não é mais uma definição de vida, é uma tentativa”, diz o psicólogo Joaquim Motta, coordenador do Grupo de Estudos sobre o Amor de Campinas. Segundo ele, a pessoa melhor preparada para o casamento é também a mais pronta para o divórcio: autônoma e independente, mas que naquele momento escolheu estar na companhia do outro. Cecília, agora com 44 anos, concorda: “Não preciso de um relacionamento para ser feliz, tanto que não casei de novo”, diz.

Caminhos separados
De acordo com Zordan, os principais motivos para as separações são traição, desgaste da relação e problemas financeiros. Ela estudou uma amostra de processos judiciais e constatou que 24,7% dos divórcios tinham brigas e discussões como justificativa. “O que está por trás disso é a dificuldade de conciliar projetos de vida, porque as pessoas mudam”, explica. Cecília acredita que no final do casamento ela e o então marido já não tinham mais tantas coisas em comum. “Certamente não somos os mesmos de 16 anos atrás, quando começamos a namorar. É importante se apaixonar e conquistar a mesma pessoa todo dia. E em algum momento do caminho ignoramos isso”, avalia Eden.

A psicóloga divide a vida conjugal em três casamentos: o da paixão, o da criação dos filhos e o da maturidade. Para ela, aqueles que não conseguem amadurecer em cada um desses momentos acabam se separando. “Algumas pessoas saem das relações buscando sempre uma paixão nova”, exemplifica.

Intimidade excessiva
Para Motta, um aspecto importante que leva muitos casais ao rompimento é a mudança na relação erótica em função da intimidade. “No início do namoro ele se arruma e busca a mulher em casa, toda cheirosa. Depois de anos, fazem xixi com a porta aberta ou na frente do outro”, diz. Segundo ele, esse descuido e a falta de reservas tornam o par mais irmão do que amante e diminuem o entusiasmo emocional e sexual.

O romantismo também costuma ser deixado de lado fora quarto. “E aquele faqueiro de prata que o casal ganha e só usa de cinco em cinco anos quando recebe visita? Não têm o cuidado de fazer isso para eles mesmos”, avalia.

Maternidade
Casais com filhos também precisam enfrentar uma mudança na rotina sexual que pode se estender além da fase de amamentação. “Há mulheres que têm dificuldade para transar depois”, diz Motta. Para Cecília, a responsabilidade de criar um filho fez com que se sentisse sobrecarregada.

Finanças
Orçamento curto é um empecilho para os solteiros e casados porque aumenta a irritabilidade e impossibilita atividades prazerosas, como sair para jantar ou viajar. “A gente passou por altos e baixos, ficamos desempregados e faltou maturidade para lidar melhor. Perdemos muito respeito nessa época”, relata Cecília.

Diálogo
Para Zordan, os casais têm uma expectativa elevada quanto ao relacionamento. E, quando aparecem dificuldades e desavenças, entendem que o amor e a paixão deixaram de existir em vez de resolverem o problema. As conversas constantes podem ajudar a entender as novas fases e passar pelas crises. “Se fosse para eleger um vilão diria que foi a falta de cumplicidade. Podíamos ter conversado mais em vez de achar que podíamos ler a mente um do outro”, diz Eden.

Vida social
Uma relação saudável precisa de tempo com os amigos e programas divertidos a dois. “É importante ter uma vida social à parte da família. Todas as nossas relações giravam em torno de outros casais com crianças pequenas também”, relata Cecília. Eden admite que passava muitas horas dedicado ao trabalho e que sua esposa saía pouco com amigas.

Facebook e novela?
Até o computador e a televisão chegaram a ser apontados como vilões do matrimônio. Um estudo do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) sugere uma ligação entre as novelas da Rede Globo e um aumento no número de divórcios no Brasil. Isso seria explicado pela chegada do sinal da televisão aos municípios e personagens femininos fora dos padrões tradicionais de casamento e família.“O mundo de hoje oferece oportunidades como troca de casais, coisas que aparecem em filmes e TV. Com isso ficou um clima mais flexível e moralmente mais tolerante”, avalia Motta.

A vida online das pessoas também gera motivo para a separação. Ao menos é o que mostra uma pesquisa divulgada pela Academia Americana de Advogados Matrimoniais. Segundo a entidade, 20% dos pedidos de divórcio atuais trazem alguma evidência comprometedora citando a rede social Facebook.

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